navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Castelos Submersos

Dentro de um coração humano há segredos, configurações e desejos que nem sempre conseguem chegar ao nosso próprio olhar e discernimento. Ficamos numa insistente busca para que tantos enigmas sentidos possam finalmente emergir e clarear os nossos próximos passos.


girl-691712_1280.jpg

Havia uma rua escura, muros altos e cinzentos com pichações confusas, cheias de palavras estranhas e com uma mensagem única e indecifrável. Ela aproximava-se e tentava fazer a leitura daquele código que parecia tão estranho e ameaçador. Á medida que se aproximava daquele muro, sua respiração ficava ofegante e o coração acelerava como se diante de um perigo eminente, mas precisava ler, precisava compreender aquilo, foi chegando, chegando, até sentir a pressão de uma luz branca que atingia em cheio a sua face. Dor na testa, e o despertar chegou brusco, como se o dia começasse mesmo como uma dor latente e estática.

Lúcia acordava, a luz do computador na escrivaninha em frente a sua cama de repente tinha ganhado força e se transformado em holofote de espetáculos grandiosos. Com certeza, o irmão mais novo tinha entrado lá e deixado ligado, como sempre. Agora era tarde para voltar para o sonho, que sonho afinal? Sim, o sonho com aquele muro e com aquela pichação confusa. Tentava terminar de abrir realmente os olhos, estava tudo muito pesado acima de sua cabeça. As lembranças da noite anterior começavam a chegar em bando, ligeiras, atropelando-se umas às outras, nem sempre obedecendo à ordem temporal ou lógica. Estava ainda com as meias que usara para sair ontem. Cabelos presos e embaralhados, com aquele sutiã e bermuda que serviram de pijama alternativo para o alto cansaço. Estava com o corpo pesado, a testa ainda doía. Sentia o rosto escondido por baixo ainda de uma camada ressecada de maquiagem que não teve forças para tirar. Aos poucos ia organizando o pensamento e fixando os pés no chão da própria existência.

Lúcia era uma jovem mulher de pouco mais de vinte anos. Morava com os pais e o irmão. Estava ainda buscando uma vaga na universidade, mas bem lá no fundo estava sentindo-se protegida por não ter passado para coisa alguma, pois ainda não sabia ao certo o que seria. Seria? Perguntava-se de repente... Mas já não era alguma coisa? E esse ser que era, por acaso se enquadrava no que queria ser? E ser seria um pressuposto, uma conquista ou uma decisão tomada por pressão do tempo ou da culpa? Talvez tentasse filosofia, pensava quando ficava confusa. Enquanto não se decidia, Lúcia gastava o tempo em estar como secretária num consultório de psicologia. Oito horas do dia gastas em preencher cadastros, agendar horários, receber pagamentos, ouvir a televisão ligada na sala de espera, passar um bocado de tempo isolada, com roupa própria, batom discreto e unhas sempre em ordem. Detestava ter que ver as unhas daquele jeito tão arrumadinho e prestativo, como se nada abalasse as mãos tão bem ornadas daquela secretária que quase não falava, que tinha que fingir não ver nada, ser discreta o suficiente para que os pacientes não sentissem qualquer constrangimento. Dir-se-ia na verdade que era basicamente para fazer-se não sentir pelos outros, para ser quase que ninguém, e incomodar tanto quanto um único azulejo colocado em sentido contrário numa parede enorme. Talvez pudesse ser alguém que usasse muito as mãos, tanto que nem tivesse tempo para aparar as unhas.

Era um sábado ensolarado. Lúcia reparava que já passavam das 11 da manhã. Dormira pouco afinal, pois chegara as 4 da madrugada depois de uma festa regada a drinks com nomes esquisitos e desafiadores, ao lado de gente que gosta de mostrar coragem fazendo o que pode causar um desconforto enorme no dia seguinte. Misturar bebidas, dançar de forma descarada e provocante, aturar um salto enorme que se destaca no meio da multidão, usar uma maquiagem forte que lhe transforma as feições, usar aquele perfume mais caro e mais intenso. Reconstruir-se ou desconstruir-se por completo para uma única noite no meio de semanas, meses e dias de normalidade e uniforme passado.

