navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Um olhar literário sobre a infância

“O menino é pai do homem”
(William Wordworth)
Embora sendo um curto período tempo que temos a oportunidade de desfrutar no início de nossas vidas, a infância permanece sendo motivo de inspiração para repensarmos o nosso contato com o mundo e a nossa forma de ser frente a esse mundo. Na literatura ou na vida real, a infância tem muito a nos ensinar e nos inspirar.


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A nossa vida é como um livro. Um romance, cheio de aventuras, intrigas, marasmos,diferentes ambientações, personagens que surgem e desaparecem à nossa revelia,mistérios e redescobertas. Mas, independente de qualquer enredo que possa nos acompanhar pelos caminhos afora, no livro de cada um de nós haverá um capítulo especial, diferente de todos os outros. Um capítulo que será relembrado em conversas com amigos de hoje ou de ontem, nas fotografias antigas, num resto de alguma coisa que ficou por aí e sobreviveu às mudanças, num cheiro perdido e que às vezes se encontra; um capítulo que muitas vezes, inesperadamente, responderá perguntas insolúveis do agora... Um capítulo ao qual só é possível recontar pela memória e pelo sentimento de saudade do que fomos e deixamos de ser porque com o tempo nosso olhar cresce e se transforma. Esse capítulo é a infância, a nossa terra do nunca que um dia pudemos desfrutar como um pedacinho de paraíso construído por nossas fantasias.

O despontar de nossa existência, a aurora de nossas vidas, como cantou o poeta romântico Casimiro de Abreu, é sempre um universo de cheiros e olhares virgens sobre o mundo. Um olhar que desconhece as razões torpes ou contraditórias dos porquês das coisas serem como são. A infância é a nossa fase do vir a ser, quando ainda não fomos tragados pelo lado burocrático e responsável de nossa existência e passamos a ver o mundo de forma um pouco menos colorida e vibrante. Na infância, ainda enxergamos o futuro como algo distante e sem relação alguma com nossos atos do agora, porque o que mais importa nela é a alegria do já e o doce que pedimos aos nossos pais.

Um momento tão essencial para a construção do nosso ser não passaria de forma indiferente pelo olhar da Literatura. Muitos escritores se debruçaram sobre essa fase de nossas vidas e souberam pintar com as palavras um pouquinho do que ela significa ou representa. Ao focalizarem a infância que tiveram, ou que seus personagens tiveram,conseguiram nos dizer muito, e mais que isso, nós leitores embarcamos numa viagem a nossas origens juvenis e descobrimos que toda infância tem um pouco de poesia.

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Poetas como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Casimiro de Abreu, pra citar alguns, escreveram poesias sobre a infância de forma tão singular e exata que nos fazem perceber a infância como aquela dose recheada de vida, de detalhes, de inocência,de perfeição nas coisas simples, nos prazeres modestos, mas pintados de arco-íris e gostosos como o cheirinho de terra molhada por chuva ligeira. A infância é vista como um lugar de aventuras singulares, paixões sinceras por coisas simples, com gosto de fruta tirada no pé.

Vamos percebendo a infância talvez como o momento em que fomos mais autênticos e quem sabe mais corajosos. Costumávamos ter os joelhos machucados, não prendíamos o choro nem o êxtase da alegria, éramos uma pequena criatura cheia de transbordamentos: imaginações férteis, explicações infundadas sobre as coisas, energia que sempre ultrapassava os limites do aceitável, preferência pelo doce, pela cor, pelos gritos na calçada, pelo suor no fim da tarde, pela ausência de desodorantes, pelo encanto dos vaga-lumes quando faltava luz, pelos cabelos desarrumados, conversas com bichos,brinquedos, árvores, medos de criaturas mágicas, ausências de sofrimento existencial,repúdio a beijos, uniformes sujos, letras feias, tênis que brilhavam no escuro...

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A infância, apesar dos tempos meio sombrios em que sempre vivemos na fase adulta,continua a ser símbolo de inocência, de alegria sincera, e ainda de liberdade. Vamos crescendo, aprendemos, e nesse meio tempo, perdemos esse lado de vida que saboreamos intensamente de forma irrefletida, talvez tão boa por ser tão irrefletida.

Fernando Sabino, em seu livro “O encontro marcado”, nos presenteia com uma narrativa sincera e intensa sobre a formação do personagem Eduardo Marciano. O livro inicia com o relato de episódios da infância do personagem de forma brilhante.Aventuras, birras, paixões, um mundo maravilhosamente construído pela intensidade desse personagem menino tão rico e corajoso. Mas o menino cresce, as coisas mudam...E as frustrações do homem são tão contraditórias com o que ele foi que de repente nós leitores nos percebemos tão diferentes do que fomos quando crianças... Talvez essa seja a explicação para o sentimento de nostalgia que sempre nos atinge quando pensamos a infância. E se isso ocorre, é talvez porque alguma coisa que tínhamos lá atrás está fazendo uma falta latente aqui no agora. Ás vezes nos buscamos lá atrás, como se lá nesse lugar distante do que somos, houvesse a explicação pra tudo.

Em outro livro do autor, “O menino no espelho”, ele nos traz o encontro do homem como menino que foi. Relata-nos as imaginações, as brincadeiras, as aventuras, o amor aos animais e à liberdade dos pássaros do menino Fernando. Saímos dessa leitura um pouco mais conformados porque simplesmente, por mais que as coisas mudem, aquele menino é parte do homem de hoje, e de uma forma singular, ajudou na construção desse homem e permanece nele, ainda que adormecido pelo barulho ensurdecedor da cidade grande, dos compromissos e do cansaço nas articulações.

Enfim, a nossa existência é repleta de questionamentos, experiências, conflitos,sucessos, encontros que transformam nossas direções, medos com manuais de instrução,mistérios nunca solucionados com exatidão (de onde viemos, para onde vamos),sentimentos que nos preenchem ou que nos tornam a cada dia mais incompletos. Mas dentro desse turbilhão, na aurora de nossas vidas, pudemos saborear com um olhar desarmado e com um coração limpo de rancores e mágoas, um mundo bom e cheio de tempo para desperdiçarmos com a alegria despreocupada e com uma realidade que parecia fantasia. Se todo homem começa dessa forma, então podemos ter esperança.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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