navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Epifania: o nosso despertar silencioso

De repente, no centro de mais um dia de existência, acontece de termos uma revelação inesperada das coisas e do que somos. É algo que nos toca sem pedir licença e nos convida a ter um novo olhar sobre o que está a nosso alcance. Embarcamos numa epifania e, de repente, já não somos mais os mesmos.


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Existe uma sensação repentina que nos acomete de súbito, na rua, na varanda da nossa casa, enquanto abraçamos alguém, quando uma lembrança ressuscita de um cheiro que o vento traz, em livros que parecem nos traduzir... E quando menos esperamos, acontece simplesmente de algo dentro da gente mudar de cor. Parece que a nossa raiz particular de entendimento sobre o mundo, e sobre nós mesmos, de repente, é algo novo e inesperado. Podemos chamar esse estalo da vida de epifania.

Essa sensação é mais comum e frequente em nossos dias do que “supunha nossa vã filosofia”, parodiando Shakespeare, e acontece geralmente como a forma de um despertar inesperado, quando nos percebemos meio absortos e ocupados demais com o mundo a nossa volta. Quando chegamos ao ponto de nos deixar de lado um pouquinho. É como se estivéssemos meio anestesiados para conflitos nossos que ainda de fato não foram resolvidos, ou até mesmo nem considerados por nossa percepção particular das coisas.

Sem pedir licença e nos mais inusitados contextos, ocorre de, (no meio de mais um dia “pré-meditado” por nossos pensamentos mais racionais, aqueles mesmos pensamentos que organizam todas as nossas ações e até sensações em gavetinhas específicas e com horários protocolados, em mais um dia de costumeira existência nossa), um esbarrão de fora acabar levantando o pequeno véu encardido que cobre nossos olhos. E é nesse breve espaço de tempo que nos é dado, quando somos libertados de amarras muitas vezes indolores, que reparamos em algo simples e inusitado que nos diz muito mais de nós mesmos do que muitas sessões de terapia ou mapas astrológicos. Às vezes, uma simples brisa no rosto num fim de tarde qualquer ou o sorriso de uma criança desconhecida ao passar por nós numa fila de supermercado pode nos apresentar dores despercebidas, vazios ignorados de nossa existência, uma falta que ainda não preenchemos, quando deveria ser nossa prioridade.

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Há epifanias que possuem o dom de serem alicerces para nossas conquistas particulares ao longo da vida. Aquela informação ou imagem inesperada que nos faz deduzir que profissão seguir quando estamos ainda naquela fase de descobrimento do básico para ir crescendo. Aquele detalhe simples e cuidadoso que nos leva a ter certeza sobre a pessoa que ficará ao nosso lado na construção dos nossos próximos capítulos. Uma gentileza espontânea, impensada, feita pela pessoa amada pode ser a maior prova de correspondência entre duas almas. Muitas vezes, a epifania vem por um livro novo que descobrimos, e meu Deus! Como as palavras pensadas por outra pessoa, em uma época distante, com circunstâncias imaginadas e criadas ao ritmo da imaginação de terceiros pode falar tão de perto ao nosso coração e nos transformar de dentro para fora? É a magia própria da arte que nos atinge quando abaixamos os olhos para a leitura e nem percebemos aquele véu em nosso rosto. É próprio da epifania dar um tom de magia a tudo que nos balança forte.

Em certas circunstâncias, o que nos assalta de súbito é o reconhecimento de algo novo em nós a partir da nossa própria história passada. Há dias que esbarramos em lugares antes cotidianos para nós, encontramos “estranhos conhecidos” que já foram tão próximos de nossa área de vivências e convergências; mas de repente, sentimos como se tudo aquilo fosse parte de uma história da qual já não mais participamos. Somos já personagens egressos de um enredo que não mais nos satisfaz, não mais nos representa. Muitas vezes, a lembrança do que fomos cria em nós uma breve certeza do que somos no hoje. Mas essa certeza, como sempre é passageira, até outra epifania surgir e abalar nossas estruturas. Estruturas essas erguidas sem muito cuidado por nossa pressa de deixar tudo calmo, longe de turbulências que nos assustam, que nos deixam pequenos diante de tantos mistérios.

Afinal, o mundo é grande, as pessoas são muitas. E cada um de nós traz um universo confuso a ser decifrado. Somos quase uma forma de quebra-cabeça, quase sempre muito complexo, quase sempre com uma peça a ser encaixada mais adiante. A nossa complexidade humana necessita das epifanias para se repensar e se reconstruir, pois nunca teremos a percepção de nós mesmos de forma acabada e pronta a cada nova estação.

A epifania é nossa passagem secreta para um universo paralelo que nos habita e nos direciona para adiante, para uma melhora existencial que realmente almejamos. Esse universo que a epifania pode nos desvendar não deixa de ser, para além de uma nova maneira de ver e entender o mundo, uma nova possibilidade de entendermos a nós mesmos, no que temos de mais verdadeiro.

... Por que quando algo precisa ser esclarecido, mesmo que inicialmente não tenhamos conhecimento dessa necessidade latente, de dentro da gente, silenciosamente, a partir de um leve estimulo que a vida nos dá, brota uma reinterpretação das coisas que nos esclarece.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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