Lúcia, quando não estava trabalhando, gostava de estar cercada de pessoas, amigos, colegas e familiares mais próximos. Muitos dos amigos, gostavam de usar os meios virtuais para manterem contato, enviar recados e convites. Lúcia aturava tudo aquilo por força da amizade e do sentimento. O que ela gostava mesmo era de dividir o pôr do sol ao som do silêncio do fim do dia, quando a nossa mente para um pouquinho de pedalar essas engrenagens loucas e sem sentido. Mas Lúcia via pouco o pôr do sol, geralmente ainda estava no consultório quando isso acontecia, um consultório fechado, com janelas de vidro escuro, ar condicionado. Lucia vivia somente em uma única temperatura naquele lugar, independentemente de ser verão, outono ou primavera. Talvez quisesse vir a ser alguém que pudesse ver o pôr do sol com mais frequência., e sentir na pele as diferentes estações.

A noite anterior, lembrava-se Lucia agora dos detalhes, pois faz parte do jogo vivenciar novamente as experiências, por mais vazias que possam ser, através do pensamento. É uma espécie de internalização de um passado recente. Lucia saíra com Isabel e Pedro, amigos da vizinhança, há um bom tempo, desde o período escolar. Foram a uma casa de show no centro da cidade, um DJ conceituado na região tocaria até o amanhecer. Música alta, bebida liberada, gente da mesma faixa etária, perfumados, atraentes e atraídos pelo cheiro embriagante da ainda juventude que podiam desfrutar, destruir a cada gole, a cada rasteira do tempo, a cada susto da realidade soprado nos olhos. As gargalhadas tinham que soar altas, mais altas do que aquele som ensurdecedor que não dizia nada, não penetrava em nenhum centímetro de pele. Fazia parte do jogo da sedução gritar a liberdade, a alegria para os outros que faziam a mesma coisa. Essa sedução era atirada para todos os lados, como se todas aquelas pessoas fossem espectadores da nossa vida e devêssemos provar o quanto ela é autêntica e embriagante.

Lúcia às vezes se policiava pela sua alta dosagem de sensibilidade, ou de loucura, como julgava. Quando saia pelas ruas do bairro e encontrava-se com uma casa antiga, com aqueles portões de ferro enferrujados, com seus contornos de flores apodrecidos, sentia uma necessidade exorbitante de reparar neles, dizer-lhes em pensamento o quanto ainda eram bonitos, o quanto a faziam lembrar de um tempo que mesmo sem ter vivenciado parecia poético. Dizer-lhes baixinho o quanto eles guardavam de memórias, o quando de crianças já deviam ter brincado, subido em seus contornos... O quanto de pássaros já passaram por ali...Agora nada mais que uma paisagem velha, que ela amava assim. Loucura ou sensibilidade? Talvez devesse ser uma restauradora, pensava.

Na festa da sexta à noite, Lúcia dançara bastante, bebera também, mas não de forma exagerada, pois precisava manter minimamente os pensamentos no lugar. Pedro, o amigo mais velho, por sua beleza física e alto conhecimento das táticas de conversação não ficava quieto um só instante, mulheres de todos os tamanhos, cores e sabores, como ele mesmo classificava, chegavam de todos os lados. A dança de sedução entre ele e elas não demorava muito e caia ao nível da entrega corporal, unicamente carnal. Recheada de desejo inconsequente e beijos invasivos de ambos os lados. Pedro deixava-se guiar pelo desejo, pela permissividade que aquele lugar lhe proporcionava, pela elevação do seu prazer regado a vinho e “sex on the beach. ” Lúcia às vezes deixava-se envolver por aquelas cenas expostas pelo amigo a centímetros de distância.

