navegando pelo universo literário

Entre as palavras, as entrelinhas e o ponto final há sempre algo fantástico acontecendo

Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós.

Um crime pela liberdade

Entre tantos caminhos, encontros e memórias, há sempre um lugar para as coisas mágicas que se fazem presentes em nossas tão realistas andanças...


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No dia em que a vi pela primeira vez, sua imagem esboçava-se por contornos distorcidos. Eu estava encostado ao vidro da janela de meu quarto e chorava copiosamente, soluçando, porque meu cachorro tinha morrido naquela manhã. Ninguém até aquele momento havia conseguido me consolar, nem a promessa de um novo amigo cão para os meus inteiros onze anos. Ela era uma figura esguia, branca, de cabelos castanhos encaracolados e com a cabeça baixa. Tinha sido a última pessoa a descer daquele caminhão de mudanças. Sequei os olhos para vê-la melhor. Parecia assustada, inconformada, diria até que muito triste por estar chegando naquela casa que ficava em frente a minha. Muitas pessoas já haviam passado por ali, de forma que eu e meus pais, e antes o meu cachorro, nunca conseguíamos criar laços mais fortes com o vizinho da frente pela alta rotatividade que a casa tinha. Já havia passado por ali o senhor Jéferson, um idoso solitário e ranzinza que sempre implicava com os latidos de Hércules, diria até que sua curta estadia por lá ocorreu por esse motivo, insignificante. Também convivemos por alguns meses com a família do padeiro Gregório, às vezes ele nos presenteava com sonhos no final do dia, era uma boa pessoa, que também durou pouco por lá. Os últimos moradores foram as irmãs Telma e Regina. As duas brigavam muito, ambas eram professoras de inglês e não se suportavam, qualquer tom mais alto era motivo para gritaria. Apesar disso, nunca sabíamos sobre quais motivos mantinham aquela relação tão estafante, discutiam em inglês: ”Go to hell!” “Stupid!” Chegava a ser engraçado, mas os motivos dos insultos jamais saberemos. Tarde da noite, eu estava ainda acordado depois do trauma da manhã, meus pais dormiam no quarto ao lado. Eu permaneci entretido vendo os móveis que saiam do caminhão e reparando naquela menina que ficava de canto com uma barbie loura nas mãos. Eram móveis simples, tudo de comum de qualquer casa: sofá, fogão, geladeira, cadeira de balanço, beliche. Sempre quis ter um beliche e dormir na cama de cima, mas seria inapropriado tê-la em casa de filho único. Tiravam também sacos com panelas, muitas panelas, e a mulher que ajudava também a carregar tudo dizia em tom alto: “Diana, venha aqui ajudar”.

O nome era Diana. Fiquei entretido por um longo tempo com todo aquele processo, imaginava como seria viver também uma mudança, desde que tinha nascido nunca mudei de casa. Quando o caminhão se foi, e a luz em frente se apagou, enfim voltei pra cama e tive sonhos loucos, uma mistura de Hércules, Diana e panelas.

No dia seguinte, meus pais comentaram algo sobre os novos vizinhos, diziam que pareciam ser bem discretos e retraídos, de pouca conversa. Eu encarava os novos moradores como possibilidades; possibilidades estas de fazer novos amigos. Sempre gostei de gente e da minha cabeça não saia a figura de Diana. Fui pra escola e magicamente ela estava lá também, na minha escola, na minha sala. De um dia pro outro invadiu a minha rua, a minha escola, a minha vida. Ela manteve-se quieta durante todas as horas que estivemos lá, nem na hora das brincadeiras ela mostrava qualquer interesse. No recreio, limitou-se a ficar entretida com os morangos que carregava. Morangos grandes, bonitos. Fiquei com vontade de comê-los.

No caminho de volta pra casa eu a acompanhei de propósito, cheguei perto e soltei um oi. Ela olhou-me e respondeu com um olhar indiferente. Fui insistente e armei uma estratégia. Disse-lhe:

- Meu nome é Bruno. E eu tenho o dom de sempre acertar três coisas sobre as pessoas que podem ser minhas amigas. Ela permaneceu calada, mas me ouvia atenta. Continuei:

- Bem, seu nome é Diana, você não gosta de mudanças e adora Barbie loura.

Ela sorriu timidamente, permaneceu calada e fomos juntos até nossas casas.

