Victória Mendes

A face da carência

O comportamento digital é mais revelador do que imaginamos. Tem sido alvo de estudo em universidades do mundo inteiro, e artigos têm pinceladas do que foi observado em determinados padrões desenvolvidos em uma amostra de pessoas nas redes sociais. Através de fotos, pode-se dizer (sem proferir uma palavra), o que mais falta na vida de alguém.


Ao ler um estudo realizado pela pesquisadora holandesa Christyntje Van Galagher, da Universidade de Wageningen, fiquei perplexa. Chamado “fotografando a carência e a solidão”, o artigo interpreta as selfies como uma fuga digital da realidade concreta marcada pela insegurança e o medo do abandono. Embora enfatize o lado sexual,ao procurarmos estudos na mesma área, são vários os estudiosos apontando carências e afetos não supridos em várias áreas da vida, levando as pessoas a buscarem aprovação nas redes sociais. Para Christyntje, os viciados em selfies avaliam seu nível de bem-estar baseados nos likes que recebem em suas fotos. Usam filtros para mascarar imperfeições e venderem aos fãs uma vida que não têm.

Pawel-Kuczynski-facebook-4.jpg (Pawel Kuczynski, 2014)

Apesar de Christyntje ter um olhar clínico, ela apenas compilou cenas que presenciamos todos os dias. Pessoas correndo atrás de seus interesses sem se importar (ou às vezes notar) que estão pisando no seu próximo, egocentrismo, exposição, falta de amor próprio. Se formos avaliar o conteúdo que recebemos diariamente em nossa linha do tempo, perceberemos que pelo menos metade são fotos pessoais, muitas vezes com trechos (desconexos) de música ou frases motivacionais. E nos perguntamos o porquê. A resposta não está nesse estudo, nem no que vamos, mas no que leva a sociedade a agir dessa maneira, e é intrínseca à necessidade de aprovação. Olhamos no espelho e, não vendo nada que nos agrade, colocamos uma farmácia inteira em nosso rosto, roupas que talvez consigam realçar nosso ponto forte (o qual não sabemos qual é, porque não paramos mais para nos analisarmos). Tiramos uma fotografia. Postamos em alguma rede social. Nos desconectamos e vamos tentar distrair a cabeça, mas cinco minutos depois já estamos online de novo para ver quantas curtidas aquela foto já conseguiu. Se parássemos para refletir em quanta beleza há na nossa imperfeição, quão espontâneos conseguimos ser com as nossas falhas, não precisaríamos de tanta exposição. E se também usássemos a criatividade intuitiva a cada dia, não necessitaríamos colocar um nome específico numa modalidade de fotos que já é praticada mesmo antes de nascermos. Basta parar e enxergar que você se basta. Ame-se e veja quão boa pode ser sua companhia. Caso contrário, não poderá provar isso a mais ninguém.

susanna-majuri-underwater-photography-emotions-feelings-mysteries-04.jpg (Susanna Majuri, Underwater, 2009)


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