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Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Sobre os aspectos negativos do Facebook

Quais os aspectos negativos do Facebook para nossas interações cotidianas?


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Há uma frase muito conhecida que diz que se o homem fosse um peixe a última coisa que notaria seria o mar. Escrever sobre o Facebook tem um tanto do afirmado na frase. Todo mundo está lá e, aparentemente, todo mundo sabe tudo sobre a rede social e, portanto, não haveria razão de pousar um olhar mais demorado sobre o tema. Não há um curso de Facebooklogia e não tenho doutorado sobre a rede. No entanto, quero propor que se faça uma reflexão a respeito de aspectos da rede que são negativos e sobre os quais pouca gente pensa e discute. Ao menos, me parece assim.

Esse segundo parágrafo seria pra colocar dados sobre a rede. A clássica prova de que leu sobre o tema. Afirmar que o Facebook é a maior rede social, com 1,35 bilhão de membros. Que seria o segundo maior país em termos de população, que a rede conecta pessoas distantes, permite o debate contínuo sobre temas vários, que aloja grupos do bem e do mal, que utiliza a interação das pessoas para a publicidade, que já fez e faz experimentos psicológicos com as pessoas, levando umas a terem pensamentos negativos e outras pensamentos positivos, que mapeia os gostos vários das pessoas, que criou uma espécie de Ágora, gerando uma politização e discussão política permanente, que é, também, a maior rede de namoro embora não se assuma assim, que foi “orkutizado” com a entrada maciça da população, que serve como uma espécie de segundo RG, que os patrões olham os perfis dos funcionários e o que postam na rede tem impacto no trabalho. Enfim, dizer o que todo mundo sabe, que está na internet. Não é isso que pretendo. Desejo apresentar uma reflexão sobre alguns pontos que considero negativos da rede.

O Facebook destrói a separação clássica entre a esfera pública e privada. Em nossas interações cotidianas nós assumimos papéis sociais que são distintos conforme os vários grupos dos quais participamos. Somos um em casa, enquanto filhos. Outro no grupo punk do qual fazemos parte. Outro no trabalho. Outro na escola. Outro como namorado e segue. Não só mudam os comportamentos como muda também a linguagem, a indumentária, os gestos. O Facebook embaralha esses vários mundos dos quais participamos ao reunir todo mundo numa rede única. Com o tempo, aspectos nossos que eram apresentados apenas num grupo acabam sendo expostos para todas as pessoas dos variados grupos. Teu colega de trabalho não sabia que você curtia tal banda e pode gerar um pensamento negativo depois de saber. A turma do grupo punk não tinha noção que você era um funcionário correto e dedicado e pode gerar um pensamento negativo depois de saber disso. Coisas que eram mostradas apenas num grupo acabam sendo expostas pra todos os grupos e isso pode gerar constrangimentos.

O Facebook também criou problemas naquilo que se chama amizade. Em tese, trata-se de uma rede social para amigos. Mas no Brasil se criou o entendimento de que quem não é aceito é porque é inimigo ou não gostamos da pessoa. Assim, todo mundo adiciona todo mundo. Do porteiro do prédio ao vendedor de cachorro-quente, passando por aquele colega de vinte anos atrás, todo mundo tem que ser adicionado. E se uma pessoa é recusada, isso gera mágoas. O que acaba ocorrendo na prática é que os perfis vão ficando cheios de pessoas que não possuem importância afetiva nenhuma. Apenas estão ali. São vizinhos online. Em tantos casos, pode ocorrer de termos gente que não gosta da gente, que nos deseja o mal, mas está como amigo no nosso perfil. Há casos de pessoas que cometeram suicídio tendo 3 mil amigos no Facebook. Como pode? O Facebook possui uma estrutura interna, um modus operandi que é em tudo semelhante ao modelo do mercado e coloca as pessoas para interagirem num quadro competitivo. De um lado, ele é uma espécie de popularização das colunas sociais. Todo mundo pode ser bonito e importante em dados nichos. Esse modelo de popularização das colunas sociais gera uma disputa para que todos procurem se apresentar o mais feliz possível, mais bonito, mais bem resolvido e fica cada um tentando mostrar que está melhor de vida que o outro ou está bem. Por antecipação, parte-se da ideia de que as tristezas e os problemas devem ser ocultados. Daí aquela postagem famosa que circula pela rede “não conte ao Facebook, conte ao psicólogo”. Um mandamento que diz “tristeza aqui não”. Além da disputa pelo título do mais feliz da rede, há a disputa pelas curtidas. Pessoas que recebam mais curtidas são vencedoras na rede e as que recebem poucos ou nenhum são os losers. É como o modelo do mercado: fulano faz algo e ganha curtidas, investimento simbólico, outro faz outra coisa e não ganha ou ganha pouco. As curtidas funcionam como investimentos, dinheiro dentro do Facebook.