Quando Lúcia tinha quinze anos, exatamente perto do meio dia, quando voltava do colégio, por um descuido nascido da desatenção a tudo que estava em volta, tropeçara na mesma calçada que percorria diariamente, e embora estivesse usando uma larga calça jeans, recebera em cheio com a queda uma dor latente no joelho esquerdo, tão forte que foi nítido e rápido perceber a mancha de sangue que se alastrava. A vergonha da situação e a dor súbita e inesperada trouxeram consigo uma mão amiga até então desconhecida. Era Pedro. Ele a ajudou a levantar-se, de forma delicada e firme. No mesmo instante que percebeu o sangramento, pediu-lhe licença e levantou com um cuidado fraterno a perna da calça dela. Realmente havia um estrago ali. Disse-lhe que era necessário estancar um pouco o sangue senão iria deixar um rastro vermelho pelas calçadas da rua, brincou. Arrancou a manga da camiseta branca rapidamente e fez um curativo desajeitado, mas cheio de ternura e sem qualquer sinal de asco ou nojo. Lúcia agradeceu veementemente pelo cuidado, e prometeu-lhe uma nova camiseta, embora soubesse intimamente que isso demoraria pois não tinha muito dinheiro na época. Ele disse-lhe para relaxar e não se preocupar. Foi naquele momento que se apresentou: Pedro. Daí em diante tornaram-se amigos. E da queda até agora já iam para as bodas de zinco na amizade. O que Lucia mais gostava nele era a leveza como encarava as coisas. Muitos dias ele não tinha tempo nem sequer para respirar e mesmo assim quando a via dava-lhe uma atenção sincera, um abraço gigantesco e um beijo na cabeça.

Pedro crescera desde aquele dia, e sua ternura, num mundo tão grande e duro, era notada por muita gente. Tanta gente que nos últimos tempos, Lúcia o sentia repartido, como se agora tivesse acesso apenas a uma única pecinha daquela criatura sorrateiramente fascinante.

Enquanto Pedro se entregava aos prazeres naquele evento peculiar de sexta-feira à noite, Isabel ficava mais próxima de Lúcia, tecia comentários vazios sobre o ambiente, a quantidade de goles que já tinha dado, os rapazes mais atraentes, a roupa que deveria ter usado. Sempre era assim, sempre algo estava errado, o sapato, os cabelos, as roupas, a maquiagem. Dias houve que precisou voltar do meio do caminho para trocar os brincos e ao final de mais uma festa, reclamar pela escolha. Isabel era uma jovem mulher que gostava de se montar de forma calculada e planejada, e sempre que o resultado não a satisfazia, e isso era algo constante, planejava já as próximas atuações.

balloons-878937_1920.jpg

Lúcia conhecera Isabel quase na mesma época em que conheceu Pedro. Ela era nova no bairro, os pais da garota planejaram um aniversário para que ela se animasse com a mudança de cidade e para agregar mais número à lista de convidados e encher o ambiente, pesquisou ou vizinhos adolescentes e implorou disfarçadamente para que fossem ao aniversário de 15 anos da filha. Lúcia demorou a aceitar a ideia, mas os pais a fizeram colocar-se no lugar daquela garota e a dar uma chance ao desconhecido, muitas vezes ele nos reserva grandes presentes. E falando em presente, Lucia também teria que providenciar um presente para a desconhecida. Não sabia o que poderia agradar, e nem deveria se importar com isso, afinal, nada mais era que uma estranha, mas num de repente de ternura resolveu desperdiçar um pouco de seu tempo com atenção e arrumadinha foi para a festa com o presentinho entre as mãos. A festa era bem arranjada, iluminada e cheia de docinhos e salgadinhos tentadores. Muita gente animada e jovem dançando, música ao vivo, piscina enfeitada com bolas gigantes. A aniversariante que parecia distante, num canto do quintal, sentada num banco de pedra e sozinha. Lúcia a procurou para entregar-lhe o presente. Ela chorava. Lucia quis dar meia volta mas decidiu ficar e sentar ao lado dela. Trocaram duas palavras, Lucia pensou que estaria naquele estado porque o pai havia convidado muitos estranhos para aquele aniversário tão marcante, mas deparou-se com uma explicação inesperada: “Ele bem que podia ter contratado uma banda mais conhecida para o meu grande aniversário, e não esse grupinho de boteco que fica imitando todo mundo”... Caia em lágrimas copiosas, o rosto já estava vermelho. Lucia sentiu vontade de puxar-lhe os cabelos, mas resolveu descontrair: “Melhor assim, banda famosa iria tirar toda a atenção de cima de você, as pessoas estariam aqui mais pela banda do que por você”. Essas palavras, ditas em tom de deboche, foram suficientes para fazer Isabel se iluminar toda e sentir uma vontade imensa de dançar e cantar e se divertir bastante. A má impressão que Lucia tivera foi rapidamente substituída por uma espécie de gosto por aquela criatura louquinha. Isabel então, passou a lamentar por ter chorado tanto por algo tão estúpido e agora estar com os olhos inchados e vermelhos. Para coroar o primeiro encontro das duas, Lúcia achou adequado entregar o providencial presente que levara: óculos escuros. Foi o presente que Isabel mais apreciou.