Com os dias, tentei me aproximar mais dela, porém, era sempre muito difícil. Os pais de Diana pareciam não gostar da nossa aproximação, mas aos poucos as barreiras entre nós foram diminuindo e até passamos a conversar. Certo dia, ouvi uma briga entre ela e a mãe, dona Fátima. Dizia para Diana comportar-se, pois já haviam se mudado bastante pelo que ela aprontava. Como assim? Fiquei curioso. Mas afinal, o que uma garota de doze anos podia aprontar de tão grave? Brincávamos de bola, corda, videogame, amarelinha, o mestre mandou e também adorávamos andar de bicicleta pelo bairro. Isso me ajudou muito com o trauma de Hércules. Os moradores da nossa rua já brincavam dizendo que não nos desgrudávamos, que era bonitinho de ver. A cidade era pequena e ainda razoavelmente segura de se viver livremente.

Um dia, levei-a para a casa de meu tio André. Entramos lá, bebemos suco de laranja com bolo de chocolate. Quando fomos nos despedir de meu tio na varanda Diana ficou paralisada com o que viu: Era o Zé, o canário do meu tio. Todos na casa repararam em seu deslumbramento para com o passarinho, meu tio inclusive pegou a gaiola e a aproximou de Diana para que ela o visse de mais perto. Ela colocava o dedo indicador próximo ao pássaro e ficava extasiada, deslumbrada. Isso durou uns cinco minutos, depois disso, ela resolveu ir pra casa.. Eu a acompanhei confuso, ela seguia o caminho montada na bicicleta olhando para todas as casas pelas quais passamos.

A partir desse dia, minha então já amiga de todas as horas ficou mais distante, mais trancada em sua casa do que o costume. A mãe poucas vezes a deixava sair e até meus pais olhavam para essa atitude com desconfiança. Afinal, será que achavam o filho deles indigno de andar com a filha dela? Passou-se então a uma rixa crescente entre minha família e os vizinhos da casa em frente. Agora, meus pais que proibiam que eu andasse com Diana. Nossas conversas na escola eram raras e espaçadas, e da possível amiga próxima surgiu uma esporádica conhecida. Meu coração sensível de moleque carinhoso via tais acontecimentos com tristeza e dramaticidade. Não era orgulhoso, pelo contrário, ainda com toda a torcida contra, insistia em procurá-la, em tecer-lhe elogios, em insistir sempre pela reaproximação, mas parecia inútil.

Os dias iam passando até chegar o momento em que minha melancolia pelo distanciamento de Diana foi se transformando em curiosidade pelo mistério que habitava aquele ser. Em meados de agosto, num frio inverno que tomou conta da cidade, deparei-me com uma cena instigante. Por costume, acordei cedo numa manhã de sábado, fria e com uma chuvinha insistente. Fui até a janela novamente e a vi saindo de casa em passos comedidos, o que dava a entender que saia àquela hora sem que mais ninguém soubesse. Vestia um casaco vermelho com capuz e assim que chegou à rua, andou mais apressadamente em direção ao mistério. Fiquei curioso, sair na chuva, no frio, naquele horário... Tive vontade de segui-la, mas minha responsabilidade de menino obediente não me permitia ousar. Voltei pra cama, quentinha e perfeita. Dormi novamente e quando acordei fiquei na dúvida se o que eu vira foi real ou apenas um sonho. No dia seguinte, como um relógio com alarme, acordei na mesma hora do dia anterior. Fui novamente até a janela para espiar Diana. Esperei, esperei... E quando já estava para desistir a vi novamente saindo como uma fugitiva com aquele casaco vermelho. Era um mistério, que mais cedo ou mais tarde eu haveria de descobrir.

Com o tempo, fui percebendo que isso apenas ocorria nos finais de semana, era um segredo que eu guardava. Não contei a meus pais e nem ousei perguntar a ela o que fazia naquelas manhãs, sozinha e até nos dias chuvosos. Um dia talvez, a seguisse e descobrisse tudo, talvez um dia.

Mas, a verdade é que sempre uma ação, por mais misteriosa que seja, acaba sempre causando uma reação. Um dia, quando chegava da escola encontrei meu tio André na nossa sala, conversando com meus pais, mas diferente do habitual, ele não estava animado e cheio de sorrisos, estava nervoso, preocupado, triste.... O que havia acontecido? - Olhe Bruno, você lembra-se do canário do seu tio? Disse minha mãe.

- O Zé? O que tem?

-Ele desapareceu, acordei ontem de manhã e não ouvi suas cantorias. Quando fui ver, ele não estava mais lá. Falou meu tio indignado.

