navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

O OUTRO TEMPO DE SI MESMO

Cada um rema sozinho uma canoa que navega um rio diferente, mesmo parecendo que está pertinho.
Guimarães Rosa


feet-984071_1920.jpg Houve um tempo em que o senhor José Carlos acreditava que se tornaria um grande ator. Queria fazer as pessoas rirem e esquecerem nem que fosse por um minuto os aspectos cansativos da rotina e se detivessem na arte do drama, na cena interpretada e revelassem um brilho espontâneo no olhar a cada papel que ele pudesse encarnar.

Estas aspirações o rodeavam por volta de vinte e cinco anos atrás e sem mais nem menos voltou a percorrer suas ideias naquela manhã de quinta-feira. Neste momento, o senhor José Carlos estava a fazer uma de suas mais costumeiras ações: pesar carnes e calcular o preço a ser cobrado para a cliente que esperava do outro lado do balcão; cliente esta que por sinal costumava ir quase toda semana à busca da melhor carne para alimentar sua família:

- Senhor José Carlos, hoje a carne tem que está no ponto. Meu marido inventou de chamar uns amigos para assistir a um jogo e sabe como são estas coisas, se não tiver uns petiscos e umas cervejas para acompanhar, ninguém sai satisfeito, independente do resultado do jogo. Falou a mulher que costumava sempre informar ao açougueiro qual a finalidade da carne que comprava.

O senhor José Carlos fez um gesto com a cabeça em sinal de aprovação, mas na verdade havia um bichinho insistente que mexia consigo no íntimo e o levava para épocas mais distantes; o levava para perto de um sonho guardado lá atrás. A cliente saia satisfeita com a compra e ele permanecia no seu posto, olhando o pouco movimento da rua. Como não houvesse nenhum outro cliente à vista e como o bichinho parecia crescer a cada instante em sua mente, o senhor José Carlos debruçou-se no balcão e com o queixo apoiado em uma das mãos deixou-se render por lembranças da juventude... Eram outros tempos, ele ainda não tinha se tornado o senhor José Carlos, na verdade, não passava por sua mente vir a ser tratado por senhor, muito menos ser chamado pelo nome de José Carlos, se sentia bem apenas com a alcunha de Zeca e nada mais, isso lhe bastava.

Ele era tão somente o Zeca. O Zeca do clube de xadrez. O Zeca que passava a maior parte das noites ao luar. O Zeca que apresentava peças ao lado de amigos nos aniversários da cidade. E o Zeca que conquistava os corações das moças difíceis através de insistências atraentes e sorrisos metidos a sinceros. Os seus dias eram divididos entre o trabalho de atendente de uma locadora, os estudos para tentar entrar em uma faculdade e as noites de liberdade. Tudo era permitido naquelas noites, e embora lutasse por uma vaga no curso de história, sabia que seu talento era outro, era apresentar histórias, histórias agradáveis e encantadoras, ao ponto de transformar o dia de quem as presenciasse.

Os amigos mais chegados de Zeca compartilhavam com ele desejos bem semelhantes. Inventavam mil e uma formas para interpretar comédias, de todos os tipos, com críticas embutidas à sociedade, satirizando os dramas amorosos e denunciando as convenções sociais que trancafiavam a liberdade de expressão e de ação, principalmente dos mais jovens. Bons tempos aqueles, pensava o senhor José Carlos, lembrando-se de Zeca como uma espécie de personagem de um livro muito querido que tivesse lido e cujos comportamentos quisesse adotar como se fosse um ídolo a seguir. Estava tão mudado, refletia. Zeca nem sequer parecia fazer parte do ser “senhor José Carlos”.

O expediente de trabalho seguiu sem grandes surpresas até chegar a hora de se dirigir para sua casa. Fechava o açougue após conferir o caixa. Saia do estabelecimento, o “Açougue do Zé Carlos”, e ao ler o nome do seu ganha-pão, a nostalgia tornou a bater-lhe a face, já tivera sido mais criativo em seus investimentos, e o nome Açougue do Zé Carlos foi lhe machucando até chegar a casa.

Ao transpor a porta de entrada, por um momento sentiu-se menos infeliz, pelo menos tinha um lar aconchegante, uma esposa de anos de convivência e dois filhos sadios e crescidos: a mais velha, Paloma, contava com dezesseis anos e o mais novo, Cassiano, com onze.

A esposa servia o jantar. O menino conversava com o vídeo game e Paloma, alheia a tudo em volta, estava no mundo da lua como de costume, olhando para as unhas e pensando em algo que para ela deveria ser o assunto mais urgente do mundo. Costumava chegar à casa calado e só manter conversa depois do banho. Dirigia-se a mesa, esperava o prato e então indagava sobre os fatos do dia, as novidades de casa e as fofocas mais urgentes dos vizinhos. Assim mantinha conversa com a esposa até metade da noite. Depois disso, costumavam assistir televisão, principalmente aos noticiários. Ela, sempre passando algum creme no pé e nas costas, reclamava de muitas dores e dizia que precisava dormir mais cedo para compensar o cansaço do dia. A filha não parava quieta em canto algum, sempre arranjando novos problemas existenciais para resolver e o menino, muito alerta a tudo, depois nas nove costumava perder o entusiasmo e ir pra cama antes que todos.

