náufrago

Uma lente sobre o mundo

Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai.

Você faz algo de verdade? Mundo real, mundo virtual e o surgimento da militância múltipla e sem riscos

No passado, pertencer a uma dada causa implicava dedicação de tempo, trabalho e assumir riscos


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Sem perder tempo com rodeios introdutórios e academicismos, quero falar da relação entre mundo virtual e mundo real no contexto da militância, do posicionamento sobre assuntos vários da vida, da sociedade, dos comportamentos, do cotidiano. O meu entendimento é o de que se criou uma coisa estranha na relação entre mundo virtual e o mundo real na qual o mundo virtual é tomado como o mundo real e ai se concentra uma série de ações e atenções. Essa substituição do mundo real pelo mundo virtual acaba tendo uma série de consequências. A mais importante delas é a manutenção da sociedade tal qual se apresenta enquanto se vive, virtualmente, uma revolução que ocorre apenas como algo ficcional. O que temos é um conjunto de pessoas que continuam cumprindo de forma ordeira seus papéis formais no mundo real - são professores, bancários, seguranças, auxiliares de escritório, garçonetes, trabalhadores vários- mas no mundo virtual se apresentam como militantes desta ou daquela causa. Até mesmo um administrador de empresas, um gerente de banco, pode se apresentar como anarquista, marxista e militante radical no campo virtual enquanto procede com suas funções no mundo real.

Acho que não há dúvidas quanto ao caráter capitalista de um gerente de banco mesmo que ele milite no Facebook não é? O mundo real é basicamente esquecido e aquilo que se expressa no mundo virtual é tomado como expressão da verdade. Um sujeito de uma família tradicionalmente racista pode se apresentar como favorável aos negros no mundo virtual, uma moça pode ser feminista enquanto respeita todos os padrões tradicionais de uma família conservadora, mil pessoas podem divulgar a campanha em favor da doação de medula óssea sendo que nenhuma delas vai ser doadora. Alguém que nunca tenha tido contato com moradores de rua, nem pretenda ter, pode se apresentar como favorável aos deserdados das cidades. E a lista segue interminavelmente. Foi criado um universo de postagens, curtidas e discurso libertário enquanto o Brasil profundo continua intacto.

Outro fator é que todas as bandeiras podem ser abraçadas de uma vez só: a questão feminina, a questão negra, a questão da periferia, do vegetarianismo, dos sem-terra. Basta ir curtindo, entrar em grupos de debate e alinhar suas postagens de acordo com um padrão tido como louvável dentro da militância virtual para ir prosseguindo. Assim, mesmo que não se tenha nenhum compromisso efetivo com causa alguma, a pessoa pode angariar apoio virtual e alguma fama conforme produza os discursos mais aceitos e compartilhados. Da mesma forma que há muita gente atrás de lideranças no mundo real, também as encontramos no mundo virtual. Surge o militante múltiplo e sem riscos. A pessoa pode até estar em outro país e militar no Brasil. Algum anarco qualquer coisa da Alemanha pode dar um ar chic a um dado grupo.

No passado, pertencer a uma dada causa implicava dedicação de tempo, trabalho e assumir riscos. Por isso, ou se era do movimento negro ou se era do MST (Movimento Sem-Terra) ou se era do sindicato dos professores, ou da luta pelos animais etc. Quem precisava fazer reuniões nos bairros, encontros nas cidades, organizar eventos, não tinha como ser militante de mil causas. Pertencer a uma causa implicava algum tipo de trabalho concreto ou de apoio efetivo. Para ser do MST era necessário ser do MST, participar efetivamente. Para ser da luta pelo transporte era necessário ir militar nos terminais de ônibus, nas estações de trem. Para ser da luta pela educação era necessário estar na escola pública, ou nas escolas dos movimentos. Hoje, basta curtir uma série de páginas, compartilhar uma série de fotos e temos o surgimento do militante múltiplo, sem trabalho algum e sem risco algum. Da causa dos animais até outras mais - todas elas - a pessoa pode se empenhar porque tudo não passa de postagens feitas de casa e dentro de um círculo específico.

Esse quadro todo possui um impacto real sobre as organizações e sobre a atuação dos ativistas. O texto não pretende esgotar o assunto e creio que no debate surgirão outras coisas. Eu apontaria alguns elementos. Em primeiro lugar, ocorre de não se conhecer os militantes reais, as pessoas que atuam mesmo. Com tanta gente se posicionando sobre tudo, como é que são conhecidas as pessoas que realmente atuam pela educação pública, por exemplo? Pode ocorrer uma espécie de ocultamento.

Em segundo lugar, pode-se ter uma falsa ideia da força de um movimento. Isso é muito comum em eventos vários nos quais vemos confirmadas as presenças de milhares de pessoas para, no final, aparecer somente algumas centenas. Esse exemplo cabe para atuações nos vários quadros, tanto em atos da direita quanto da esquerda ou causas várias.

Por fim, acaba ocorrendo de pessoas sem compromisso algum com causa nenhuma adquirirem poder de legitimação. Você encontra um sujeito que é somente um militante virtual, por exemplo, pela causa dos negros, que vai angariando apoio e aumentando os seguidores e ai, em dado momento, essa pessoa se torna mais importante que um professor voluntário de um cursinho para negros no sentido de dar legitimidade às pessoas e ações.


Ronan Gonçalves

Mestre em Ciências Sociais pela UNESP, foi colaborador do site luso-brasileiro Passa Palavra escrevendo sobre educação, cinema, lutas sociais. Produz pequenas análises e algumas poesias. Anda por ai. .
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