Hugo Dalmmon

O homem que compreende a sua ignorância, deu o primeiro passo ao conhecimento - Max Heindel

Contra Cultura

A "coincidência" dos trabalhos contendo temática LGBT não atingirem leitura significativa, enquanto os trabalho abordando heterossexuais/cis-gêneros, ganham apoio publicitário sem esforço.


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Sou um autor de livros pouco conhecidos. Classe média, no sentido mais essencial do termo. Não fui pobre o suficiente pra aprender algo de sumo valor com a minha vivência. Também, não fui rico o suficiente pra ter a oportunidade de aprender à enxergar o mundo ao meu redor com mais criticidade.

Fui uma criança suburbana, de uma cidade do interior do Rio de Janeiro, num bairro tradicional, frequentando escolas em que eu não tinha qualquer contato com a pobreza, ou melhor dizendo, com a miséria. Quanto a diversidade racial, devo dizer sem demagogia que nunca enxerguei diferenças até o quinto ano, então, não posso dizer com exatidão como era essa diversidade. Mas, com certeza, não era mencionada em prol da educação e evolução da minha geração.

O que importa nesse texto é que eu era diferente das outras crianças. Não me encaixava no grupo dos meninos e me entediava no grupo das meninas. Eu era gordo, afeminado e excêntrico! Fui sendo podado pelos colegas de colégio, pelos pais e irmãos em casa (que tinham vergonha de mim) e pelas professoras. E agradeço a cada um deles por isso. A opressão deixou várias marcas: Falta de confiança nas pessoas, dificuldade para criar amizades, constrangimento com meu próprio corpo, evitando dançar, fazer movimentos extravagantes e me vestir de fato como desejava. Entretanto, a opressão me levou ao conhecimento. Sem que eles soubessem, ao me aprisionarem, inversamente, me libertavam!

Comecei a me interessa por ler, pois assim, eu fugia da minha realidade e me sentia anestesiado. Lia sem parar! O que começou a exercitar a minha imaginação. E então, passei a desenhar e colorir e criar minhas próprias histórias em Fanzines cem porcento manuais.

Os anos se passaram, e ao passo que eu ficava cada vez mais introspectivo, mais eu lia. Lia sem buscar quem era quem, lia em busca de conhecimento e diversão. Lia biografias famosas, lia autores que nem eram indicados pra minha idade... O me trouxe tudo aquilo que não aprendi com vivência: visão crítica e conhecimento de mundo!

Foi então que aconteceu, o garoto que deixara de ser afeminado por suprimir seus movimentos em detrimento à vontade dos outros, passou a enxergar o mundo ao redor. Passou a perceber a diversidade. Passou a se interessar por esse misterioso planeta inóspito...

Escrevi o primeiro livro em 2010, Babilônia Encantada, abordando temas poucos explorados ainda, até mesmo pela comunidade LGBT, como o poliamor e transgeneralidade. Embora, tenha chegado à 500 cópias, muitos leram em formato digital, o livro não teve força. Alguns chamaram de anarquia pura. Pouco foi mencionado...

Chegou 2014, decidi escrever uma novela mais água com açúcar, mais fofa. E queria aproveitar para homenagear, postumamente, Amy Winehouse. A história de amor de um casal hetero. Não sei ao certo quantos exemplares foram vendidos, mas foi o livro que mais deu resultado. Registrado no Google Books, indicado por uma das principais sósias da Amy, no Brasil. Vendido em livrarias de renome e até em bancas de hipermercados. Até hoje, facilmente encontrado numa rápida pesquisa Google. Pois a editora deu um bom apoio publicitário pra esse título.

Em 2016, lancei o conto A Abnegada pela Kindle Publish, na Amazon. Está entre os 100 mais vendidos com o tema viagem no tempo. Conta a história de uma garota heterossexual e sua busca pelo seu grande amor.

Chegou 2017, lancei o meu livro mais atual Fábula de viagem no tempo: por Amélia, a gata. Resumidamente, conta a história de uma pessoa trans em busca da sua identidade. Evidentemente, por eu não ser uma pessoa trans, tratei o tema de uma maneira mais lúdica e pouco técnica, pois a intenção era fazer as pessoas compreenderem que o estado de SER do ser humano está na Alma e não no Espírito. Ou seja, é a história de uma gata e seu humano, que viajam pelo tempo através da consciência, indo para corpos de pessoas LGBT, inclusive. E o livro, não teve o retorno que eu esperava. Mesmo pessoas mais próximas não deram feedback.

Toda essa ladainha é só pra eu mesmo pensar o meu lugar no mundo. Coincidentemente, os meus trabalhos que me renderam mais leitores e mais sucesso, não abordam LGBT, não representam quem eu sou.

Numa rápida pesquisa sobre obras LGBTs nos deparamos, em grande maioria, com textos eróticos. Ou com textos que evidenciam o lugar do LGBT na sociedade, que é lutando por aceitação e respeito! Ainda, autores gays renomados, como Caio Fernando de Abreu, não abordaram, ou pouco abordaram a homossexualidade em suas obras.

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E uma dúvida dolorida me cresce e se torna um nó na garganta, é que fico pensando que talvez LGBTs estejam lutando por segurança financeira, por segurança emocional, estejam lutam por necessidades básicas, trabalhando em longas jornadas ou estudando por períodos exaustivos, porque precisavam provar em dobro o seu lugar no mundo. Com isso ficam sem tempo de ler recreativamente. Somos silenciados de maneiras tão sistemáticas, que não nos damos conta.


Hugo Dalmmon

O homem que compreende a sua ignorância, deu o primeiro passo ao conhecimento - Max Heindel.
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