- E sabe o que mais me deixa confuso? A gaiola estava fechada, sem nenhum buraco. O que me leva a crer que alguém o roubou durante a noite...

Fiquei perplexo. Roubo de pássaros? Em que mundo estávamos? Minha sensibilidade infantil encarava tudo aquilo como um acontecimento aterrorizante. O Zé, tão lindinho e pequenino, como não deveria estar triste por ter saído de perto de meu tio André? Refletia que a cada dia era mais traumatizante ter um bichinho em casa... Seria caso de polícia? O fato é que o acontecimento acabou se espalhando pelo bairro. E não só meu tio como várias outras pessoas acordaram numa certa manhã e não encontraram mais seus passarinhos de estimação. Todos comentavam. Haveria um contrabandista de pássaros no meio de nós? Meu tio era a vítima mais revoltada e também a mais determinada em encontrar os culpados. Enquanto isso, outro mistério ainda me atormentava, as saídas de Diana. Não conseguia entender todo aquele meu interesse por aquela garota que agora me esnobava. Nem sequer falava mais comigo, e o encantamento aos poucos foi cedendo lugar para um orgulho chorado de menino. Iria descobrir o que ela fazia. Não foi preciso ir longe, as respostas vieram até mim, pelo meu de sempre tio André:

-Há uma suspeita meio absurda de quem pode estar roubando nossos pássaros. Meus vizinhos insistem em dizer que já viram uma criança, menino ou menina talvez, rondando pelo bairro antes de o sol nascer. O danadinho anda encapuzado com um casaco vermelho e não sei com que artimanhas consegue roubar os pássaros.

Fiquei vermelho, paralisado. Minha ex-amiga Diana, a vizinha da frente, era uma ladra de pássaros. Tomei coragem e fui tirar satisfações diretamente com ela. Na verdade, minha indignação estava confusa, talvez pelo crime, talvez apenas por não ter sido o seu confidente de tão ousada artimanha. Na escola, durante o recreio, aproximei-me dela como um namorado traído e soltei:

- Você que está roubando os pássaros de nossos vizinhos não é?

E para minha surpresa e melancolia, em vez de me encher de explicações nervosas, defendeu-se bravamente:

- E o que você tem com isso?

Fiquei mais perplexo ainda. Como assim:

- Por que você faz isso? Meu tio está muito bravo e eu vou contar tudo pra ele.

Olhou-me firmemente como um réu inocente olharia para seus jurados de sentença e mais uma vez deixou-me no chão:

- Não achava que você fosse como os outros. Os pássaros não merecem viver presos, nasceram pra voar. Por acaso alguém perguntou a eles se queriam ficar dias e noites em uma gaiola? E você? Gostaria de viver em uma gaiola? Estúpido!

Fiquei paralisado, sem reação. Aquelas palavras doeram-me como um tapa no rosto. Menino meigo e perdido, pensei que choraria ali mesmo, mas fui mais forte. Ela deixou-me sozinho com minhas vergonhas e pensamentos. De repente o que ela fazia não era mais crime, e sim heroísmo? E eu então? O que era naquela história? Sai da escola, andei de cabeça baixa, ferido como um filho mais velho que é deixado de lado depois que o um irmão mais novo chega em casa. Agora, pensava, nunca mais serei amigo de Diana, ela nunca que gostou de mim. E por mais que tentasse tinha mais e mais admiração, paixão por aquela figura magrela de cabelos cacheados. Meus pais perceberam meu abatimento e melancolia, inventei que era dor de cabeça e por isso pude dormir durante a tarde.

No dia seguinte a minha briga com Diana, um sábado ensolarado, acordei com uma linda surpresa de quatro patas: meus pais cumpriram com o prometido e deram-me um novo cachorrinho, pensei em chamar de Hércules Júnior, mas ponderei de que nenhum cão da face da terra poderia substituir meu amigo Hércules. Por um momento até pensei que ter outro cão seria uma espécie de traição para com Hércules, colocar outro cachorro no lugar dele? Mas meus pais souberam me convencer de que cada cachorro é um cachorro, assim como os filhos. Acabei aceitando sem traumas. Era o novo Zeca da família. Nessa agitação acabei esquecendo Diana por uns segundos, só uns mesmo. No meio do café da manhã, começamos a ouvir um burburinho na rua. Fomos até a varanda da casa e vimos umas vinte pessoas na frente da casa de Diana, inclusive meu tio André. O que estava acontecendo? Certamente descobriram tudo:

- Está vendo, é aqui que mora o ladrãozinho de pássaros, quero ver o que vão fazer para compensar nossos prejuízos. Dona Fátima tentava se explicar a todo custo, apelava para piedade dos vizinhos, dizendo que era uma criança, que não fazia por mal. Diana ficava do lado de dentro da casa, vendo tudo da janela da sala. Mas suas explicações não eram o suficiente. Os vizinhos queriam seus pássaros de volta. Achavam que estavam presos dentro da casa. Fátima explicava:

- Eu já disse, a menina os solta, tem essa mania, não aguenta ver um pássaro preso que tem que soltar. Disse que eles não podem ficar presos.

