navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

A morte do herói

Uma reflexão interpretativa acerca da morte do herói nas narrativas literárias e a função de mostrar com completude a temática e o impacto que tal abordagem provoca no leitor, a partir das obras Triste fim de Policarpo Quaresma, A hora da estrela, Pais e filhos e O estrangeiro.


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A Literatura nos convida a conhecer outras realidades possíveis, verossímeis. Nos leva também a um encontro inesperado com nós mesmos e com “um outro”. E é justamente esse contato com “um outro” que nos faz ter uma identificação mais próxima com o que é obscuro em nós, até mesmo com memórias antes esquecidas a partir do universo submerso do herói que nos é apresentado e que passa uma temporada de férias em nossa casa, em nosso quarto, em nosso mundo particular. Há livros destinados a nos provocar um desconforto latente ao final da leitura ou ao nos apresentar o vazio dessa história quando o herói sai de cena para não mais voltar. E é justamente desse vazio, dessa morte, que nasce uma espécie de reconhecimento e entendimento do outro/de nós. Quando o herói da história morre, é como se nos fosse apresentado uma visão de completude que nos leva a uma percepção mais ampla dos temas, valores e sentimentos que são abordados na narrativa.

Para citar alguns exemplos: a morte trágica do major Quaresma em “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto, pelas forças do poder político. Passamos a história inteira a condenar baixinho (às vezes rimos com os exageros e utopias do personagem central) a ingenuidade do herói: nacionalista ao extremo, que defende a pátria, a ama, a estuda, a divulga aos quatro cantos, que vive em função dela, para ela, em diversos segmentos: cultural, político, agrícola. Ao final entendemos a sua grandeza e o redimimos com um carinho fraternal. Encontramos nele o que podemos encontrar em qualquer um: a crença ingênua, a luta pelo que acreditamos e os possíveis riscos que isso um dia pode nos oferecer. A sua morte injusta é o que apura o nosso olhar sobre ele.

Ou também quando nos deparamos com a inesperada Macabéa de Clarice Lispector em “A hora da estrela”. Aquela morte traiçoeira, inesperada, fatalidade do destino, irônica, nos derruba como leitor e logo após nos levanta mais conscientes; e aquela personagem até então ridiculamente apaixonante, engraçada e triste, submissa, rasteira, e tão peculiarmente exótica, nos passa uma completude extraordinária que nos preenche algumas lacunas. Lacunas estas que nem tínhamos ideia de existir. Macabéa passa a status de estrela quando se despede de nós e brilha em nossa memória de leitor de forma insubstituível.

Vale lembrar o herói niilista russo do autor Ivan Turgueniev, Eugénio Bazárov, no romance “Pais e filhos” e a sua estúpida morte que vem em passos sorrateiros, lentos, por descuido, por teimosia, que deixa o nosso herói de cama, que faz com que sintamos a sua despedida lentamente e dolorosamente. Que é tão estúpida, mas tão estúpida para um leitor que se apega fácil que chegamos a virar uma espécie de leitor clichê, que deseja que o final seja como nos dos contos de fadas, os felizes para sempre.... Mas isso não acontece. É justamente essa morte que nos explica o herói por inteiro: seus pensamentos e postura crítica a todas as crenças, sua forma de não amar e não se importar. Embora sintamos aquele arrepio de leitor assombrado pelo destino, queremos, junto aos velhinhos pais, ir até aquele pequeno cemitério num dos mais distantes recantos da Rússia, levar-lhe flores, quem sabe derramar um lágrima, tecer-lhe elogios para logo após falar-lhe nomes feios e dar-lhe uma bronca por tamanho despropósito e descaso com a saúde. Por acaso não paraste para pensar no leitor aqui do outro lado que te seguia entusiasmado? Não pensa, e nos deixa órfãos, assim como deixou aos doces pais que lhe visitam trôpegos e frágeis. Saímos também fragilizados desse embate literário. Nos sabemos também frágeis.

A morte do herói pode nos dar falta de ar e nó na garganta. A morte do herói pode nos deixar num período de luto, confabulando motivos e razões. Pode criar um leitor mais experiente e maduro. Um leitor consciente do que aconteceu e de como e porque termina.

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Em “O estrangeiro”, de Albert Camus, esbarramos em Mersault e sua absurda morte perante nossos olhos assustados. Sua rotina, seus pensamentos, seus sentimentos confusos e atitudes inexplicáveis, ou simplesmente peculiares, entram em nossa zona de aproximação e reconhecimento, fica próximo a nós. Nos toca na pele e fala a nossos ouvidos. Ele torna-se um assassino, inesperadamente, inexplicavelmente, absurdamente pelo calor estafante que fazia naquele momento. A ele, justamente, caberia uma punição, temos consciência disso como leitores que entram no bosque da narrativa, que aceita o desafio e segue a trilha que lhe é oferecida. Mas o que nos choca por dentro é o fato de sua morte vir pela ausência de lágrimas quando a mãe morre. Vem inesperadamente pelo que ele é e sente e não pelo que ele fez. Vem justamente por ser um estrangeiro num mundo onde até os sentimentos são estabelecidos feito regras de jogo (Quem não sabe jogar não entra na brincadeira). O julgamento não deixa escapar o seu ser interior, suas atitudes particulares. O seu particular é apedrejado em praça pública. O leitor sente-se tão próximo a Mersault, quer levá-lo para casa. Precisamente por entendermos que todos nós temos um pouco de Mersault. Mesmo que talvez não demonstremos, todos nós temos um pouco de “estrangeiro”. Todos nós carregamos algo de anomalia, que às vezes pode ficar escondido, às vezes pode se apresentar no quarto escuro ou na festa com os amigos. Um dia ou outro seremos um pouco Mersault com sua existência tão comum, simples e ao mesmo tempo tão absurda quando olhada por outro ângulo, de mais perto, de mais desarmado. Será que seremos punidos?

... Porque a morte do herói muitas vezes é justamente o que o faz nascer.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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