nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Engarrafados

Trânsito é guerra de interesses. Você se torna avenida ou rua. Se meu logradouro é mais importante, você perdeu. Meu interesse é – e deve sempre ser - prioritário


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A miragem que o ar seco constrói sobre o asfalto é o mais próximo da ideia de inferno que eu posso comprar. Tudo queima. Sexta-feira, cinco da tarde, São Paulo derrete.

Desenhos de um fogo invisível sopram do chão – como se um maçarico estivesse ligado –, e desconstroem qualquer sentimento de término que se tem (tem?) após mais uma semana paulistana. Descendo o túnel que dá acesso ao Minhocão, o mundo para. Todos inertes, vazios do excesso, movimentam-se sem se mexer. Ao redor sobra um ou outro valente, enxugando o suor na testa e, no máximo, deferindo socos no próprio volante.

Meninos se espalham entre carros. Fornecem amendoins, limpeza nos vidros, cuspidas de labaredas.

Trânsito é guerra de interesses. Você se torna avenida, rua, viela se a coisa estiver mal para o seu lado. Se meu logradouro é mais importante, você perdeu, meu interesse é - e deve ser - prioritário.

Soa como uma troca recíproca, nunca justa, enfeitada de (des)igualdade. Necessidades conflitantes que alimentam ódios urbanos, ódios pelo outro, ódios por odiar.

Ao lado existe mais um número, igual a mim, igual a você. Ele também quer um atalho, um foco de respiração, algo vivo; que destrua a escolha impregnada de estar ali.

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Nosso oficial está à frente. Trajado de calça marrom, camisa e chapéu no mesmo tom de amarelo, ele dita as regras, tão ou mais perdido quanto nós, somente em posição diferente. Duas armas na mão - caderneta e apito -, algumas jogadas de braço e, pronto, mais uma largada. Três silvos estridentes e um aceno de braço movimentam as engrenagens.

O ar muda a todo tempo onde ninguém respira.

O rebanho parte, com gana única e pressa de ontem. Observo-os para não me observar, atônito, como se meu sorriso não coubesse no rosto.

Para não seguir a linha tênue, melhor que alguém cuspa qualquer resposta de ódio, desobrigue-me de vê-los para que eu não sabia que dentro de cada fantoche existe um simulacro de vida misturado ao caos.

Nessa convivência limitada somos iguais, os mesmos, seguimos a mesma regra e, em contraponto, nos tornamos inimigos. Preciso estar à sua frente. Preciso angariar dez metros de distância para ser vencedor em algum quesito nesta cidade.

Numa metrópole de oito milhões de veículos, a loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Se ela vir de carro, avise-a para se antecipar, porque está tudo engarrafado, porque a sandice é normal.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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