náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Um libertário esquecido - João Bernardo

João Bernardo é muito importante pela forma como articula pensamento crítico com referências da arte. Faço o convite para que conheçam sua vasta obra.


234116943271617.jpg

João Bernardo é um revolucionário e teórico marxista português geralmente lembrado por sua discussão a respeito das classes sociais. Para o autor, nome do marxismo heterodoxo -debate fortemente posto por Maurício Tragtenberg - não haveria apenas duas classes sociais - burguesia e proletariado - mas sim 3. Além das duas classes sempre citadas, o autor afirma a existência de uma terceira classe, os gestores, dominante porém distinta da burguesia. O principal fundamento da classe dos gestores seria o controle de amplas instituições sociais.

Sua vasta obra, no entanto, não se limita a esse debate. João Bernardo é um daqueles que poderíamos chamar de "últimos intelectuais" conforme a proposição de Russel Jacoby. Ele não é mestre especificamente em um assunto ou quadro de análise, conforme os modelos de formação atuais. O autor produziu obras de relevância para a economia, a política, a filosofia, a história. Além disso, apresenta uma metodologia singular que dá nó em leitores neófitos. Junto com a análise crítica que sempre apresenta, o autor coloca uma séries de referências do campo estético. Ele recheia seus escritos com citações de quadros, montagens, obras literárias, curiosidades e, muito importante, fatos quase secretos, de tão desconhecidos por todos.

Sua obra pode ser adentrada de várias formas. Há o aspecto biográfico, elemento muito forte porque se trata de um crítico que também foi e é revolucionário. Ele não apenas leu e escreveu, mas também viveu os fatos, as lutas, as vitórias e derrotas do campo anticapitalista do seu tempo. Sua militância começa no campo leninista português e vai até os libertários atuais, tendo uma rica experiência durante o processo revolucionário interior à Revolução dos Cravos, em Portugal. Num segundo campo, teve uma atuação como educador popular, dando cursos em ocupações, sindicatos, movimentos, centros autônomos de estudo e semelhantes, mas também em universidades, para as quais montou cursos críticos e inovadores. Trata-se de alguém que pegou as ideias e foi para rua debater com os movimentos e com a juventude rebelde que sempre o cerca.

No terceiro ponto, o da pesquisa e escrita, notabilizou-se por construir uma análise teórica consistente. Trata-se de alguém que está entre os melhores autores do campo marxista libertário, isso se nos atentarmos para o mundo atual. No Brasil, fez dupla com Maurício Tragtenberg na difusão de uma linha marginal do marxismo. Ao meu ver, sua obra é mais ampla e sistematizada que a do Maurício Tragtenbeg, tendo maior valor enquanto ferramenta de análise.

O autor é bastante árido. Ele não dá moleza para o leitor. Mas também há livros de mais fácil leitura. Embora tenha obras densas como Economia dos Conflitos Sociais, sua obra maior, também escreveu textos em linguagem mais acessível. Nestas o desafio de pensar também é grande. Cito o livro O Inimigo Oculto, trabalho que acabou sendo editado por trabalhadores em greve no Brasil. Há também outros de mais fácil leitura, mas em todos eles há análises, questões e posicionamentos que fazem o leitor pensar e pensar com profundidade. No meio dos textos, ele vai citando um monte de autores, artistas, personalidade políticas, revolucionários, músicas, romances e, assim, apresenta ao leitor um roteiro paralelo de estudo e aprendizagem. Tragtenberg dizia que a gente deve ler um autor, mas ler também o que ele leu e cita. Assim, é preciso conhecer os quadros, os romances citados, os pontos históricos, para que se tenha uma boa apreensão do pensamento do autor.

Transitando entre Brasil e Portugal - trata-se de um português que se apaixonou pelo Brasil - publicou seus livros tanto em editoras de Portugal quanto em editoras brasileiras. Atualmente, seus textos ganharam o ciberespaço e caminham para todo lado. Lendo João Bernardo a gente aprende o valor da literatura, da arte, das pinturas, dos filmes, das instalações estéticas, da filosofia, da economia, da política, da história, da pedagogia, da antropologia. Seu livro mais volumoso - Poder e Dinheiro - faz uma brilhante análise dos conflitos sociais durante a idade média utilizando, em vários pontos, metodologia, conceitos e primados da antropologia.

