nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Arte e pesadelo como ferramentas de sedução

Como Black Swan desconstrói a perspectiva de violência no cinema a partir de uma invasão psíquica


Assisti Black Swan faz uns seis anos, logo que estreou. Lembro ainda hoje das cenas surreais que vi reproduzidas na tela grande com uma mulher que ganhava penas, tentava matar a mãe simbolicamente, refazia sua imagem com uma sandice de espelhos e, a partir do pior de si, produzia algo sublime.

Não foi à toa que o longa do estadunidense Darren Aranofsky suscitou tantos burburinhos. Isto porque a sensibilidade do diretor está transposta de forma extrema na história de Nina Seers (interpretada por Natalie Portman, ganhadora do Oscar de melhor atriz, do Globo de Ouro e do prêmio do Sindicato dos Atores pelo papel). No filme, a bailarina extremamente disciplinada e perfeccionista é escolhida como a Rainha dos Cisnes, numa nova encenação de O Lago dos Cisnes, do russo Tchaikovsky.

De antemão, qualquer ojeriza relacionada ao balé e à dança clássica é desestruturada com a visão hipnótica e perturbadora desenhada na trama. Aranofsky utiliza uma composição particular ao elucidar a paranoia sofrida pela personagem, que por várias vezes chega ao terror físico, demonstrando uma busca pelo virginal existente em qualquer atividade artística. É como se ele espremesse em cada novo ato o sulco mais duro da capacidade humana, num espetáculo estético do cinema e de desconstrução.

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Adentrando num mergulho profundo da psicose humana, o longa se pauta aparentemente na superação da bailarina para interpretar o posto que lhe foi confiado. Mas o que o diretor de Réquiem para um sonho (2000) promove está muito aquém da perfeição na ponta dos pés. A princesa Odete virginal, o Cisne Branco, já incorpora a psique da protagonista e é facilmente interpretado com técnica e sutileza.

O que lhe tira a alma e enegrece o ambiente fílmico é a Odete nefasta, o Cisne Negro, que exige agressividade, mutilação e despudor – sensações que a dançarina reprime de forma tão oculta a ponto de não se reconhecer quando as tem.

A garota transformada em cisne e renegada por seu príncipe custa a adentrar às entranhas da personagem, exibindo, com maestria por Natalie Portman, um sofrimento repleto de humanidade, medo, carência e quebra da inexistente perfeição almejada.

O grupo de coadjuvantes também contribui para a chegada da dançarina a este mundo negro e intocado. Em determinado momento, o prepotente e incisivo diretor da companhia, interpretado pelo francês Vincent Cassel, deixa claro o maior obstáculo da protagonista: “A única pessoa que está no seu caminho é você mesma”.

A mãe super protetora (Barbara Hershey) também a sufoca e surta ao ver que a redoma de vidro construída não foi suficiente para proteger a filha de um "eu" obscuro e incrustado. A colega e rival Lily (Mila Kunis) contrasta com Nina por exalar sensualidade e desejar seu papel – o que também a desestrutura.

A dicotomia entre bem e mal fica tangível nas cores dos cisnes, que desenham ainda uma nova Nina – que descobre que o inferno não é tão distante quanto imaginava. O estereótipo de cisne branco arraigado à educação e à frigidez da personagem, muito próximo ao aspecto da própria atriz, vai se dissolvendo no embate que é travado com seus próprios demônios.

A todo o momento são os dois lados da moeda que vão nortear as alucinações da bailarina. Os fantasmas são tantos e tão bem alinhados às tragédias vividas pela artista, que a verossimilhança construída em sua mente acaba tomando também o espectador.

A cada instante da trama fica claro que somente levando a personagem ao inferno é que se pode extrair dela o necessário. Black Swan explicita a boa forma de Aranofsky e de sua protagonista, deixando o recado de Drummond de que “Meu ódio é o melhor de mim”; e passando ainda pela máxima nietzschiana na qual a “Tragédia é criadora da forma”.


Dênis Matos

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