navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

O amor se perdeu

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
(Vinícius de Moraes)


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"A casa estará vazia”... Ainda faltavam chegar duas peças do armário que havia encomendado na semana anterior. “Será que teria mais dores de cabeça por conta de tanto atraso? As panelas já estão empoeiradas demais de tanto ficarem pelas cadeiras e fogão. Sem contar que esbarrar nelas pela cozinha já estava se tornando algo insistentemente estressante... Panelas caindo são irritantes, parecem gritos de estranhos”.

O suor escorria-lhe pelo pescoço até as costas, sentia aquela camisa de tecido sintético grudar-lhe na pele e uma sensação de falta de ar acumulava-se naquele final de tarde. Seus pés traziam-lhe desconforto e tensão, amordaçados naquele tênis preto gasto, e até a calça jeans estava mais pesada que o normal. Inspirava o ar carregado de poeira e lodo. As variáveis, variadas pessoas entravam naquela jaula de transporte público, amontoadas e sedentas pela liberdade de caminhar num ar livre e amplo, onde coubessem, uma a uma, das frustrações engolidas a seco.

Sentado, tivera sorte naquele dia de sair mais cedo do posto em que trabalhava e ainda teve o luxo de ficar do lado da janela. Postou a cabeça mais próxima ao vidro sujo como se esgueirasse de um perigo iminente; o pequeno espaço aberto lhe permitia sentir de leve, quase de forma inesperada, o ar do fim do dia naquela alameda de concreto: luzes e barulhos congestionados, tão entrelaçados que lhe lembravam o murmurinho indecifrável de uma sala lotada de gente que fala sozinha no escuro. Olhava para as luzes artificiais que a cada dia surgiam mais cedo pelos caminhos, para o amontoado de pessoas que estavam dentro e fora daquela cela, fitava à frente com os olhos ardidos e com uma cor confusa entre vermelho, branco e preto; buscava um pedaço de céu para o qual pudesse olhar, mas não encontrava; tudo estava muito cinza e talvez já nem fosse possível distinguir o que fosse um pedaço de céu ou uma parede cinzenta. O coração apertava, dava-lhe um susto... “Coisa grave? Não”. O dia havia sido cansativo demais, estresse demais... “E ainda lhe diziam para parar de levar uma vida sedentária, praticar atividades físicas e se cuidar”... Riu...

“Será necessário ligar mais uma vez para a loja e cobrar pela entrega das últimas peças do armário... Tanta coisa por arrumar... Nem sabia como iria organizar tantos objetos. Ela não vai estar lá... Para arrumar calmamente, com cuidado, com respeito, lembrando de onde as panelas tinham vindo”: “Lembra essa frigideira que compramos na primeira vez que fomos ao supermercado juntos... Você disse que era cara demais, mas olhe para ela, tantos anos e continua firme e forte”... Os objetos às vezes contam uma história, às vezes narram uma vida, são cúmplices mudos de sentimentos e experiências. Lembrou-se da primeira noite que passou em casa após a morte do avô que o criou desde menino. Ela aproximou-se da mesa com uma xícara vermelha repleta de desenhos de balões azuis e amarelos, cheia de café bem quente, como ele gostava. Ficou ali parada, com as mãos em seus ombros, sem dizer nada. Ele com os cotovelos na mesa, apoiando com uma das mãos a cabeça que pendia. Um aperto grande no peito. E ela ainda estava lá, respirando ao seu lado com a mão em seu ombro e com a xícara inapropriadamente feliz à sua frente, como se lhe chamasse para um recomeço depois da dor.

O ar pesava, seu coração voltava a lhe dar um sustinho de preocupação, inspirava e acalmava-se como uma obrigação automática. O suor persistia. Dentro da jaula era uma mistura do mais absoluto silêncio com o mais tumultuoso dos alardes. Havia já mais de uma hora que não abria a boca. Na verdade não era de falar muito. “Sempre foi assim, sempre cauteloso demais, comedido demais, faltou falar para ela aquela história, daquele dia em que... Ela realmente não estaria lá”... Olhou novamente para a vista limitada que tinha daquela cela em movimento tão familiar, buscou novamente pelo céu, mas não encontrou.

