navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Aquela estranha

"A vida é a arte dos encontros, embora haja tantos desencontros pela vida".
Vinícius de Moraes
Nunca sabemos o que vamos encontrar pelos caminhos que antes achávamos tão previsíveis.


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O rapaz caminhava apressadamente de forma distraída por aquela rua movimentada no centro da cidade. Os prédios se seguiam em todo o percurso, carros parados no sinal vermelho, pedestres que atravessavam na faixa de forma automática. O rapaz seguia o seu curso. Em alguns momentos parava para atender ao celular de forma sorrateira, olhando em volta e segurando o aparelho como se fosse um grande executivo que resolvia problemas de trabalho a todo e qualquer tempo.

Mas o rapaz não era executivo, na verdade nem sequer trabalhava naquela sua idade inicial de juventude.

Ele tinha dezoito anos, usava uma calça jeans, camiseta verde e um casaco vermelho,apesar de o dia não estar muito frio. Gostava de sair com o casaco, às vezes só para tê-lo amarrado à cintura, só por estilo talvez. Usava também um tênis “all star”. Sem chapéu, sem óculos. O que carregava tão somente era uma mochila com poucas coisas dentro e nos bolsos a pequena carteira e o celular. Neste momento o rapaz conversava com o tio. Este ligara para avisar que somente no final de semana poderia ir à casa do jovem consertar a televisão. O rapaz aceitava a informação com indiferença. Terminou a conversa e voltou a caminhar mais apressadamente.

O rapaz morava numa rua um pouco distante dos locais mais movimentados da cidade,com sua mãe, pai e mais três irmãs. Ele era o único filho homem dos pais, o mais novo. Assuas três irmãs já estavam na fase adulta. Já trabalhavam, tinham suas vidas um pouco fora da realidade familiar. Uma já planejava casamento, outra estava num projeto novo de trabalho e ado meio era distante de todos, não compartilhava muitas coisas com a família, dir-se-ia na verdade que mais parecia uma visita esporádica do que um parente tão próximo e íntimo.

O rapaz continuava a caminhar, sem prestar atenção ao que se passava em volta. Em pouco tempo estaria no seu destino: a oficina mecânica de um amigo do pai. O rapaz iria tentar começar a trabalhar por lá para conseguir uns trocados. O pai lhe arranjara essa oportunidade. Trabalho de meio turno, dobrando tempo para continuar os estudos no seu último ano de escola.

Mais alguns passos e estaria lá. Porém, por um instante, o rapaz começou a sentir-se um pouco ofegante, deu-se conta afinal que já tinha caminhado bastante e de forma rápida.Passou a mão pela testa e percebeu que havia mais suor do que o previsto. Decidiu parar um pouco e tomar fôlego antes de continuar. Quando foi reparar exatamente onde estava,percebeu que resolvera estacionar no lugar certo: uma praça. Praça tipicamente urbana,poucas árvores, bancos, lixeiras, alguns quiosques, pista de skate, alguns brinquedos para crianças como balanço, escorregador, gangorra.O rapaz procurou por uma sombra e pelo quiosque mais próximo para comprar uma água. Abriu a carteira. Havia pouco dinheiro, lamentou consigo de forma quase despercebida ter que gastar com água, mas foi adiante. Com a garrafinha de água nas mãos, voltou a procurar uma sombra e sentou-se num banco próximo que ficava abaixo de uma árvore feia.Buscou o telefone novamente com certa surpresa pelo tempo em que passou sem tocar: estava explicado, fora de área. Mas como, pensou, no centro da cidade um telefone sem área. Só faltava essa. Bebia a água automaticamente, nem reparava no gosto ou alívio que este gesto poderia ter. Sem ter muita opção do que fazer naquele intervalo, respirou mais fundo, tirou o casaco, e descansou o olhar.

Ficou ali, com os olhos imóveis como se na verdade ali não estivessem.Foi estão que ela apareceu.Sentado naquele banco, o rapaz deu-se conta de uma figura humana que lhe chamou atenção. Era uma mulher, uma garota... Não fazia muita diferença. A mulher parecia que acabava de parar naquela praça. Tinha uma estatura mediana, o corpo não era nem gordo nem magro. Usava um vestido longo, até o calcanhar, estampado em tons de vermelho com laranja.Tinha desenhos meios estranhos de se identificar. Era uma estampa que puxava o olhar de qualquer um, pensou o rapaz. É ridículo.

