Hugo Dalmmon

O homem que compreende a sua ignorância, deu o primeiro passo ao conhecimento - Max Heindel

A pele que habito e a perspectiva invertida na identificação com o gênero

Nesse filme, a transexualidade forçada leva a subversão de expectativas, a experiência deu errado, porque somos mais por dentro, do que por fora. A perspectiva foi mudada, ajudando pessoas cisgênero, independente da sexualidade, a compreender como é viver em um corpo que o gênero não condiz.


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Depois de 4 (quatro, QUATRO) anos de lançamento, finalmente, eu vi A Pele que Habito, do Almodóvar. Não foi por desdém, é que eu coloco filmes em listas mentais, mas sofri um acidente de ônibus, bati a cabeça e perdi a lista mental com esse filme. Fui relembrado através de um tweet, em que o cara dizia algo como: "vi A Pele que Habito e tô pensando no filme há dois dias". Aí, joguei no Google e li alguém usando o termo "terror psicológico" e fui ver. Sério! Adivinha só. Isso mesmo! Gostei, embora, os fãs do diretor tenham criticado negativamente.

O que importa aqui é o seguinte: Não é um terror psicológico no estilo O Cão Andaluz, daqueles que você fica com a respiração ofegante e começa a questionar o motivo de, ainda, permanecer olhando pra tela, já que ela te causa essa sensação indescritível de horror. A Pele que Habito, principalmente, pra quem integra uma das siglas LGBT, ou pra pessoas com pensamento mais livre, não é tão apavorante. O tema é a transexualidade, a identidade de gênero e o abuso e a opressão que essas pessoas sofrem. - Vamos parar um minuto aqui: Você-que-viu-o-filme deve pensar: Mas como assim? Aquilo não foi consensual... - E você-que-viu-o-filme tem razão em pensar assim. Mas, até que ponto? Levando-se em consideração o leque de possibilidades de suicídio que Vera tinha. Levando-se em consideração a vontade de ir embora daquela cidade, ou seja, a vontade de viver outra vida, que Vincente tinha. Junto a isso, levando-se em consideração os vários signos, como um vestido ou uma lâmina na barba, por exemplo, os quais surgem durante o filme levantando questões implícitas. Enfim, levando tudo isso em consideração, temos o direito ao benefício da dúvida, ou seja, nos questionar a respeito da mente de Vera e suas vontades. Embora, na minha interpretação, essa é uma reflexão implícita no filme, ainda não é o ponto que me fez gostar. Mas, de qualquer forma essa reflexão já faz parte do tal terror psicológico que alguém mencionou.

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Acontece, que as pessoas que não conseguem conceber com naturalidade a ideia da transexualidade, se forem mais atentas, ou de fato mais críticas durante o filme, poderão se questionar e entender o que ocorre com pessoas trans. Afinal, pra mim, a grande chave do filme foi a perspectiva adotada. Isso mesmo! Dessa vez, Vicente era um homem cis obrigado a viver num corpo de uma mulher trans. Boa essa, né? Isso faz com que as pessoas mais atentas descontruam os preconceitos em torno da transexualidade/identidade de gênero. É nesse universo micro-social, cirado por Almodóvar/Jonquet, que podemos sentir e enxergar o que ocorre todos os dias no universo macro-social, pessoas sendo obrigadas a viverem de uma maneira que não as deixa confortáveis. Ou seja, em nossa sociedade, passando por nós pelas ruas, temos mulheres obrigadas a se comportarem como homens, homens como mulheres, outros sendo obrigados a uma escolha binária, quando na verdade não pretendem escolher.

Logo, pra mim, aí está o terror psicológico! Ele vem horas depois do fim do filme. Quando a obra ainda está em processo de reflexão e você consegue perceber o horror que praticamos e sofremos constantemente: Ao imaginarmos, de forma bem sucinta, pessoas que passam por cirurgias e modificam o seu corpo e, que no entanto, não era aquilo que ela realmente queria ser, apenas se viu obrigada socialmente por uma escolha binária. Ou, ainda, pessoas que vivem a vida inteira desconfortáveis, por terem a impressão de não serem reais, por serem, tal como Vicente no corpo de Vera. Mesmo que Vicente de algum modo sentisse não pertencer ao seu gênero, o que garante a sua vontade de querer fazer parte integral do outro gênero? Aqui, o que quero dizer é que o terror psicológico, pra mim, está nessa comparação com a sociedade. Está quando pensamos nas milhares de pessoas, no mundo, sendo obrigadas a se manterem de uma maneira que não desejam. É o reflexo do macro, nesse universo micro, que causa o terror e nos faz refletir fluidamente, assim como o cara do tweet, por dois dias, ou mais.


Hugo Dalmmon

O homem que compreende a sua ignorância, deu o primeiro passo ao conhecimento - Max Heindel.
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