Em um instante, já era noite. Em um instante já estava em frente ao consultório “Sorridente”, onde ficava seu ponto de desembarque. Todos os dias, sem trégua, via aquela imagem enorme de uma boca plástica e brilhantemente branca que servia de cartão de visitas para os possíveis pacientes. Às vezes, até nos sonhos aquela imagem surgia, misturada com outros assuntos, como uma visita inconveniente que insiste em aparecer. Nunca havia entrado naquele consultório, apesar de já conhecer de vista os funcionários e até clientes frequentes. Desceu automaticamente do ônibus, o consultório já estava fechado, só a imagem daquela boca plástica permanecia iluminada na parede frontal do prédio. Andou por alguns minutos, virou à esquerda e chegou a casa.

Seu vizinho estava na calçada apreciando um cigarro, com a sua bermuda marrom de fim de dia, chinelos de dedos e uma das mãos no bolso esquerdo. Perguntou ao conhecido se alguém aparecera para deixar alguma peça do armário, mas só recebeu negativas.

Abriu a portão, a grade de proteção da porta, a porta e finalmente entrou. Tentou acender a luz, mas foi em vão, a lâmpada da sala estava queimada. Novamente tinha esquecido de comprar uma nova. De repente se viu preso novamente... A casa já havia sido mais acolhedora em outros tempos, ultimamente apresentava defeito em todos os lugares. Parecia um filho que ele não sabia cuidar nem amar. Era bem verdade que sentia-se como se não tivesse tempo pra mais nada, que sua cabeça estava muito cheia para guardar detalhes e providenciar minúcias. Lembrou que estava com fome, foi até a geladeira, nada de especial... Um refrigerante aberto, algumas frutas, arroz velho e carne crua no congelador. Fez um café, comeu com pão dormido e contentou-se.

Precisava mesmo era de um banho... Ligou a televisão, algumas cenas de filme pela metade passavam. Não tinha muita intimidade com as programações, ia vendo o que aparecia quando dava, ou para ajudar a pegar no sono.

Ao som da televisão foi tomar banho, frio e rápido... Seus pés finalmente livraram-se do afogamento no tênis preto. Na cozinha, as panelas ainda permaneciam jogadas pelos cantos, como sobras de comida que precisamos nos livrar antes de lavar os pratos. Não havia outro espaço para elas além do resto do armário que ainda não tinha chegado. “E desde quando precisou de tantas panelas para sobreviver? Isso era coisa dela... Ela sim tinha mania de arranjar dessas coisas de cozinha. Mas isso era o mínimo”... Um silêncio paralisante o invadiu sorrateiramente... Olhava para aquele armário incompleto e lembrava-se do seu último diálogo com ela...

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Foi num domingo à noite. Ela havia passado o dia inteiro calada. Ele estranhou o comportamento, pois ela costumava falar bastante, de tudo... Desde objetos insignificantes, das dores corporais, do barulho dos vizinhos, da comida que estava fazendo. Ele muitas vezes a ignorava. Eram tantas coisas sendo ditas que ele deixava passar uma parte delas pela audição desatenta. Quando o fim do dia chegou, com aquela atmosfera de encerramento de um ciclo que os domingos costumam trazer à rotina, ele sentiu inesperadamente um constrangimento e um mal estar com aquilo tudo. Arrastou os chinelos e finalmente perguntou:

- E o que foi que está assim hoje? O que tem?

Ela parou de arrumar os pratos na mesa da cozinha, uns pratos brancos quadrados, abaixou a cabeça por uns instantes deixando escapar apenas o som da sua respiração... Era uma respiração nervosa e aflita. Cheia de promessas... Quando levantou os olhos para ele parecia que mostrava pela primeira vez uma outra face, uma expressão que ele jamais vira antes naquele rosto. Foi o primeiro momento em que uma preocupação realmente o alcançou. Disse: - Não dá mais...

Ele custou um pouco a entender o que aquelas três palavras ditas de súbito realmente iriam significar.

- O quê? O que não dá mais?

