Hugo Dalmon

de 88. Formado em Letras em 2011. Autor do livro Babilônia Encantada (2012) e do livro Quero me lembrar de você, Amy Winehouse (2014). Ainda, assina para o site Gay Nerd Brasil.

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Fragmentado (Split)

A relação de amor e ódio com o M. Night Shyamalan sempre existirá, pra mim.


É óbvio que as obras dele são sempre experiências incríveis. Acho que os maiores legados são Corpo Fechado, A Vila e, como não poderia deixar de ser, O Sexto Setindo. Também teve a série Wayward Pines, que em questões de produção e arte é maravilhosa.

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O problema pode começar a ser apresentado com O Último Mestre do Ar, que foi um fiasco, teve criticas negativas de fãs e… do resto do mundo. Além de ser infiel a obra e ter tirado a magia da Lenda de Aang, o cara conseguiu ser ~um pouco racista~. Assim como ele demonstrou o racismo velado em Wayward Pines. Digamos que ele é o Monteiro Lobato do áudio-visual: Produz coisas ótimas, mas cheias de reproduções de preconceito, beirando ao proposital mesmo!

Seu lançamento em 2017 é o filme Fragmentado. E de novo vem a relação de amor e ódio. Pois, James McAvoy, pra mim, já merece o Oscar de melhor ator. Foi uma das atuações mais absurdas de exuberantes que já vi, no cinema, nos últimos anos. Acontece, que a personagem Kevin, interpretada por James, sofre de TDI, logo, é um show de atuação em que ele se modifica em frente as câmeras trabalhando muito bem a linguagem corporal, as expressões faciais e a entonação de sua voz. Pra mim, foi mágico!

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O filme é um thriller muito bem trabalho, mexe com o nosso humor, mexe com a nossa mente. O roteiro é inesperado em certo aspecto. As tramas em torno da trama principal tem um desenvolvimento bom, que nos faz criar intimidade com as personagens coadjuvantes. E o filme é selado, ao fim, com algo surpreendente e, para alguns, confuso. Foi uma cartada de mestre a Shyamalan.

A história é a de um homem, Kevin, que sofre de TDI (Transtorno de Identidade) e tem 23 personalidades que vão à luz. Personalidades tão diferentes, que uma delas apresenta quadro de diabetes e se medica com insulina. Ou seja, o corpo de Kevin e todo o seu complexo sistema, assim como os de outras pessoas com TDI, se modifica a depender da personalidade que vai à luz. Então começa a história do filme: inicialmente, uma das personalidades, Denis, sequestra 3 adolescentes, para colocar um plano insano, junto à outra personalidade, Patrice, em andamento. É quando a trama, então, começa o seu misterioso desenvolvimento.

“Se você gostou tanto do filme, tá reclamando de quê?” Eu sei que você pensou. Até eu pensei nisso. Mas, retomando o primeiro parágrafo desse texto, eu esclareço a relação de amor e ódio. E acho que nos parágrafos seguintes legitimo essa relação.

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Acontece, que Shyamalan não teve sensibilidade para tratar o TDI. No mundo, existem pessoas com TDI e tantos outros transtornos mentais. Pessoas que vivem da melhor maneira que conseguem ao buscarem a qualidade de vida em terapias e tratamentos psiquiátricas. Mas que jamais seriam violentas. A maior parte da população mundial, provavelmente, nunca se interessou em entender o TDI, ou desacredita nesse e em outros transtornos. E essa mesma grande parcela agrupa todos as pessoas que sofrem de transtornos como perigosas. Assim, o que me chateou, no filme, foi a falta de tato em não esclarecer que pessoas com TDI não serão sempre violentas.

Sendo didático: os gays foram tachados por muito tempo e, algumas pessoas, ainda colocam esse rótulo nas pessoas gays, como promíscuos, mas sabemos que existem gays que passam meses, ou até anos sem transar. Sabemos que existem gays que vivem relações monogâmicas etc. e sabemos que existem heteros promíscuos, também. Ou seja, é só uma alusão para gente perceber que pessoas perigosas podem sofrer de transtornos ou não! Existe gente má mesmo.

Desde O Médio e o Monstro, nos deparamos com uma tempestade de clássicos renomados que vilanizam pessoas que sofrem de TDI: Psicose, Clube da Luta, A Janela Secreta. Filmes bons! Aliás, filmes ótimos e que tenho como meus preferidos. Mas, não estamos mais no século XX. Hora de deixar costumes da Era de Peixes e começar a pensar no século XXI, essa é a Era de Aquarius. E já sabemos o poder de influência do audio-visual, principalmente, dos filmes hollywoodianos, sobre toda a humanidade atual. Se sabemos disso, aqui. Imagina o Shyamalan, lá, onde vive desse audio-visual e sabe cada segredo de como usá-lo da melhor forma! Poderia ser violento, manter a ideia de thriller e, ao mesmo tempo, esclarecer o transtorno com mais sensibilidade. Por isso a parte do ódio na minha relação com ele.

Por mais bem informado que a gente seja e consiga entender que Fragmentado é arte, devemos entender, também, que maior parte não está informada ao ponto de ter essa criticidade. E cinema hollywoodiano atinge a massa. Logo, o filme fomentará o preconceito com pessoas que sofrem dos mais diversos transtornos.

Já não é incomum ouvir pessoas dizendo que tem medo de louco!


Hugo Dalmon

de 88. Formado em Letras em 2011. Autor do livro Babilônia Encantada (2012) e do livro Quero me lembrar de você, Amy Winehouse (2014). Ainda, assina para o site Gay Nerd Brasil. Saiba mais: @hugodalmon pra tudo..
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