nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Descobrimos o mundo com uma fita K7

Memórias de um universo sem internet


Em meados dos anos 1990, as coisas eram, no mínimo, mais divertidas do que agora. Digo em alguns aspectos, é claro, porque nosso tempo tem lá suas muitas farras válidas. Mas, digo divertidas principalmente porque eu era adolescente e, vamos e convenhamos, era muito mais simples viver sem o peso do mundo em suas costas. Mas não só isso.

Nessa época, lembro que o contato com qualquer tipo de produto cultural passava por alguns processos muito mais incrustados do que os que temos hoje, em que acessamos todo e qualquer tipo material com a maior facilidade da galáxia, palmas à internet.

Meu primo, Robson de Mattos (diferente do meu, com dois tês) Pires Gonçalves, e mais alguns amigos que conservo gratamente ainda hoje protagonizaram junto a mim a alegria de comprar um disco na famigerada Galeria do Rock, no centrão de São Paulo, e replicar esses sons em fitas K7, de preferência com 90 minutos de gravação (cabiam mais sons).

k7.jpg

Era uma maneira caseira, e bem divertida, de acessar novas bandas, compartilhar conhecimentos musicais e culturais e, a melhor parte, comer pelas beiradas do consumo, sem necessidade de tanta grana para descobrir coisas interessantes, afinal.

O mais comum era criar conexões com as bandas, a partir de membros ou coisas assim, para tentar ampliar os terrenos e começar a andar em pisos diferentes.

badreligion all ages.jpg

Brian Baker, um neozelandês que atualmente é guitarrista do Bad Religion, é o que podemos chamar de curinga neste sentido. À época, meados de 1996, comprei o All Ages, um apanhado de pouco mais de 10 anos de banda, mesclando uns seis discos. Baker havia entrado na banda em 1994 – a coletânea é de 1995 – e abriu as portas para que acessássemos seus outros projetos.

Daí descobrimos o Minor Threat, banda punk de Washington DC considerada a primeira referência do que viria a ser a subcultura straight-edge/hardcore. Baker é um de seus cofundadores. Tocou ainda no Dag Nasty, Government Issue, Junkyard e mil outros projetos com mais ou menos relevância.

brianbaker.jpg Brian Baker, na Smash Magazine (http://www.smashmagazine.com/)

Uma coisa leva a outra, e a partir do Minor Threat abrimos outra grande porta ao conhecer o Fugazi e seu vocalista Ian MacKaye, talvez um dos sujeitos mais importantes do punk norte-americano.

MacKaye levou o DIY (do it yourself, o clássico “faça você mesmo” da contracultura) a outras esferas ao montar uma das gravadoras mais profícuas para o movimento, a Dischord Records, junto com o também membro do Fugazi Jeff Nelson.

A lista de bandas que acessamos a partir da Dischord é imensa: Marginal Man, Embrace, Youth Brigade, Medications, Q And Not U, Iron Cross e por aí vai.

fugazi-dischord.jpg Fugazi (www.dischord.com)

Neste emaranhado de idas e vindas, o compact cassette lançado pelas Philips em 1963 teve papel fundamental ao representar, do ponto de vista objetivo, todas as possibilidades de conhecimento nascidas a partir da tecla REC.

Nem meus amigos, tampouco eu, sabemos ao certo o quanto devemos para este simples e revolucionário objeto.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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