nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Escapes de Gas e as entrelinhas da ditadura

Como o cinema pode contribuir para a reflexão sobre o mal-estar causado pelos regimes totalitários na América Latina?

Deixando de escanteio o olhar das violações de direitos humanos e da agressão física, a produção do diretor Bruno Salas adota um caminho peculiar, discutindo os processos de destruição de obras de arte e de patrimônios culturais e imateriais causados pelos governos militares


escapes de gasx.jpg

Nos últimos 50 anos, a mídia vem trabalhando em diversos recortes possíveis para tratar o espinhoso passado das ditaduras latino-americanas. De forma geral, mas não exclusiva, a violação dos direitos humanos é o mote central quando das discussões deste fantasma.

Ainda hoje, esses resquícios seguem de corpo quente e presente em todos os países em que governos militares usaram da violência e da opressão para impor um modelo de gestão que flertava com o autoritarismo e a desumanização.

Em certa medida, é com olhar deslocado que o documentário Escapes de Gas (2015) faz uma releitura desse mal-estar vivenciado em Santiago do Chile nos anos de 1970. Trazer o tema à superfície com outra perspectiva, abordando um viés das violações aplicadas à arte chilena pelo governo de Augusto Pinochet, foi a escolha quase que psicanalítica que o diretor Bruno Salas adotou para o filme, perscrutando como a destituição de um patrimônio cultural também configurava outra face do regime militar.

Contexto

Em 1972 a capital chilena sediaria a UNCTAD III (Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento). Para representar a visão socialista e o projeto moderno que vinha sendo implementado por seu governo, o então presidente Salvador Allende optou por uma obra arquitetônica grandiosa que, posteriormente, deveria ser de uso da população santiaguina.

O espírito coletivo foi convocado pelo próprio mandatário, e após reunir arquitetos, operários, engenheiros e artistas deu-se início ao projeto, em junho de 1971. O tema do prazo exigia um esforço de todos envolvidos, e o próprio Allende visitou a construção – localizada no centro da capital chilena – para pedir aos operários empenho generalizado.

escapes-de-gas-bruno-salas.jpg

Mais de 30 artistas realizaram obras de arte com caráter funcional para o edifício, hoje ocupado pelo GAM (Centro Gabriela Mistral). