nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

De fumantes não-praticantes a praticantes

A trajetória do cigarro: supositório, cachimbo da paz, remédio para curar mordida de tigre e uma indústria que pode atingir 1,5 bilhão de pessoas até 2025


Herdamos dos peruanos o gesto simbólico de inalar a fumaça do tabaco na tentativa de ir queimado as desilusões perdidas, para lembrar a frase de Mario Quintana. Esta imagem do que viria a ser o cigarro e a cena fálica do ato de fumar, que tem seu debute na América do Sul, começou a ser construída há cerca de oito mil anos. Segundo especialistas, é dos peruanos a assinatura dos primeiros cultivos da planta.

Naquela época, as folhas eram fumadas, cheiradas na forma de rapé, mascadas e até usadas como supositório. A principal motivação, no entanto, era mítica: o contato com o fumo remetia a funções espirituais e acreditava-se que fumar era aproximar-se de seres superiores – algo imagético que, presume-se, faz verão até hoje em toda a fumaça queimada em nome do cigarro.

O ato de inalar fumaça pautava até mesmo os conflitos sociais, como as guerras. Conta-se que índios norte-americanos utilizavam o cachimbo antes e depois das pelejas, numa comemoração em que o objeto era tido como sinônimo de paz. Daí o jargão “cachimbo da paz”. Apesar disso, fora das tribos o ato fumar não era unanimidade.

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O tabaco somente soou o alarme coletivo para sua existência ocidental por volta de 1498, quando os espanhóis chegaram ao continente. O formato dessa disseminação, contudo, era contraditório, uma vez que havia uma imagem criminal do ato.

O navegador espanhol Rodrigo de Jerez, primeiro europeu a fumar, foi encarcerado por três anos após consumir tabaco em público no Velho Mundo. Simbolicamente, naquele tempo, a atitude era atrelada à selvageria.

Para os povos latino-americanos, a princípio, o cigarro conotava inalar fumaça, não mais que isso. Com o processo de colonização e exploração, ele começa a ser entendido como algo que afetava o corpo, o que atrai a comunidade médica europeia.

O espectro medicinal fez o fumo chegar à França quando o médico e diplomata Jean Nicot enviou as primeiras sementes a então rainha francófona, Catarina de Médici. Não por menos, a planta foi batizada como nicotiana tabacaum e virou remédio para todo e qualquer tipo de causo, indicado, pasmem, para crianças que comiam muita carne, para pessoas com pedras nos rins e para curar mordidas de tigre.

Mercado

Em 1542, menos de 50 anos após sua chegada ao continente europeu, o fumo fora difundido e se inscrevera como produto de consumo para samurais, tribos africanas e até mesmo comunidades islâmicas – onde o álcool era proibido. O movimento fez com que o tabaco ganhasse status de produto de exportação e preços mínimos para o comércio, principalmente com sua chegada aos Estados Unidos.

Figuras históricas estadunidenses rapidamente flertaram com este profícuo mercado: a família de George Washington, o primeiro presidente daquele país, vivia do comércio da erva; Thomas Jefferson, autor da declaração de independência norte-americana, era um fazendeiro do tabaco.

Logo após a Revolução Industrial, em meados de 1880, o fumo ganharia linhas de protagonista do consumo com a invenção da máquina para produção em larga escala. James Buck Duke, um americano que vendia a erva, comprou dois equipamentos e mudou não só o processo de fabricação, mas também direcionou 20% de seus lucros à propaganda.

O frenesi do cigarro coincidiu com a eclosão do capitalismo e com ondas de oposição ao fumacê; ascensão, sublinhe-se, de forma alguma poliânica.

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Pegadinha do cigarro

O imperador otomano Murad IV proibiu-o e intensificou ele mesmo a fiscalização sob o consumo. A história conta que o próprio soberano se disfarçava de mendigo e saia pelas ruas pedindo fumo – quem dava tabaco a ele, era decapitado.

Mesmo diante dos contrários à causa, o comercio prosperava – numa toada semelhante ao que ocorre por toda a história. Somente no final do século 19 cigarro e doença começam a ser associados efetivamente, e a venda do produto é proibida para jovens na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Para se articular naquele cenário, empresários das duas nações se uniram para manter as assertivas cifras da indústria. James Duke presidiu a American Tabacco Company no mesmo período em que nasceu a Imperial Tabacco Company na Grã-Bretanha. Para unir forças, criaram a BAT (British American Association), no intuito de explorar outros mercados cuja proibição ainda não era tema. A BAT tem como primeiro grande passo a compra da brasileira Souza Cruz, criada pelo imigrante português Albino Souza Cruz, em 1903.