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O vestido era realmente diferente, folgado, talvez a estampa, o jeito quem sabe, dava-lhe a sensação de ser um vestido gastado pelo tempo, diria até, quem sabe, meio sujo. A mulher tinha a pele clara, cabelos cacheados até logo abaixo dos ombros. O cabelo também era diferente, notou o rapaz, bem diferente dos cabelos da maioria das garotas do colégio e de sua rua. A mulher, ou garota, não trazia nenhuma bolsa consigo, estava apenas com a roupa do corpo e aquele chinelinho que quase não se via por conta do vestido. Era um chinelinho que parecia de velho, pensou novamente o rapaz. Era estranha. Sem explicação aparente, o rapaz continuou a olhá-la. Voltou sua atenção para o rosto,coisa que até então não tinha feito, mas de forma sorrateira, com poucos lances de olhar.Tinha um rosto...sobrancelhas grandes e meio finas, olhos castanhos claros, principalmente considerando a claridade do dia que parecia ter aumentado de repente, lábios de um tom rosado firme, sem apatia. O rosto também apresentava umas pintinhas na bochecha e na testa.Pintinhas de nascença, certamente.

Ela estava parada, olhando em volta, às vezes soltava um sorriso. Mas afinal de que ela pode estar sorrindo? Pensava o rapaz e por sinal, que sorriso lindo, notou. Talvez estivesse lembrando de algo engraçado. Ela realmente parecia sorrir consigo mesma. Ou talvez estivesse reparando em algum detalhe daquele lugar, alguma flor, algum pássaro, ou sabe lá oque... Ou talvez o rapaz estivesse com uma cara de muito bobo por ter ficado olhando pra ela por mais tempo que o necessário. A água já tinha acabado, o rapaz já estava novamente com energia e não mais sentia-se ofegante. Estava na hora de seguir e conseguir logo esse emprego...

Mas, espere... Ela estava caminhando em sua direção, falaria com ele? Dar-lhe-ia alguma bronca por tê-la olhado sem pedir licença... Ou melhor, finalmente saberia se era uma mulher ou uma jovem garota, e em que isso faria diferença? Ficou confuso com suas ideias e com a forma como aquilo passou a tomar conta de si. Ela parecia procurar uma sombra, assim como ele tinha feito. E pelo visto,o único lugar naquela praça que havia sobrado era exatamente o banco em que ele se encontrava.Ela foi se aproximando e sentou-se no mesmo banco em que ele estava. Antes de sentar olhou-o rapidamente e pediu licença com um sorriso, sem palavras. Ele forçou um sorriso de “à vontade”, mas aquela situação tinha o deixado tímido. Ela era mais bonita de perto, pensou automaticamente mais uma vez. E que cheiro afinal era aquele que ela trazia consigo? Era um perfume tão bom, tão natural... Parecia perfume de brisa fresca no rosto, aquele ventinho que traz conforto e que por nada você quer deixar. Sentada ela aparentava uma delicadeza que ele jamais vira em qualquer outra mulher. Afinal, ela era uma mulher jovem. Aquele cheiro também lembrava limpeza, ela era realmente limpíssima, pensou e esse pensamento o assustou um pouco... e o que isso tem de mais? As neuras com limpeza da mãe desde sempre talvez tivessem o afetado de alguma forma... Precisava prosseguir... Mas se fosse naquele momento, talvez ela pensasse que a presença dela o fez sair dali. Então, decidiu esperar um pouco mais, apesar de ter acertado horário com o dono da oficina.

Não sabia que horas seriam, também não poderia perguntar àquela mulher, afinal ela estava sem relógio e sem qualquer outra coisa consigo. A estampa do vestido ficou mais nítida de perto, era de pontes sobre rios em volta de flores... Aquela estampa poderia contar uma história... Era um vestido tão largo que uma parte dele ocupava o espaço do banco entre ele e ela, na verdade, chegava a encostar um pouco no rapaz. Ele ficou apreensivo... Por que afinal?Melhor ir embora de vez e acabar com isso. Isso o quê? Estava confuso, estava nervoso, mas ao mesmo tempo, desejava ficar ali ao lado daquela estranha por um logo tempo, um tempo sem validade. Ela mantinha o olhar fixo, e mais uma vez soltava do nada um sorrisinho de leve que ele pode perceber de que direção vinha: Mais adiante, havia uma árvore que possuía muitos frutos caídos no chão. O rapaz não sabia identificar que frutos seriam aqueles. Alguns pássaros se aproximavam e beliscavam os frutos do chão e logo em seguida alçavam voo. E oque tinha demais nisso, pensou o rapaz... Ela é louca? E o que isso importava, ela ficava tão linda com aquele sorrisinho que ele podia plantar uma árvore enorme só para poder vê-la a contemplar os pássaros e sorrir....