- Pois então, se a senhora não domina sua filha para que ela não solte os pássaros é melhor você prendê-la em casa para evitar transtornos – gritava a Celina, que morava ao lado de meu tio.

- Meu canário custou uma nota, é uma espécie rara. Quero que pelo menos me pague o valor que gastei com ele para comprar outro.

A cada palavra daquelas pessoas, mais eu ficava preocupado com Diana e em meus pensamentos ela nunca foi tão maravilhosa quanto naquela situação conflituosa.

Diante de tantas reclamações e ameaças, dona Fátima viu-se obrigada a pagar os prejuízos em troca de não ser denunciada.

Diana passou a praticamente viver trancada dentro de casa, e aquela garota que tanto lutava pela liberdade das pequenas penas, estava agora provando o amargo sabor da reclusão. Dias e dias passavam sem que eu a visse, até na escola sua presença era esporádica e triste, pois nunca mais falou comigo, possivelmente acreditou que eu a denunciara aos demais. Injustiçado, fiquei mais recluso também ao lado de meu mais novo amigo Zeca. Sua ausência e frieza me doíam até no estômago, sonhava com nossos passeios de bicicleta, com seus cabelos encaracolados... Nunca mais os teria.

O roubo dos pássaros, ou melhor, a libertação deles, foi o assunto mais comentado entre a vizinhança por um bom tempo, mas acabou um dia, como todos os outros assuntos. Mesmo assim, Diana e sua família passaram a sofrer com a indiferença das demais pessoas da região. Tão absurdo, tão estúpido tudo aquilo...

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Queria estar perto, mas realmente Diana transparecia que eu era o culpado de tudo. Até que a grande novidade começou a ser divulgada, junto com outra tão ou mais assustadora. Diana e sua família iriam se mudar, e minha mãe descobrira que estava grávida. Só faltava isso. Ambas as notícias não me agradaram nem um pouco, e como a de Diana era mais urgente, fiquei atormentado com a ideia de ela partir achando que eu a denunciara. Tinha que provar minha inocência antes que fosse tarde. Mas como? Entrei a confabular com meus pensamentos de menino o que poderia fazer para que ela acreditasse em mim. A ideia brilhante chegou numa bela tarde de domingo ensolarado de primavera. Do quintal de minha casa avistei um lindo beija-flor rondando o maracujazeiro de minha mãe... Era isso, iria fazer-me herói assim como Diana, soltar um pássaro e levar até ela para que ela percebesse que eu a apoiava por completo. Uma semana inteira baseada na arte de rondar a vizinhança procurando um pássaro engaiolado e que estivesse em condições fáceis de eu, inexperiente, conseguir roubar.

Depois de todo o projeto feito, escrito e desenhado, decidi que libertaria o pintassilgo do senhor Afonso, que era dono de uma pequena mercearia. Boa gente até não poder mais, sempre me presenteava com balas quando minha mãe fazia compras por lá. O pintassilgo, amarelinho e simpático, ficava na varanda da frente que era baixinha e aberta, o que facilitava minha empreitada. Qualquer coisa subia nas cadeiras que ficavam por lá e fazia a grande obra.

Foi num sábado, as quatro e meia da manhã que eu fui em busca da minha prova de amizade e lealdade. Planejei tudo com antecedência, sai pela janela da sala, já tinha deixado o portão aberto desde a noite passada. Também fui encapuzado, e por meu desleixo, o casaco que vestia também era vermelho. As ruas estavam desertas e frias, corria com o coração aos pulos. Estava nervoso, com medo. Cheguei até a casa do senhor Afonso. Pulei a mureta da frente, cheguei até a varanda. O pintassilgo já estava acordado, olhava-me com espanto, mexia-se de um lado para o outro da gaiola, pequena demais para sua liberdade. Peguei uma cadeira, com cuidado, subi. Era a hora mais esperada. Abri a gaiola e tentei a todo custo pegá-lo, mas para o meu desespero, o pintassilgo foi ágio o suficiente para escapar de minhas mãos e voar até sumir das minhas vistas. Fiquei desesperado, minha prova estava voando:

- Volte aqui! Êpa, eu falei isso em voz alta? Sai correndo sem olhar pra trás, meu plano foi um fracasso. Corria pelas ruas, já mais claras, pois o sol já apontava no horizonte. Seria impossível Diana acreditar em minha artimanha. Quase chorei... Quase. Cheguei em casa e voltei a dormir, angustiado até não poder mais.