É o contexto social e econômico da Primeira Guerra Mundial que constrói novas linhas para o fumo – cenário no qual a mulher é introduzida no mercado de trabalho e a associação clara do cigarro com a sedução feminina passa a figurar nas entrelinhas. O cinema fora primordial nesse processo: uma vez que as cenas de sexo – e até mesmo de beijo – eram proibidas, acender um cigarro passa a representar o que seria o ato sexual.

Não por menos, no início dos anos de 1930, toda estrela do cinema tinha uma foto em seu portfólio segurando um cigarro. É nessa construção imagética que o capital passa a atuar de forma incisiva, transformando a ação de inalar fumaça, algo repulsivo para qualquer outro animal, num feito cotidiano e de simbolismos atrelados à liberdade.

Parte do fumo virou fumaça, mas não cinza

Em meados de 1950, mesmo diante das muitas proibições e do discurso do politicamente correto de que o fumo era pernicioso para a saúde, a indústria do tabaco seguiu nas peripécias para difundir o produto. Nesse período, quando as evidências médicas contra o fumo viraram estatísticas mais concretas, os governos foram à justiça na tentativa de controlar o uso. A ironia máxima disso é que os lucros das empresas de tabaco não foram afetados pelas campanhas e legislações anti-fumo nem em meados do século passado nem no tempo atual.

O cinema, frente às dificuldades e proibições da publicidade do cigarro, passa a ser a mídia mais profícua para burlar a proibição e chegar à propagação. Fumar torna-se inerente ao ser humano, por conta dos muitos artifícios da imagem, e até mesmo porque não há indústria que pague mais impostos do que a tabagista.

traguepoesia1.jpg Trague poesia, do artista paulistano Deco Adjiman

Cigarro e cifras

Na Inglaterra, o estado morde 80% do preço do maço; número que no Brasil está na casa dos 70% - ou seja, trata-se do produto industrializado que mais paga impostos. Por isso, não há interesse claro em perder os mais de um bilhão de fumantes existentes no mundo – nem nunca houve. Segundo a Souza Cruz, o tabaco é atualmente a mais importante cultura agrícola não-alimentícia do planeta, contribuindo substancialmente para as economias de mais de 150 países. Afinal, trata-se de um produto com estabilidade nos preços e que alçou o Brasil à posição de segundo maior produtor do mundo e líder nas exportações mundiais.

Em terras brasileiras, bizarramente, a política de controle do cigarro é tida como referência e o número de fumantes no país segue em queda desde a década de 1990. Ainda assim, o esforço é muito mais simbólico do que efetivo, uma vez que todo o contexto é norteado por uma relação financeira pra lá de profícua para os cofres públicos.

Apesar dos discursos anedóticos de que os governos seguem contra a fumaça e da perda da popularidade do cigarro nas últimas décadas, o número de pessoas que fumam cresceu 34% nos últimos 32 anos, segundo estudo realizado em 2014 pela Universidade de Washington.

Em contexto global, o hábito mantém-se longe de ter seus dias contados. Para se ter ideia, a OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que o número de usuários de tabaco no mundo deve pular de 1,3 bilhão para 1,5 bilhão até 2025. Outro estudo estima que no primeiro quarto deste século o cigarro deve matar 50% mais pessoas do que em todo o século 20.

Frente a tantos engodos, foi criada em 2007 a Convenção Quadro para Controle do Tabaco, orientando mais de 170 países na adoção de políticas públicas para brecar o consumo. Áreas livres de fumo, advertências sobre as enfermidades causadas pelo consumo e restrições de propaganda estão entre as medidas.

Em tal contexto, o cinema segue como benção para a indústria do tabaco e vem formulando, desde o início do século passado, o glamour do que é inalar a fumaça. Como escreveu o jornalista Tarso Araújo, “talvez não exista fumaça no futuro do tabaco, mas certamente ele não será feito de cinzas". Verdade ou não, eu sigo fumando.

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Texto extraído de Máquina de fazer imagens - cinema, cigarro e feminilidade – pesquisa produzida para obtenção do título de pós-graduação em Semiótica Psicanalítica – Clínica da Cultura da PUC/SP

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Referências

AQUINO, Manuela; VERGARA, Rodrigo. Ascensão e queda do tabaco. Revista Super Interessante, Saúde, jun. 2003.

ARAUJO, Tarso. O futuro da indústria do tabaco. Revista Galileu, Dossiê. 07 mai. 2013.

GOULART, Frederico. Número de fumantes em todo o mundo se aproxima de 1 bilhão. O Globo. 08 jan. 2014.

MATOS, Dênis. Máquina de fazer imagens: cinema, cigarro e feminilidade. São Paulo, 2014. PUC/SP.


Dênis Matos

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