O rapaz assustou-se mais uma vez com os próprios pensamentos, estava parecendo aqueles poetas do romantismo que a professora falava e ele nunca teve paciência para ler ou ouvir com atenção.O tempo passava, a estranha não tinha pressa, parecia estar ali apenas pra estar ali,diferente dele que tinha compromisso sério, talvez o mais sério de sua vida até o momento.Disfarçava e tornava a olhar pra estranha, em cada olhar disfarçado um novo detalhe era percebido, como pintinhas no ombro esquerdo, uma tatuagem no pulso, unhas curtinhas e sem esmalte, tão branquinhas e limpas que pareciam transparentes; nunca vira mais lindas que aquelas, brincos de argolas prateadas, e os cabelos, nossa, os cabelos, pareciam de boneca nova.

O rapaz reparou que nunca ficara tanto tempo sentado ao lado de alguém em silêncio.O dia ficava mais claro, quase sem vento. Imaginou como seria se estivesse chovendo.Apostava consigo que aquela mulher possivelmente não se esconderia da chuva, talvez até dançasse e com certeza mostraria um sorriso ainda mais belo... Nada naquela estranha era montado, ela continuaria inteira mesmo sob forte tempestade. Afinal, já conhecia bem aquela estranha... E talvez seu cheiro ficasse ainda melhor com a chuva. Nunca quis tanto que chovesse como naquele dia. Mas tinha que ir, e possivelmente nunca mais veria aquela mulher... Ele era tão novo, tão imaturo... Dezoito anos, sem nada na vida de concreto ainda.Um celular no bolso, alguns amigos reais, outros virtuais, paixões de meio tempo, espinhas no rosto, apesar de todos dizerem que era aumentado pra idade...

Ela permanecia lá, lívida, calma e transparentemente cheirosa. O rapaz respirou fundo para tentar levar consigo um pouco daquele perfume de brisa que ela tinha. O vestido ainda permanecia encostado a si, só agora percebia que era um tecido leve, delicado e forte ao mesmo tempo. Seria bom olhar para o rosto dela com mais atenção para guardá-la na memória, pensou. Disfarçou, olhou em várias direções e esbarrou na face daquela estranha:seus olhos castanhos brilhavam, neles cabia um todo universo de grandes maravilhas e surpresas. Ele desejaria adentrá-los e percorrer todos os caminhos e atalhos que pudessem ter.Sentiu-se um bobo, paralisado. Ela agora parecia estar tão perto de si. Ele realmente jamais havia tido o atrevimento de olhar nos olhos de forma intensa pra qualquer outro ser humano,principalmente os desconhecidos. Ficou apavorado, ao mesmo tempo em que faria qualquer coisa para que aquela sensação permanecesse por mais alguns segundos. Iria embora em seguida, mas precisava guardar um pouco mais aquela sensação que jamais tivera e que o deixava bagunçado por dentro. Ela deveria achá-lo louco, mas mesmo assim, não desviou o olhar... Que lugar afinal era aquele que a estranha mulher lhe mostrava de forma tão espontânea e sincera. Tão forte... Um lugar que por certo ele não conheceria mais que naquele exato momento?O rapaz levantou-se e partiu sem notar que direção tomava. Estava atordoado,precisava de mais água. Nem percebeu que esquecera o casaco no mesmo banco em que deixara sua... O que ela seria para ele afinal?

Sem saber exatamente como, já que a cabeça parecia estar longe do corpo, o rapaz conseguiu chegar até a oficina, conversar com o amigo do pai e arranjar de fato o seu emprego de meio turno, que começaria na semana seguinte.Voltou pra casa pelo mesmo caminho, passou novamente pela mesma praça e olhou novamente para o mesmo banco que agora estava vazio. Ela teria pego o casaco? Chegou perto, os pássaros continuavam a beliscar os frutos do chão...Em casa, um pouco cansado do dia, não manteve muita conversa com os pais ou comas irmãs. Foi dormir cedo e por incrível que pudesse parecer não falou com mais ninguém naquele dia. Estava com saudade da estranha. Queria ali sentada ao seu lado, mesmo que em silêncio, mesmo que desconhecida.

Outro dia. O rapaz acordou cedo, como de costume, foi para o colégio como de costume. Encontrou amigos, professores, meio mundo de estranhos. Olhou nos olhos de cada um deles, como nunca fizera realmente antes. Em nenhum deles pode encontrar o que perdera no dia que já havia passado.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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