navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

A escritora adormecida

Às vezes, os sonhos que abandonamos nos mandam lembranças, ressurgem ao acaso em nossa imaginação, como um cheiro familiar ou como uma ferida que se abre de repente e começa a sangrar. Talvez possa ser apenas um grito de desespero de algo que ainda está vivo dentro de nós.


writer-1421099_1920.jpg

Era noite, uma longa noite que corria sinuosamente pelas calçadas, pelos prédios e esquinas vazias... Sônia despertou, o coração pulsando forte (gosto de medo na boca e imagens distorcidas que pareciam estar flutuando entre a realidade e o sonho); era um pesadelo... Seu coração continuava a palpitar a passos largos, suor frio na testa e em todo o restante daquele corpo magro e ainda meio adormecido. Seus olhos castanhos olhavam para a escuridão ao redor, buscavam uma chama de luz, procuravam o interruptor ao lado da cama, a luz não acendia. Estaria ainda dormindo? Teria faltado luz? Que horas seriam? Buscou a janela do quarto, sentia falta de ar. Com certo esforço conseguiu abrir a janela que dava para as paredes dos prédios vizinhos. Olhou em volta, tudo escuro. Um silêncio que era entrecortado por sons de carros que passavam apressados. Olhou para o céu. Não havia lua e esparsas estrelas luziam lá longe, bem longe de Sônia que olhava para o pedaço de céu negro que podia ver dali.

Respirou fundo, o coração já não estava tão acelerado, e neste instante já não lembrava mais do pesadelo que tivera; isso a angustiou bastante. Por um momento parou e tentou forçar a mente para que conseguisse lembrar exatamente do sonho que tivera e que a deixara tão apavorada.

Tudo escuro.Procurou lembrar onde deixara as velas e fósforos para essas ocasiões. Afinal, tinha ela velas e fósforos para essas ocasiões? Já dizia sua mãe, sempre deixe uma vela e um fósforo a postos, nunca se sabe quando haverá falta de luz. Sua mãe sempre achava rapidamente as velas, sempre iluminava nestes momentos. Procurou lembrar... Ainda não havia comprado velas. E nem saberia encontrá-las se as tivesse. Morava há pouco tempo naquele apartamento, ainda as coisas estavam em fase de arranjos. O que faria?

Percebeu que estava com uma vontade absurda de urinar, apalpando os móveis e batendo em qualquer coisa que encontrava pelo caminho, conseguiu chegar até o banheiro e saciar as suas necessidades. Conseguiu encontrar a torneira, sentiu a água fria escorrer-lhe pelas mãos. A água fria a acalmava. Melhor seria um banho. Chegou até o chuveiro com certa facilidade, tirou a roupa e logo após pôde sentir a água percorrer lhe as costas, o corpo por completo. O coração agora já batia normalmente. Tudo em volta eram contornos de alguma coisa que ela apalpava.

Após alguns minutos embaixo da água começou de repente a sentir frio, sua pele arrepiada, vontade de um abraço quente naquele momento. Buscou a toalha... Onde estaria? Estendeu os braços para todos os lados, mas não a encontrou. O jeito mais prático seria enxugar-se com a pequena toalha de rosto que encontrou. Agora estava nua, no escuro, tremendo de frio. Buscou a cama novamente, tentaria dormir e no dia seguinte tudo estaria bem, às claras. Antes que chegasse até a cama tropeçou em algum objeto, uma caixa, de madeira, talvez? Não se lembrava daquela caixa naquele lugar. Começou a apalpá-la. Estava aberta e dentro dela havia vários papeis e entre eles um caderno com uma capa dura. Um caderno pequeno, com cheiro de guardado, de velho. Que caderno seria aquele? Uma agenda talvez. Começou a passar calmamente as mãos por toda a superfície do caderno, a sentir suas folhas... Estavam todas escritas, dava para sentir a força minúscula da pressão de uma caneta sobre o papel. Cheirou o caderno... Cheiro de morango, um cheiro agradável que a levou para longe. Costumava usar uma caneta quando criança que tinha aquele cheiro. De repente, passando novamente as mãos pela superfície daquelas páginas veio-lhe a vaga lembrança, aquela lembrança desconcertante e atrevida que chega sem pedir licença pelos recantos da memória...