- Eu tentei, mas isso que estamos vivendo não dá mais. O amor se perdeu...

“O amor se perdeu”... Repetia agora em voz alta enquanto olhava para o armário mutilado e para as panelas soltas pelo acaso... Já iria para cinco meses que não a via... E até aquele momento aquela frase ainda o perseguia feito um condenado atormentado pela consciência por conta do crime que cometera. “Ela certamente havia encontrado outro, por isso a urgência na separação, a gana de sair de casa, de nunca mais vê-lo, de nem pensar na divisão dos bens. Fugira dele”... Estava com raiva, estava nervoso... Era o cansaço... O dia foi intenso, a garganta começava a arranhar e os olhos a arderem fortemente... Na verdade....na verdade... deveria ser o choro preso, encurralado por cinco meses desde aquele domingo... Tentou por alguns instantes ainda se fazer de forte, como se convém chamar a quem não chora...

O que o encurralava, naquela cozinha, entre aquelas panelas empoeiradas, era a pergunta insistente.... “Como o amor se perdeu? E por que ela o olhava como se ele fosse o criminoso, por que foi ela que saiu como uma vítima que foge do local do crime para se evitar os traumas e começar uma nova vida...? Por acaso não estivera lá, com ela, todos os dias, construindo uma vida juntos... Saindo cedo pra trabalhar, para ter do que viverem? Por acaso não a amava na vida, no cotidiano, na cama”?

“O amor se perdeu”... A mensagem ecoava no fundo dos seus pensamentos... Procurava afugentá-la como uma mosca insistente que pousa em nossa pele e nos causa irritação. Andava pelos cômodos, abria a janela do quarto que dava para o próprio quintal... Um cigarro talvez caísse bem para aliviar a tensão, mas desviou-se da ideia... Era um corpo na noite que buscava pelo descanso, mas a mente se embaralhava com os pensamentos revirados... Uma mistura de imagens cotidianas, preocupações rotineiras e o tormento de algo que havia perdido. Tinha raiva e ao mesmo tempo sentia falta... Não havia saídas, voltava a pensar nela, no quanto aquela ausência fazia com que tudo em volta se transformasse em algo amorfo e que incomodava... Tudo era irritante na casa... A cor, os móveis, o cheiro...

“Deveria estar com outro... Por isso o amor se perdeu? Mas desde quando? O traíra talvez, enquanto trabalhava? Isso seria uma vergonha... Mas saberia... Sempre se comentam essas coisas entre a vizinhança, alguém o alcançaria e diria que viram algo, alguém suspeito... Nada, pelo contrário... O viam como o culpado. Culpado de quê”? Sentia nos olhares, nos cochichos, nos suspiros... Pareciam agora ignorar a sua existência. “Talvez devesse procurar por outra pessoa... Mas por que não se explicou naquele domingo? Era isso... Faltava uma explicação... O amor se perdeu não dizia nada com clareza... Era muito vago”...

Os pés doíam... Andou novamente até a cozinha, era agora um lugar que incomodava e não trazia prazer... Sentiu de fato uma raiva instantânea ao olhar novamente para as panelas no chão... O dia inteiro se passou e a preocupação que chegava aos seus pensamentos era onde colocar as tais panelas... “Como fora chegar ao ponto de se preocupar tanto com panelas”?? Chegou mais perto delas... Pareciam tão estranhas, objetos perdidos e sem sentido... Ao mesmo tempo eram tão gastas... Deviam ter anos de uso, e estavam ali, sem um fio de calor que o fizesse ter algum reconhecimento ou simpatia... Começou a pegar uma por uma, olhá-las de perto, passar a mão na superfície, ver os parafusos que estavam soltos... Eram objetos tão estranhos... Algumas eram até bonitas, diferentes, antiaderentes... Mas não as reconhecia... A garganta voltava a arranhar e os olhos ardiam como brasas acesas pelo sopro... Não havia lembranças em si mesmo daqueles objetos... Eram estranhos e enigmáticos... mas disseram-lhe baixinho naquele instante que realmente o amor se perdeu...Tanto e tão profundamente.... dentro dele mesmo...


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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