navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Vestido vermelho

"E ela não passava de uma mulher inconstante e borboleta".
Clarice Lispector


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Chegou a casa como de costume no início da noite. Largou os sapatos pretos na porta de entrada, os pés doeram mais ao tocarem o chão frio. Jogou a bolsa sobre o sofá da sala, foi até a cozinha, abriu a geladeira e tomou na garrafa mesmo alguns longos goles de água gelada; tão gelada estava que sentiu uma pequena dor no céu da boca. Foi percebendo aos poucos essa água ir refrescando o seu corpo por dentro. Olhou em volta, a casa estava deserta e silenciosa: sem as crianças, sem o marido, sem barulho algum, apenas os móveis estáticos e calados a olhavam. Passou novamente à sala, ligou a televisão em qualquer canal em uma altura que pudesse atingir a todos os cômodos da casa. Ouvia uma voz fina de mulher anunciando um novo tipo de celular, ignorou. Precisava tão somente de um barulho que a fizesse companhia. Às vezes, o silêncio nos sentencia a ouvir pensamentos profundos ou automáticos demais para querermos suportar. Foi até o quarto, olhou-se no espelho, viu o semblante cansado, os olhos castanhos agora estavam meio vermelhos pela poeira enfrentada nas ruas,sem nem um fio de luminosidade, uma leve lembrança de batom nos lábios... Tirou a roupa como se fosse uma segunda pela gasta e pesada, parecia de repente se libertar. Jogou numa cadeira vazia e cinza que ficava num canto e foi até o banheiro para um banho. Molhou-se por inteiro, fechou os olhos, sentia a água fresca correr-lhe pelo corpo de trinta e sete anos. Mais um dia... Mais um dia...Saiu do banheiro enrolada na toalha, passou seus quatro tipos de hidratante para áreas específicas do corpo; com as mãos ia sentindo-se como se tocasse um outro ser por fora.

Abriu o guarda-roupa de forma automática e vazia, só que por um engano não planejado abriu a porta errada, aquela da parte onde ficavam as roupas menos usadas. Avistou o vestido vermelho esquecido entre outras peças de cores mais sóbrias e contidas. O vestido vermelho puxava o olhar dela como uma sentença. Faiscava feito chama. Qual a última vez que vestira aquele vestido, mesmo? Sim, foi numa festa de aniversário de uma amiga, Pâmela, anos atrás... Quantos anos mesmo? O tempo passa depressa e não espera por ninguém... Pegou o vestido com cheiro de passado e sem dar-se conta o vestiu. Embora um pouco mais apertado, ainda lhe servia, como se houvesse uma mistura de intimidade e distanciamento. Parou um instante em frente ao espelho. Foi uma festa boa, lembrava-se do som das gargalhadas das conversas, da música ao fundo como a trilha dos filmes, da linda gargantilha que dera de presente, de terem exagerado no vinho... Onde estaria aquela amiga agora?Como se distanciaram? Não encontrou respostas, mas continuou com os olhos presos em seu reflexo e nas lembranças que brotavam... O vestido parecia contagiar a todos os lados,envolvia a tudo com suas garras de cor penetrante e forte. Ela não queria o tirar de si, vibrava, pulsava sobre sua pele lavada como o sangue nas veias. Soltou os cabelos molhados, sentiu uma desenfreada e insuspeitada vontade de chorar, seus olhos arderam como se neles brotasse uma chama... respirou fundo... e de repente, reencontrou-se consigo mesma.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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