navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

A MEMÓRIA E A ESCRITA CONFESSIONAL

A realidade apenas se forma pela memória; as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras flores.
Marcel Proust


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Somos seres inseridos no tempo. Buscamos insistentemente aproveitar os momentos de nossa existência como se estivéssemos constantemente deixando algo escapar por entre nossos dedos. Sonhamos com o futuro e desafiamos o presente para que ele não se desmanche no ar. Mas apesar de sermos seres tão minúsculos e limitados dentro desse Tempo soberano e infinito que dita suas regras, conseguimos guardar uma imagem do tempo que passou em nossa mente, a memória: o passado que ainda existe em nós...Embora ela exista a partir do que já passou e das cinzas de um momento que não existe mais, ela nos permite guardar conosco o que nos fez chegar até aqui, sejam coisas boas ou ruins. Há memórias que nos esclarecem como seres e ajudam-nos a colocarmos um equilíbrio nos movimentos dos nossos dias e, de certa forma, proporcionam uma organização sensível da nossa existência.

Como aspecto essencial de nossa jornada, a memória sempre foi motivo de inspiração para a arte literária. Vários escritores se valem da memória para criar narrativas intensas e profundas que tocam o leitor, seja uma memória real que torna-se matéria da arte literária, seja uma memória ficcional que nos traz personagens absortos em suas lembranças e perseguidos por imagens do passado que permanecem no presente.

Uma obra fantasticamente criada em nossas letras, nos permite adentrar no universo de um personagem perseguido por suas memórias e atormentado por uma culpa não assumida e que grita baixinho até os últimos sussurros da narrativa. Trata-se do romance São Bernardo de Graciliano Ramos. O personagem central, Paulo Honório, traça o seu projeto de construir um livro que narre a sua trajetória de vida, sua ascensão profissional, a criação da sua fazenda São Bernardo como símbolo de sua glória e de sua força. Mas o que nos impressiona ao longo da narrativa, de suas memórias, é que ele vai traçando aos poucos a sua personalidade, e a memória antes programada para fornecer dados de sua força, nos leva às suas fragilidades mais latentes e determinantes do seu destino. O que vemos é um personagem atormentado e ainda aturdido com a perda por suicídio de sua esposa Madalena. A senhora que não compartilhava os mesmos valores e visões agrestes que Paulo Honório carregava consigo. A escrita surge como uma confissão e extravasamento de uma angústia que o alcança a todo instante pelas mãos da memória. A memória o leva para as suas origens e o ajuda a criar, pela escrita, uma espécie de organização de um drama existencial que na prática não encontra saída. A literatura surge como a forma para organizar-se e explicar-se a si mesmo. Propor um sentido para toda uma existência que se gasta com o tempo.

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o defunto autor busca através de suas memórias, já na eternidade, esboçar um painel de sua vida com toda a sinceridade que lhe é permitida no espaço-tempo da eternidade em que se encontra. Sem máscaras, sem subterfúgios ou hipocrisias, o personagem-narrador se desmascara pela escrita e nos leva pelos caminhos percorridos ao longo de sua existência, nos dando a si por completo... As memórias, agora organizadas pela escrita, o fazem ter uma ideia mais completa de seus erros, atitudes e fraquezas. Fazem com que ele encontre-se com o que a existência de Brás Cubas realmente significou.

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As memórias têm esse poder de nos explicar a nós mesmos, de nos fazer ver a nossa existência através de um olhar mais amplo, que pode reprisar as imagens propostas até identificarmos um sentido para tudo que parece obscuro. Também podemos destacar esse encontro com memórias que perseguem o narrador em Dom Casmurro (Machado de Assis). As memórias que atormentam Bentinho, o narrador protagonista, necessitam ser organizadas e extravasadas pela palavra escrita. Como se essas memórias pudessem ser balanceadas e sintetizadas pela literatura, que fornece um extravasamento das angústias nascidas a todo instante pela memória que insiste em perseguir e estar presente na existência do narrador. Bentinho, agora com a alcunha de Dom Casmurro, organiza o sofrimento de sua vida através do relato do que já aconteceu. Mostrando ao leitor o painel de sua existência, do amor de Capitu e da apunhalada feroz que recebe na vida... Tentando convencer o leitor de seu fracasso vindo pelas mãos da traição de sua eterna amada da adolescência...

Há um movimento que podemos notar nas três obras mencionadas: As memórias, que geram um desconcerto existencial, uma angústia e até mesmo um desespero, e a busca por uma saída ou explicação lógica do sofrimento existencial pela confissão através das palavras.

Para o leitor, fica a sensação de que estamos penetrando num universo mais profundo e que nos proporciona um contato mais sincero com o lado obscuro dos personagens que narram suas memórias. Há sempre um gostinho mais apurado nas histórias que se baseiam nas memórias, ainda que ficcionais. Um gostinho de verdade narrativa que nos convence por inteiro... Talvez porque todos nós também guardemos, em nossas profundezas, memórias que também precisem ser extravasadas e balanceadas pelo poder indiscutível da escrita confessional... Pode ser a hora para começarmos a nos esclarecer...


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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