navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Sobre animais, literatura e o elo que nos une ...

Antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada.
“Anatole France”
Reflexão através de uma viagem por narrativas literárias que utilizam a figura animal como elemento fundamental na análise de sentimentos e aspectos humanos,sejam eles manifestos ou ausentes.


cao obvious.jpg

Há uma presença fascinante de animais no mundo literário. Não por acaso: eles aparecem desde as narrativas mais tenras da infância, passando pelos contos de fadas como seres mágicos, vivendo aventuras próprias de seres humanos e com virtudes e desvios de caráter nas fábulas. Os animais podem aparecer sem muito destaque em alguns casos, mas existe uma Literatura digna de nota e de um olhar mais cuidadoso quando, através de histórias e narrações ímpares, nos apresenta a figura animal como o ingrediente, a força motriz para entendermos valores, confusões, angústias, contextos e fraquezas do ser humano. É o tipo de obra em que o autor vê além da superfície desses seres tão importantes para nossa existência. Percebe neles uma nobreza que nos falta, talvez um algo a mais que nos une a essas criaturas que parecem previsíveis, limitadas, mas que trazem uma profundeza de significados e mistérios que nos leva muito além do que poderíamos imaginar. Sem a presença desses animais, a história não seria completa e o significado seria outro. Vamos fazer um passeio por algumas delas?

Machado de Assis cria uma história fabulosa, no romance "Quincas Borba", onde, com seu estilo inconfundível e recheado de ironias, nos brinda com a ascensão e queda de Rubião, “simples professor que se torna capitalista”, ao receber a herança do amigo Quincas Borba. A riqueza material cai-lhe nas mãos, mas acompanhada de Quincas Borba, O CACHORRO. Não um simples cachorro, o amigo de todas as horas do amigo falecido, o que ele deixa de mais valioso, o que Rubião menos valoriza. Nessa ascensão financeira inesperada, é claro que não faltariam os ingredientes da obra de arte machadiana: o toque certeiro na ambição humana, nas aparências, nas hipocrisias da sociedade burguesa que vai até o mais baixo nível por status e dinheiro. Mas Rubião, embora seja um deslumbrado, e ambicioso, não deixa de ser um iniciante nessa arte de saber jogar num mundo de futilidades e contratos sociais pautados pelo “o que ganho em troca”? Rubião segue nessa história feito um brinquedinho, perde tudo, fica na miséria, volta para a cidadezinha da qual viera, Barbacena... O que lhe sobra? A loucura. O que lhe sobra? Quincas Borba... O CACHORRO. E nesse declínio, Machado vai nos presentear com esse paralelo fantástico entre ser humano e o ser cachorro... Um encontro fabuloso onde o animal se mostra cúmplice e confidente das dores do novo dono... Seu amigo... O louco Rubião é a referência de companheiro e família para Quincas... O cachorro não o abandona, e assim que o dono morre, de loucura e na mais alta pobreza, o cachorro também falece. As últimas cenas narradas de companheirismo entre esses dois seres, que se igualam na miséria, na dor, na fome, são lindas e emocionantes. Nos diz muito, nos diz mais sobre a pobreza de caráter humana e a riqueza que habita num cachorro. Lembrando que nada surge por acaso, por mero adereço na escrita Machadiana. Quincas Borba, o cachorro, é o que traz ainda uma pureza de sentimentos que os humanos não foram dignos de representar.

Continuemos com os cães... E vamos chegar numa mágica das palavras indiscutivelmente emocionante por todos os lados. Baleia, de “Vidas Secas”, talvez seja o mais alto posto de criatividade e humanidade relatadas por Graciliano Ramos, em um romance tão puro e cativante nas dores que são expostas. A família de retirantes, faminta, esquelética, abandonada à própria sorte, sem perspectivas, fugitivos da realidade que os mata aos pouquinhos, sofredores anônimos de um Brasil grande que às vezes fecha os olhos para a dor alheia, tem uma cachorra, Baleia. Baleia não é uma cachorrinha que faz figuração, Baleia é um animal carregado de humanidade, de sentimentos que a aproxima tanto e tanto de seus donos que às vezes fica mesmo difícil de fazer uma distinção. Mas a miséria reinante, num contexto de absoluta seca, tira Baleia da história. Graciliano Ramos consegue fazer isso da forma mais fabulosa que se poderia ter feito. A narração de seus últimos momentos, tendo de ser sacrificada pelo dono, ao som do desespero dos meninos, da aceitação sufocada de Sinhá Vitória, são o auge da representação da dor, do abandono e ao mesmo tempo de dignidade emotiva, daqueles personagens. O delírio de Baleia é o último suspiro do animal que era muito mais que um ser irracional e nos faz perceber que há um mundo misterioso nessas criaturinhas e que se olharmos bem de perto, da maneira como nos diz Saint Exupéry, com o coração, encontraremos paralelos nossos surpreendentes. “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes”. (RAMOS, Graciliano.Vidas Secas, Ed. Record. 2014)