Na festa da noite passada, Isabel e Lúcia gastaram um bom tempo em dançar próximas e beber as mesmas coisas. Isabel ainda estava vulnerável pelo rompimento com o último namorado e buscava embriagar-se com qualquer alternativa que lhe proporcionasse satisfação, mesmo que passageira. Pedro, sumido por alguns instantes, Isabel achou de relance uma paixão momentânea e separou-se da amiga sorrateiramente com a desculpa de que era necessário aproveitar a vida enquanto se pode. Se isso fosse forma de encontrar alguma saída para o beco escuro que sentia estar.

Lúcia ficou sozinha, meio tonta já com a bebida e a música, pessoas estranhas que dançavam de todos os lados, as luzes sombrias que enfeitavam aquele ambiente que nem de longe trazia-lhe conforto. Sentiu de repente uma vontade enorme de vomitar, um mal-estar crescente com aquela solidão, aquela prisão formada por corpos estranhos que às vezes pareciam pisar-lhe, usar um pouco do seu corpo de forma intransigente. Procurou por Pedro, não o viu em nenhuma direção. Isabel também havia evaporado. Lúcia começou a sentir falta de ar, um medo súbito daquela solidão imprevista. Buscou por um banheiro. Andou trôpega até ele, um odor forte e asfixiante a deixou pior do que estava. Ficou alguns minutos na fila de espera que parecia não ter fim, mulheres loiras, morenas, negras, de todos os tipos disputavam aquele lugar fétido. Em seus saltos altos, saias minúsculas, batons coloridos sendo retocados, cabelos grandes sendo realinhados, algumas usando aquele ambiente para algo a mais que as necessidades básicas, automaticamente se drogavam compartilhando as mesmas frustrações e desejos de saídas tortuosas. Lúcia permanecia com o mal-estar em vertiginoso crescimento. Chegou até o banheiro, tão podre e asqueroso que a fez por um instante perder a noção do tempo e do espaço mas aguentou firme para poder vomitar finalmente. Estava tudo torto, fétido, mas sentiu um alívio necessário que a deixou mais calma. Saiu daquele lugar, respirou melhor e buscou por água desesperadamente como se viesse de uma longa caminhada no deserto. Conseguiu matar a sede após minutos de espera na fila de um quiosque. A água desceu amarga nos primeiros goles, mas conseguiu chegar ao seu gosto natural antes que Lúcia terminasse. Sentiu-se melhor, olhou para os lados a procura dos amigos... Não avistou ninguém próximo de um ser conhecido. Muitas pessoas, num instante parecia que a quantidade delas havia triplicado. Muitas risadas ensurdecedoras, parecia mesmo que gritavam, bem mais alto que aquelas músicas que passavam despercebidas pelos ouvidos de Lúcia, como se música alguma existisse naquele covil de perdidos. O que faria? Precisava de ar... Sentia-se sufocada de gente, barulho e escuridão. Foi até o estacionamento do local do evento, deveria haver algum espaço ali. Muitos carros, gente conversando alto, por que falavam tão alto, perguntava-se Lúcia.... Encostou-se numa parede pintada de anúncios e por um instante fechou os olhos e respirou fundo. O mal-estar começava realmente a se dissipar. Ficou calma, lucidamente calma, uma hora seus amigos a iriam procurar, caso não fizessem isso bastaria pegar um táxi e voltar para casa. Se tivesse levado o telefone bastaria ligar e tudo se arranjava, mas revezavam sempre que saiam juntos. Só um deles levava telefone para o caso de assaltos. Não imaginava que horas poderiam ser, o vento da noite estava frio, de um frio cortante e seco.