Um aspecto muitíssimo negativo do Facebook é a dissimulação. Na rede, apesar de haver uma ligação com a realidade, cada perfil é, na verdade, um personagem. E o personagem criado e apresentado no Facebook pode ser em tudo distante da vida real das pessoas. Assim, facilmente você encontra uma pessoa ordeira, bom filho, bom pai, trabalhador assíduo e honesto, bom pagador de impostos, que nunca participou de grupo político algum nem se envolveu com causa alguma, mas que no Facebook é anarquista, defende os animais, defende os pobres, é revolucionário, comunista, feminista ou outros mais. O Facebook criou a possibilidade da militância virtual contínua, mas essa militância, no geral, fica apenas no virtual. Assim, tomar as pessoas por aquilo que elas são no Facebook é sempre problemático. Se encontramos um solitário com 3 mil amigos também encontramos revolucionários que levam uma vida absolutamente ordeira, passiva e descompromissada com lutas políticas reais. Trata-se de uma ilusão coletiva e contínua enquanto a vida segue ordinariamente.

O Facebook acaba destruindo a noção de passado. Em nossa vida passamos por várias fases, ciclos. Antes da rede social, o pessoal lá do colégio, a primeira namoradinha ou namoradinho, ficavam para trás, no passado, no esquecimento. O mesmo ocorria com o pessoal daquele bairro no qual não moramos mais, o pessoal da empresa onde trabalhamos por algum tempo. Havia uma noção de início, duração, fim e as pessoas iam embora junto com o fim dos ciclos, das vivências. Ao permitir que todas estas pessoas apareçam novamente, a rede destrói essa noção de fim das coisas. Volta o primeiro namoradinho, volta o chefe, voltam os colegas de escola e até pessoas que a gente não queria ver mais. Onde fica a noção de passado, o prazer ou dor de não ver mais dadas pessoas? Isso desaparece! É como se o passado não existisse mais e agora estamos condenados a seguir em manada por toda a vida. Obviamente, há um lado bom. Você encontra a mocinha que desejou tanto, mas e esse monte de gente e comparações que não gostaria de viver nem ver mais? Seu direito a ter um passado foi surrupiado.

Embora não no início, o Facebook incluiu o botão seguir o que gera uma interação hierarquizada. Onde antes havia apenas amigos, passa a existir seguidos e seguidores, estabelecendo uma hierarquia entre emissores e receptores das mensagens. Assim, pode surgir aquela situação constrangedora de um velho conhecido ser aceito apenas na condição de seguidor, um estatuto menor que o da amizade. Ainda, surge uma disputa clara entre os membros para ver quem possui mais seguidores. Mesmo um militante anarquista, adepto, em teoria, da mais pura igualdade, buscará acumular seus seguidores pois quanto mais seguidores maior o prestígio.

Todos sabemos que o Facebook possui sua censura própria. Além disso, o fato de estarmos todos ali, em grupo, acaba gerando uma fiscalização sobre o pensamento. De um lado, as pessoas são estimuladas a se entregarem, a colocar pra fora o que pensam. De outro, há uma forte censura do coletivo sobre pensamentos apresentados. Isso varia conforme os grupos, mas é constante. Uma ideia que a pessoa apresentaria tranquilamente numa conversa de rua pode gerar fortes reações dentro da rede. Criou-se a cultura de censurar o pensamento alheio e buscar um nivelamento das ideias conforme os grupos.

Por fim, resta afirmar algumas coisas. Ao gerar um modelo de observação da vida alheia com as consequentes comparações, o Facebook é um grande produtor de inveja. As pessoas estão a todo momento se observando e se comparando. Nesse processo, a inveja brota naturalmente. Muita coisa que antes ficaria oculta agora é exposta, depois de exposta é comparada e daí invejada. Em segundo lugar, coisa típica de rede social, o Facebook permite um tipo de violência que só é praticado na rede. Muita coisa que as pessoas dizem dentro da rede elas não o diriam no "olho com olho", nas interações reais do cotidiano. Em terceiro lugar, o Facebook gera um típico comportamento de manada. As pessoas acabam sendo pressionadas a falar de dado assunto predominante, a colocar o filtro do arco-íris no perfil, a se manifestar sobre dado tema. Assim, sempre existem ondas no Facebook levando as pessoas a aderir a dados temas, ser contra outros, manifestarem-se sobre outros mais. Quando ocorrem essas ondas é que fica mais evidente a fiscalização do pensar porque os que não aderem são rapidamente julgados ou condenados pelos demais ou por uma parcela deles.

Apenas por necessidade de apresentar uma conclusão- é necessário lembrar que haveria pontos mais a serem observados – o que tentamos aqui foi ressaltar alguns aspectos maléficos da rede que não são lembrados ou debatidos. Desse ponto, pode-se caminhar para outras reflexões mais. Trata-se de um simples convite ao debate.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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