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José Carlos vivenciava esses comportamentos quase todos os dias, mas somente nesta quinta-feira parou para observar. Talvez se o Zeca estivesse aqui as coisas pudessem ser mais empolgantes, refletia. Olhava o noticiário, tentava esquecer o bichinho que cutucava, mas tornava a sentir a sensação estranha que o acompanhou por todo o dia. De repente se perguntou o que teria acontecido se ele tivesse de fato seguido a carreira de ator. Estaria diferente?Teria outra família? A esta indagação seguiu-se um sentimento de culpa, mas então estou a reclamar de minha própria família? Pensava inquieto. A esposa cochilava no sofá. Estava ela com quase quarenta anos e permanecia com o semblante de quem não tem culpa de nada, diria até mesmo de quem não peca muito e é indiferente a sonhos abandonados. Talvez isso seja a melhor coisa a se fazer, decidiu o senhor José Carlos, justificando em pensamento tal escolha: a vida é o que é mesmo, se me tornei açougueiro, ou melhor, dono de um açougue que é o mais popular da cidade, que sustenta minha família de forma digna e me proporciona um conforto suficiente, é porque tinha que ser assim. Tenho filhos lindos e uma esposa que vai ficar ao meu lado até o fim da vida. Olhou novamente para a esposa de olhos cerrados. Ainda era bela, tão bela quanto no tempo em que a conhecera no meio de uma de suas apresentações na praça central da cidade. Foi a pessoa que mais riu da encenação naquele 24 de outubro de 1991.Foi o sorriso dela que lhe chamou a atenção, tão espontâneo e doce que não saiu mais de sua mente, até o ponto de perceber que desejava com todas as forças ver aquele sorriso em todas as manhãs de sua existência.

Lembrou-se também de como Zeca era romântico naquele período e percebeu, ao olhar para a esposa, que poucas eram as ocasiões em que parava para olhá-la em silêncio, como os apaixonados costumam fazer. A essa conclusão seguiu-se um choro inesperado de tristeza e alegria ao mesmo tempo. Mas afinal, senhor José Carlos, que bicho te mordeu hoje hem? Perguntava-se como uma forma de bronca que dava a si mesmo. Agora deu para chorar como um moleque mimado? Faça-me o favor senhor José Carlos e trate de viver sem frescuras e viagens ao passado. O que passou, passou.

-O que foi, querido? Está brigando com a televisão? Disse a esposa que despertou assustada com a voz do marido.

O senhor José Carlos nem se dera conta que falava em voz alta, acreditava que estava somente pensando. Isso o assustou profundamente:

-É o sono, eu acho... Vou dormir já. E você é bom ir pra cama, pois já estava dormindo há um tempão aí no sofá.

Foram os dois para o quarto e logo caíram na cama. Ela pegou no sono em menos de cinco minutos. Ele permaneceu acordado. O dia tinha sido incomum, mas finalmente chegava ao fim. Desejou não possuir mais lembranças boas e que, no entanto, só lhe deixavam meio inconformado, meio perdido no tempo. Fechou os olhos e...

Mas afinal, por que não me tornei ator e sim açougueiro? Buscava lembranças para responder à pergunta, mas não encontrou resposta. Foi a última coisa que pensou antes de ser vencido pelo sono. ***

No dia seguinte o senhor José Carlos acordou disposto, sem dores nas costas e com o corpo bem renovado após horas de descanso. Cassiano insistiu para ir ao açougue com o pai já que não haveria aula naquela sexta-feira. O senhor José Carlos concordou e até disse que deixaria o filho pesar as carnes. O menino, ainda de pijama, pediu ao pai que esperasse só um pouquinho enquanto se lavava e trocava de roupa.

E esposa batia a massa de um bolo. O senhor José Carlos parou um instante, olhou para um imã de geladeira em formato de máscara e ficou pensativo. A esposa atenta logo percebeu: -O que foi, homem, nunca viu um imã de geladeira não?

- Sabe, estou com a impressão de que estava procurando algo, mas não me lembro o que seja. Não sei, estava com alguma dúvida, mas não estou lembrado.

- Será que não é a geladeira nova que você disse que me daria e até agora nada? Já olhou o estado em que ela se encontra? E essa promessa já vai para um ano!

-Pode ser...

Saíram pai e filho para o açougue. O dia foi bastante lucrativo, com muitos clientes conhecidos e até novatos. Cassiano se divertia em pesar as carnes e já cobrava comissão pelos serviços prestados. O pai se envaidecia com o entusiasmo do filho, que perguntou de repente a quem ele tinha puxado mais, ao pai ou à mãe. O senhor José Carlos procurava resposta, mas não encontrava. Para se sair da pergunta embaraçosa disse que o menino era uma mistura dos dois, apesar de perceber mesmo que o menino era um bocado diferente dele e da mãe.

Zeca foi esquecido por completo, não passando de uma figura velha e encardida de fotografias antigas. Deixou de existir nos pensamentos do senhor José Carlos, que vivia feliz com seu papel.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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