Em meio aquele intervalo de tempo que tirara para respirar, um homem apareceu sorrateiramente ao lado de Lúcia. Alto, magro, olhos fundos e castanhos, cabelos desalinhados, lábios finos e usando um casaco marrom. ´Parou ali de repente e puxou conversa:

- Esperando por alguém?

Lúcia nunca gostava de iniciar uma conversa com estranhos se pelo menos algum outro conhecido não estivesse por perto. Mas olhando bem para aquele rosto, conseguiu manter um diálogo:

- Sim, meus amigos, estão aí dentro e daqui a pouco aparecem.

- Lá dentro está tão sufocante, não achas? Aqui pelo menos se consegue respirar sem que nenhum cheiro estranho entre em nosso nariz.

- Realmente, lá não é um bom lugar para se respirar. Muito barulho.

- Para falar a verdade, não consegui ouvir nenhuma música lá dentro, é como se na verdade nem houvesse música... Desse jeito, prefiro ouvir o silêncio.

- Sim.

Ficaram em silêncio. Não havia mais assuntos sobre os quais pudessem conversar. Dois mudos na noite, dois estranhos na noite, indiferentes ao que estava em volta, buscando um refúgio naquela parede.

- Quer dançar comigo? – Perguntou, ele.

- Não sei, lá dentro não consigo nem virar a cabeça direito.

- Aqui...

Lúcia achou estranho tal pedido, mas o que poderia ocorrer. De onde estavam podiam ouvir o barulho do som de forma mais branda.

Aproximaram-se, tocaram-se como se fosse a primeira vez que tivessem a oportunidade de tocar em um bicho selvagem que alguém põe em nossas mãos: mistura de medo, curiosidade e excitação. Lucia sentia aquele calor humano aquecendo-a como quando chegamos em casa após longo dia de trabalho e nos sentimos protegidos abaixo daquele teto, por mais simples que possa ser. Havia um perfume também, um perfume que lembrava mato, natureza, algo que a relaxava. Eram dois estranhos na noite que se aproximavam delicadamente como duas gotículas de água que se encontram a escorrer pelo vidro da janela. Lúcia fechara os olhos, o coração ficou calmo, já não sentia mal-estar algum. O estranho de olhos fundos e ternos a abraçou calmamente, como se pudesse ao mesmo tempo apoiá-la nos braços e apoiar-se nela.

Lucia sentia aquele outro mais perto de si, tão próximo que era como se o conhecesse de longa data, como se pudesse andar tranquilamente naquele cômodo escuro. O conhecemos tão bem que já sabemos onde cada móvel fica, cada detalhe, cada saída. Lúcia poderia ficar ali naquele abraço e refugiar-se de tudo que a amedrontava, se encaixava perfeitamente dentro daquele abraço.

- Lúcia, Lúcia! Acorde! Você está bem??

Era como se os sentidos voltassem de repente, realmente como quando alguém doente adormece e enquanto dorme esquece da dor que sentia. Quando se desperta, tudo vai voltando aos seus devidos lugares, inclusive as dores voltam a gritar. Lucia ainda estava dentro de um abraço, mas a voz que ouvia era-lhe familiar...Pedro?

- Você está bem Lucia, quando cheguei aqui você estava meio...adormecida. Quando me aproximei, você abraçou-me e não sei... Estava desmaiada? O quer foi? O que faz aqui sozinha no estacionamento?

Lúcia permanecia calada, não sabia ao certo como fora cair naquela situação. Explicou tudo que lhe ocorrera até ali, falou do estranho que ficou ao seu lado, mas de repente tudo era muito insólito e obscuro.

A explicação plausível foi que caíra num cochilo repentino encostada naquela parede.

-Foi um sonho, Lúcia. Vamos voltar para a festa. -Que horas são?

- Ainda duas da madrugada.

Ainda? Pensou Lúcia, parecia que um século havia se passado entre a última vez que saíra daquele lugar e aquele momento. Queria ir para casa, mas deveria esperar por Pedro e Isabel.

-Onde está Isabel?

-Vamos, logo ali. Não fuja de nós novamente!