Os animais na literatura podem simbolizar o estopim para que fraquezas e sentimentos humanos se manifestem. Podem refletir o auge do que o homem quer combater ou do que precisa ser manifestado. O gato de Edgar Allan Poe é o ícone máximo quando nos referimos a animais na literatura que denunciam insanidades humanas. A maldade e loucura desse assassino confesso, desse ser que mostra toda a sua desumanidade, é manifestada através da figura do gato, que surge como a imagem representante da culpa, do tormento e ao mesmo tempo da personalidade obscura desse personagem. O gato preto o desafia em seus instintos mais perversos, faz com que sejam desabrochados. E colocar no texto o discurso de que o gato podia ser o culpado de toda da tragédia, é a prova máxima de que o ser animal tem a intencionalidade de cutucar a irracionalidade e animalidade que o ser humano tem no seu lado obscuro e desprezível.

rouxinol.jpg

Mas chegamos a um ponto em que os animais na literatura podem representar uma virtuosidade soberana que raramente é encontrada num coração humano. Falo especificamente de dois contos de Oscar Wilde. O escritor trouxe-nos a imagem de criaturinhas que representavam a mais alta dose de amor e entrega, talvez por não encontrar tais sentimentos nos corações dos homens no contexto em que se encontrava... No conto "O príncipe feliz" , a figura da andorinha que permanece no forte inverno da cidade para ajudar uma estátua solitária de um príncipe a ajudar os pobres é o mais alto exemplo de compaixão e abnegação em prol de sentimentos mais nobres e escassos. A andorinha, na sua fragilidade possui riquezas que deveriam ser priorizadas em qualquer lugar. E em um mundo onde o olhar o próximo é cada vez mais difícil, faz parte no significado literário o pequeno passarinho morrer de frio, onde o coração de chumbo é mais quente que um coração humano. Em "O rouxinol e a rosa", a questão principal são os sacrifícios em prol do amor. Um passarinho apaixonado capaz de dar a vida para ver o jovem estudante feliz. Que oferece o sangue em prol de uma rosa vermelha para que ele entregue à mulher que ama. Tanto sacrifício, a vida de um passarinho entregue para que o homem usasse tudo isso para manifestar sua falta de amor desinteressado, orgulho excessivo. O esforço do passarinho não coube no entendimento do homem. A cantiga que o passarinho assoviava na janela do estudante, jamais foi entendida por ele. Talvez Wilde, com suas doces e simples palavras, nos trouxesse esses passarinhos para entendermos que há todo um universo de amor e compaixão que muitas vezes ignoramos abaixo de nossas janelas.

Por fim, chegamos à “Metamorfose” de Káfka... A figura animal e a sua interligação com o ser humano se faz da maneira mais avassaladora. Quando Gregor Samsa desperta vê-se transfigurado numa barata e a partir dessa metamorfose, embarcamos numa aventura existencial daquele personagem submisso e ignorado pela família, visto com asco, encurralado, sozinho com sua nova configuração. Quando se vê metamorfoseado consegue distinguir realmente o olhar que recebia de fora. Humanidade e animalidade se confundem num só corpo, já não encontramos limites definidos para essas duas realidades que se diriam tão diferentes, mas que agora se sucumbem aos seus entrelaçamentos palpáveis e gritantes. A metamorfose do personagem é o ponto de partida e de chegada para entendermos certos problemas e dores humanas que precisam ser expostos, representados... A barata cai-lhe como um luva para nos dizer muito do que não entendemos sobre nós mesmos. Quem sabe passamos por metamorfoses e nem percebemos.

Seja na realidade ou na fictícia realidade da literatura, é sempre bom pararmos um pouco para ouvir o que essas criaturinhas ditas irracionais e submissas ao homem têm a nos dizer baixinho. Assim como na literatura elas não aparecem mudas e indiferentes, possivelmente elas têm muito a nos dizer nos palcos da vida.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Maíra Estela