Quando era criança gostava de escrever histórias, dizia que seria escritora e por volta dos doze anos uma linda história dominou seus dias. Comprou um caderno e decidiu-se a escrever um livro a próprio punho. Em todos os cantos, em todas as horas... Nas mais diversas situações, estava ela com o caderninho marrom, de capa dura, escrevendo. Não havia hora adequada, nem lugar acertado. Enquanto não terminasse, todo tempo era tempo de escrever. Era uma gana tão absurda, parecia que tinha que jogar algo para fora a qualquer custo, sem demora, na duração de sua imaginação flutuante. Qual era a história? Era... Não lembrava... Como pudera esquecer? Já fazia tanto tempo assim?Quantos anos? Vinte talvez... Era uma história de amor, desencontros e com um final triste, foi o que pode recordar. Era uma história que a fazia chorar no final e por se emocionar com o que escrevera julgava que tivesse algum valor. Ao contrário das meninas de sua idade, sempre preferiu os finais tristes e desconcertantes... Hoje, sonhava com finais felizes, não exatamente de histórias inventadas, mas da sua própria vida real.

Vagou por alguns instantes pelas asas de uma imaginação já não tão fértil e criativa. Não era mais como antes. Criar histórias de cabeça agora parecia algo impossível, doloroso, paralisante, que não saia do lugar. “Havia uma menina que gostava de comer mangas no pé”. Começou assim, mas dessa frase não conseguiu ir adiante. O frio permanecia, melhor seria voltar pra cama, dormir novamente e esperar pelo dia.

Já na cama, repensava na história que agora queria criar. “Havia uma menina que gostava de comer mangas no pé”... Teria algum futuro uma narrativa que começasse assim? Não tinha mais criatividade. O tempo havia passado e ela se transformado em um ser diferente do que fora lá atrás. Das escrituras fantásticas pouca coisa ficou. Sua mente trabalhava, não conseguiria dormir daquele jeito.

Foi novamente até a janela, já não era tão difícil andar pela escuridão. A gente se acostuma a tudo, pensou. Poderia, com certeza, passar a viver no escuro sem problemas. Ficou olhando lá fora, os contornos das paredes no escuro, o barulho dos carros, a pouca brisa que passava naquele lugar.

the-locale-726512_1920.jpg

Nua, diante de uma janela que dava para a quase completa escuridão, começou a ver os contornos de outros tempos e lugares, quando morava em uma casa grande, arejada, cheia de gente em volta, com muito verde, muitos barulhos de grilos e sapos e lá longe, bem longe, quando o dia cogitava em nascer, o som do canto dos galos. Era um canto que sempre parecia distante, uma sinfonia que convidava cada um, de sua cama quentinha, a se levantar cedo, muito cedo. Naquele tempo, naquele lugar, acordar cedo era tão natural... A brisa da manhã fresquinha, que envolvia a todos, era única, Sônia não a encontraria mais em lugar algum.

Voltou a ver os contornos das paredes, tão cinzas eram, tão vazias... Quanto tempo teria passado desde que acordara? De repente viu-se diante do mais completo silêncio. Já não ouvia lá longe o barulho de carros que passavam. Até em cidades grandes há um momento do mais completo silêncio. Seria tarde, muito tarde. Queria voltar a dormir, mas sentia-se paralisada diante daquela janela. . Havia uma menina que gostava de comer mangas no pé. Tornou a pensar em sua possível história. Não conseguia ultrapassar a primeira frase. Sentiu-se novamente inútil. Voltou pra cama. Deitada, fechou os olhos, relaxou o corpo e aos poucos foi caindo novamente nos braços de Morfeu. Um sono pesado e profundo, dessa vez, sem pesadelos...

Dia. Os carros passavam apressados, buzinas soavam a todo instante. A claridade invadia o quarto de forma violenta pela janela. Sonia acordou, já eram oito horas da manhã. Estava atrasada para o serviço novamente. Foi uma noite estranha, recordou. Olhou em volta, toalha no chão. Caixa revirada, janela aberta. Procurou pelo caderninho marrom e percebeu que se tratava apenas de uma agenda do trabalho, como qualquer outra agenda de trabalho. Possivelmente o caderno marrom já nem existisse mais, perdido talvez nas esquinas do tempo. As coisas em volta estavam coloridas, porta-retratos na pequena estante de livros, guarda-roupa de portas abertas com varias peças coloridas em desajuste. A luz do quarto também estava acesa, o que aumentava a claridade. Tudo estava de volta ao normal. Nada de pesadelos. Que pesadelo teria sido? Não lembrava de jeito algum.

Nua, de volta à realidade de todos os dias. Uma animação a abraçou de surpresa. Tudo estava bem, a vida estava bem, o trabalho estava bem. Muitas expectativas pela frente. A claridade do dia, o barulho da cidade, tudo a excitava profundamente agora. Nada de melancolias.

“Havia uma menina que gostava de comer mangas no pé”. Tudo parou subitamente. Sonia chegou até a janela, olhou em volta, notou que a escuridão permanecia...


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Maíra Estela