Porém, o que nunca pude imaginar aconteceu. Meu plano saiu pelo avesso. Mais uma vez a casa de Diana foi atacada pelos moradores. Agora insultavam de todos os nomes aquela família de ladrões de pássaros. E o senhor Afonso, tão boa alma em minha percepção, foi o líder daquela manifestação grotesca. Meus pais assistiam a tudo aquilo ressentidos: - Mas como, outra vez? Já passaram dos limites.

Fiquei atônito. O que fazer? Todo aquele rebuliço foi por conta do pintassilgo que eu soltei. Como Diana tinha a fama, óbvio que todos acharam que a menina voltou a aprontar:

- Eu vi a menina, com o casaquinho vermelho, correndo hoje de manhã pela minha rua, gritava uma.

- Mas eu já disse que ela não fez nada – Argumentava Fátima. Foi em vão. Eu entrava e saia de casa como o pior dos criminosos. Tinha que fazer alguma coisa, libertá-la. O que fui fazer? Pedia aos meus pais:

- Posso ir lá? Preciso falar com Diana. Não é justo.

- Não senhor! Fique aqui e não se meta com essa gente. Está proibido! Gritava minha mãe, grávida. Fiquei paralisado, covardemente não assumi a minha, tão minha culpa.

Depois da discussão acalorada, os vizinhos se foram, e para minha mais completa angústia, naquela mesma noite, acordei sobressaltado com o barulho do caminhão de mudança que parava na porta de Diana.

Uma chuvinha fina, bem fina caía. Não impedia que fizessem os trabalhos de arrumar os móveis lá naquele baú. Fiquei acompanhando tudo de minha janela, mais uma vez. Diana também ajudava a carregar as coisas, parecia a mais interessada em sair dali. Será que devia ir lá me despedir? Devia? Talvez, mas não fui, envergonhado e moído por dentro de vergonha de minha covardia. Quase chorei novamente... Quase. Seria a última vez que a veria? Por um instante, magicamente, ela lançou seu olhar para a nossa casa, para a minha janela. Nossos olhares se tocaram de longe, um longo e eterno olhar de alguns instantes. Foi sim a última vez que via a menina que soltava pássaros, magrela e de cabelos encaracolados. Sem dúvida, a melhor vizinha que passou pela casa da frente.

Entrou no caminhão e sumiu. Dessa vez, chorei mesmo. Fui dormir com dor no peito e meu inconsciente desparafusado fez-me sonhar com uma Diana lilás, que era carregada pelos ares por milhares e milhares de passarinhos, até sumir na linha do horizonte.

- Nossa Bruno, que história! Você nunca mais a viu mesmo?

- Não, minha querida. Mas certo dia, sentado numa praça, lendo meu jornalzinho, quieto no meu canto, deparei-me com uma notícia interessante.

- Sobre Diana?

- Tenho certeza que sim, apesar de não citarem nomes. Dizia: A amiga dos pássaros, em Santo Antônio de Pádua.

- O que dizia? Ela ainda rouba pássaros?

- Então...Interessei-me pelo título da notícia. Trouxe-me todas as lembranças daquela época. Falavam que lá, uma mulher, de seus trinta anos, doente, recebia diariamente a visita inusitada de vários pássaros, de todos os tipos e cores. Como era uma mulher solitária, sua única companhia eram os benditos pássaros.

- Será realmente que era a tua Diana?

- Diziam que havia um que era o mais especial. Que aparecia com mais frequência. Era o que mais ela gostava, ficava do seu lado todo o tempo possível.Ela dizia que a fazia lembrar de um amigo especial da infância...

- Nossa... Qual era?

- Um pintassilgo.


Maíra Estela

Professora de Literatura, apaixonada pela arte da palavra, constante admiradora do universo por trás das páginas dos livros. A escrita é uma necessidade, um transbordamento do que já não cabe mais em nós..
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