Conceituei o seu marxismo libertário como marxismo trágico, usando para isso linhas de pensamento que a gente encontra em Kafka, por exemplo. O marxismo trágico se caracteriza por ser antípoda do marxismo final-feliz. No marxismo trágico há a necessidade de crítica, de luta contra a exploração e de posição moral contra o capitalismo, mas não há garantias de que conseguiremos vencer. Daí a sua dimensão trágica. Formas de lutas anticapitalistas vão sendo absorvidas pelo sistema e gerando novas formas de exploração. Aquela forte crença na racionalidade - iluminismo burguês que foi incorporado ao pensamento revolucionário -, a questão do partido, nada disso é garantia certa de vitória. João Bernardo atenta ainda para o papel do irracionalismo nos processos revolucionários. Muita coisa ocorre sem que a gente perceba e tenha o controle. Dai ele afirmar que, viver é inelutavelmente, apostar. Não há garantias.

Tua análise do campo educacional também é importante, embora ela se restrinja à economia da educação e, portanto, seja macro e não pense o quadro microssocial que as escolas também apresentam. Vê com pessimismo os modelos escolares de grande escala e entende que há um problema de paradigma no campo. Os problemas da educação são mais profundos do que se costuma pensar e, sem luta pedagógica - produzir novos modelos educacionais - não há luta no sentido amplo.

Ao lado de uma análise do poder - bastante arrojada e inovadora - ele apresenta também uma análise do anti-poder, do potencial que os trabalhadores possuem em desenvolver formas de vida e instituições próprias. O conceito de classe (do campo marxista) é posto junto com o conceito de elite, proveniente de autores do poder, como Vilfredo Pareto. Ele identifica ai como central a oposição entre classe e massa. Para os trabalhadores, o essencial seria deixar de ser meramente massa e assumir posição econômica e cultural enquanto classe. Isso só é possível quando ela se estrutura politicamente. Para os exploradores, o central é manter a classe como massa, reprimindo os contestadores isolados e distraindo com novelas e semelhantes o restante dos trabalhadores. Nesse sentido, a luta cultural assume papel importante porque é necessário tecer nesse campo formas de cultura que tirem as pessoas da distração de massa.

Estudante espartano, João Bernardo dedica horas e horas do dia aos estudos. Abertamente ele critica o culto ao antiintelectualismo, muito forte na esquerda e aponta para a necessidade de os trabalhadores buscarem formação própria encarando as grandes obras. Deve-se enfrentar os grandes autores, com toda a luta que isso implica.

Suas referências estéticas, que vão da arte antiga à pop-arte, passando por futurismo e várias outras citações, prepara o leitor para o abandono das limitações morais que são muito fortes ainda dentro do pensamento crítico. Ele possui ainda um conjunto de críticas à ideologia ecológica e ao novo feminismo. As análises sobre esses temas geraram fortes discussões nas redes sociais, com debates calorosos e até acirrados.

João Bernardo foi o principal articulador do grupo que deu origem ao site luso-brasileiro Passa Palavra, em março de 2009, grupo do qual faz parte desde então. No Passa Palavra tem sido o principal colaborador: possui o maior número de publicações, é dono dos textos mais lidos e também o mais influente nas decisões coletivas.

Temos, enfim, um autor de sólida e ampla formação cuja obra não foi ainda devidamente estudada. Alguns livros são recusados por preguiça intelectual - caso do árido Economia dos Conflitos Sociais. Outras não são lidas por conta do modelo panela que é regra nos grupos ideológicos. Se não for lido profundamente e discutido hoje, estamos diante da possibilidade de deixar passar batido um dos grandes intelectuais de nosso tempo.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @obvious //Ronan Gonçalves