Victória Mendes

A crise dos 20

Em algum momento todos nós vamos passar por um momento de aflição relacionado a não saber o que fazer em todos os âmbitos da nossa vida. Não tentemos ser fortes, isso pode nos fortalecer se soubermos lidar com nossos pesares.


Ela demora, mas não tarda em bater às nossas portas. Parece inofensiva, mas vai nos fazer repensar cada respirar passado de nossas vidas. As crises não precisam acontecer de dez em dez anos somente, mas a cada grande troca de fase, a percebemos com maior força. Quando temos 16, 17, 18, 19 anos, agimos e pensamos de um jeito: a vida é excitante, temos muito o que conhecer, pessoas com quem compartilhar nossas vidas, amigos sempre presentes e muita esperança de conseguir alcançar tudo o que é esperado. No fim dos 19 e a partir dos 20, uma densa bruma passa por esses pensamentos felizes e confunde nossas cabeças. A vida passa a ser um emaranhado de nós difíceis de desatar, parece que já sabemos demais da vida, que ninguém está disponível quando precisamos e todos que amamos ou estão ocupados ou os laços já não são os mesmos, além de não ter mais esperança de alcançar coisa alguma. A vida se resume num eterno pagar de compras e ir ao mercado para não morrer de fome. Quanto mais tentamos nadar, pior fica a profundidade da água.

Mas sempre há um resquício de esperança. Bem lá dentro. Que às vezes dá as caras e tenta te resgatar. Só que não dura muito.

Você, à noite, se anima e diz que vai colocar tudo em dia. Limpar sua casa. Colocar papéis velhos fora Abraçar mais quem ama. Fazer o que gosta. E nesse frenesi, acaba dormindo embalado por boas vibrações e uma sensação de dever cumprido mesmo sem ter feito nada. Mas quando acorda pela manhã, seu peso se triplica e fica difícil sair da cama. Tudo é ruim, tudo é custoso. Não tem vontade nem de pentear os cabelos, quem dirá para varrer o chão e colocar suas pendências em dia? E isso se repete dia após dia, até chegar num ponto que não dá mais. Você se desespera e não sabe como se colocar no mundo.

Eu achei que esse dia nunca fosse chegar para mim. Mas chegou. O desespero não está mais sendo suportável.

Só queria que alguém me dissesse que, mesmo não tendo nada considerado importante, como uma casa, um carro ou um diploma, ainda sou alguém. Mesmo não tendo as roupas da moda e o corpo padrão, ainda sou alguém. Que não há problema algum em ser como sou. Que ninguém se importa se eu prefiro calças a vestidos. Que meus filhos um dia olharão minhas fotos e sentirão inspiração na mulher que já fui. Que um dia olharei para trás e acharei graça de cada reclamação que já fiz na vida, incluindo esse desabafo. Mas ao refletir, percebi que EU E VOCÊ precisamos ser esse alguém. Na vida, nem sempre teremos disponível alguém para dizer o que precisamos ouvir. Sejamos essa pessoa. Nossas vidas podem ser mais que pagar boletos, tomar café e esperar a vida passar.

Elas têm que ser mais que isso.


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