Todos em volta pulavam e dançavam muito ao som da música. Isabel estava bêbada o suficiente para rir de tudo e de todos. Quando viu Lúcia riu mais ainda. Os olhos vermelhos, meio fora de órbita, olhavam fixamente para Lúcia, ela ria sem parar. Chamava a amiga de minha linda, acariciava os cabelos de Lucia e confessava que a amava mais que tudo. Pedro continuava cercado de mulheres desconhecidas e Lúcia, mais uma vez, começou a ficar enjoada. Definitivamente tinha que ir:

- Eu vou para casa.

-Não, ainda é cedo, amor.... – Falava Pedro.

- Não se preocupe, eu pego um táxi e paro em casa, sem problemas. Isabel, você vem comigo? Vamos?

Isabel não queria ir, estava muito empolgada com tudo aquilo, parecia perdidamente feliz. Pedro aceitou prestar mais atenção em Isabel quando Lucia fosse embora. Pedro a levou até o ponto de táxi:

-Tem certeza? O que aconteceu? Você está bem?

-Sim, claro, apenas com um mal-estar no estômago. Preciso dormir.

- Está bem. Amanhã falo contigo.

Lúcia entrou no táxi e informou que direção deveria tomar. Encostou a cabeça no banco e respirou fundo. A noite estava acabando, iria acordar bem melhor, pensou.... Devia mesmo ter caído no sono e sonhado bobagens, pensava de olhos parados.

Uma música começou a tocar baixinho no som do táxi, uma música que parecia ser antiga, em inglês. Não lhe dizia nada, a música, mas falava tão diretamente ao seu coração...

- É de Frank Sinatra, a música.

Assustada, Lúcia ouviu a voz do motorista. Não queria muita conversa, mas respondeu com um elogio para a música. Uma música que deveria ser romântica, uma pena que não se enquadrava bem naquela situação. Fechou os olhos e tentou relaxar até chegar em casa.

Não foi possível, num cruzamento de pouco movimento, o motorista não obedeceu ao sinal vermelho e prosseguiu. Um carro vindo em outra direção atingiu o táxi, ainda que não com tanta força. Lucia acabou batendo com a cabeça no encosto do banco da frente, por sorte estava usando o cinto de segurança, mas realmente não lembrava de tê-lo colocado. Deveria ter sido uma ação automática, feita sem atenção, mas que a protegeu. Os motoristas estavam bem, tão bem que ambos desceram do carro e começaram a discutir raivosamente.

Lucia não sabia o que podia fazer, estava assustada demais, sem nem um pouco de confiança para continuar com aquele taxista louco. Os dois continuavam a brigar. Lúcia olhou em volta, um deserto sem tamanho, mas talvez, aquelas ruas desertas àquela altura da madrugada bem pudessem ser mais acolhedoras que aquele carro com um dos lados amassado. Sem que os dois homens percebessem, Lucia seguiu em direção à sua casa a pé, sozinha às 3 da manhã, com as pernas trôpegas.

Um silêncio ensurdecedor começava a se fazer sentir à medida que as vozes daqueles homens ficavam mais distantes, minúsculas, ínfimas. Lúcia caminhava apressadamente, olhando para os lados. Depois do silêncio absoluto, à proporção que caminhava mais aceleradamente ouvia o batimento do próprio coração, a respiração meio ofegante, o barulho dos sapatos sobre as calçadas de concreto. Um ventinho sorrateiro ás vezes balançava os seus cabelos soltos e compridos. Em pouco mais de meia hora, ou talvez menos, poderia estar em casa, finalmente. As luzes dos postes pareciam mais amarelas que o normal, quase laranjas.

tunisia-534971_1280.jpg

Passando por um muro feito de pedras, com alguns galhos de plantas ou árvores escapando para a rua, Lúcia sentiu um cheiro familiar, o cheiro daquele estranho com quem dançou, ou pensou, sonhou dançar...Como aquilo era possível? Começou a relembrar a face daquele homem que mais era um enigma que uma realidade. Aqueles olhos fundos, castanhos, aquele porte alinhado... Seria realmente bom que estivesse ali com ela. Sobre o que conversariam? O tempo? A beleza da noite? O tom da madrugada buscando a luz da aurora? Talvez desse para ser poeta, pensou. Ou romancista, já que ao que tudo indicava tinha uma imaginação fértil e uma sensibilidade aflorada. Os dois dançariam no meio do asfalto, decidiriam juntos ver o amanhecer, trocariam confidências e beijos apaixonados. Quem mais a entenderia de forma tão automática quanto aquele estranho? Aquele fantasma da imaginação?

Quem acreditaria que ela estaria por ali sozinha? Era uma loucura? Mas uma sensata loucura. A cidade parecia tão triste naquele tom cinzento...Muitos muros pichados, até em prédios altos, tanta coisa escrita e nada sendo dito... Uma atmosfera que lembrava os sonhos que costumamos esquecer. Avistou a entrada da rua em que morava, finalmente aquela terrível noite terminaria, estava exausta, querendo a cama mais que tudo. Lucia começava a rir com essas lembranças da noite que já havia passado e provavelmente pensaria muito antes de ir para uma festa como a que tinha aturado. A cada dia que passava sentia-se mais fechada para os divertimentos. Poucas coisas conseguiam realmente conquistar a sua atenção e interesse. As piadas que ontem a faziam gargalhar, hoje eram aturadas com preguiça.

Então, com as últimas doses de força física, Lúcia percorreu a rua e chegou finalmente na varanda de sua casa. Havia um homem a esperando de costas, de casaco marrom, alto, magro... Era o estranho que a fascinara. Lúcia sentia uma vontade arrebatadora de abraçá-lo sem pedir licença, dizer contente, eu sabia que você era real, não sou louca. Seu coração saltou, aproximou-se silenciosamente e o puxou rapidamente para um abraço grande:

- Finalmente, Lúcia, você chegou. Estava já enlouquecendo de preocupação!

Um grito mudo saltou-lhe do coração, não pôde dizer nada. Era Pedro quem a esperava. Lúcia assustou-se e tentava entender o que ele falava:

-Onde você estava, já deveria ter chegado em casa...

-Uma batida no carro e resolvi voltar caminhando.

-Batida? Está bem? Machucou? Como está?

-Sim, apenas cansada, andei bastante...

-Sozinha? Nunca mais você volta de qualquer lugar sozinha ouviu? Isabel passou mal e assim que você saiu nós também acabamos saindo.

- Está bem. - Falava meio trôpega.

- É melhor entrar e dormir para descansar. Amanhã nos falamos.

-Está bem. Vamos dormir. Amanhã é um novo dia.

erect-gravestone-1165331_1280.jpg

Os dois olharam-se ternos. Lúcia sabia que podia contar com ele para tudo. Sentiu-se de repente vulnerável demais. Ele seguiu o caminho de casa e ela entrou. Sentia-se mais pesada que o normal. Chegou até o quarto, largou os sapatos, tirou a blusa e o perfume que falou mais alto naquela noite ainda a embriagava. Olhou-se no espelho, parecia que voltava de uma guerra particular, resto de batom nos lábios, a maquiagem dos olhos escorria pela face como um liquido sujo. Tirou a calça, vestiu a primeira peça que encontrou, caiu na cama e começou a chorar até adormecer.

Pedro ainda estava muito acordado, passou direto de sua casa e andou um pouco sem rumo... Olhava em volta, o dia já clareava com mais velocidade. Os primeiros ônibus e carros já rodavam pelas vias do bairro. Pessoas já se apresentavam àquela manhã. Pedro chegou à padaria próxima, pediu um café. Seus olhos fundos e castanhos estavam quietos, pensativos e com uma angústia disfarçada pelo cansaço. Lembrava-se já da noite como algo distante, como num sonho confuso, mas que lhe trazia uma saudade sincera. Uma saudade do que não tornou a ser.

Havia uma rua escura, muros altos e cinzentos com pichações confusas, cheias de palavras estranhas e com uma mensagem única e indecifrável. Lúcia tentava entende-la, decifrá-la de perto. Chegava cada vez mais junto, e aquelas palavras não lhe diziam nada. Era uma linguagem que ela ainda não conhecia. Seria preciso afastar-se bem para entender o que realmente queriam lhe dizer, como na leitura de um quadro confuso que se esclarece por si mesmo à medida que damos um passo para trás. Mas Lúcia permanecia imóvel.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Maíra Estela
Site Meter