náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

sou homem: e agora?

existe uma solidão masculina que precisa ser analisada e discutida.


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Nasci em 1980. Sou de uma geração, talvez a última, que foi educada pra ter no casamento o objetivo central da vida. Já havia a ideia de que a mulher trabalharia, mas ainda se pensava um papel econômico e moral para o homem, que seria o chefe da família, embora muito menos autoritário que os anteriores. As mudanças sociais destruíram o tradicional papel do homem. Ela é linda, ganha mais que você, tem vários amigos, pode transar livremente, contratar segurança e ir ao psicanalista. Que função sobrou para o homem nesse novo mundo?

A ideia de mãe solteira é uma ideia totalmente ultrapassada. Há um número cada vez maior de mulheres que são solteiras por opção. Tiveram um relacionamento, tiveram filho, separaram e querem continuar assim. Possuem formação, possuem bom salário, são emponderadas, possuem uma rede de apoio e querem tocar a vida sem um parceiro fixo. Desejam algum papo com rapazes, algum sexo, alguma companhia mas não pretendem estabelecer um relacionamento.

Num quadro geral, os homens foram destituídos de sua função tradicional e ainda não surgiu um novo papel para os mesmos. Excetuando algumas áreas específicas – segurança e dados trabalhos –os homens não possuem mais um papel próprio na sociedade. Vastas áreas tradicionalmente masculinas foram femininizadas. Sobraram poucos campos que podem ser rotulados como campo cultural dos meninos.

A observação não tem o interesse de ir contra um processo social irreversível. Entretanto, procura observar que muito se fala em desconstrução e emponderamento feminino sem pensar no outro lado do processo que traz a destituição do papel social dos homens. Quem é pai ou mãe de menino já deve ter refletido sobre o assunto: que papel social terá meu filho?

No mundo do divórcio e dos relacionamentos rápidos é importante lembrar que a separação não implica apenas o distanciamento de duas pessoas mas, geralmente, a destituição do homem do papel de pai. A possibilidade de acompanhar o crescimento do filho e servir como referência moral e afetiva é abolida. O pai vira uma figura distante talvez com a mesma importância do vizinho ou do psicanalista.

Esse mundo de desconstrução da figura masculina criou uma solidão específica do homem que muitas vezes gera um caminhar para a autodestruição ou um retorno para o seio materno. Os bares estão cheios de homens dispensados pelas mulheres, assim como a sarjeta e as estatísticas de suicídio. Outros encontrarão na mãe um ponto de apoio e o retorno ao papel de filho servirá como justificação existencial.

Alguns caminharão para atividades perigosas. Recentemente, uma matéria sobre jovens que engrossavam as fileiras do Estado Islâmico apresentava justamente um típico perfil de rapazes angustiados com sua falta de papel no mundo. O campo fundamentalista do mundo gospel pode também ser interpretado como a busca da função masculina num mundo onde os homens foram tornados inúteis.

São hipóteses. O fato é que existe uma solidão masculina que precisa ser analisada e discutida.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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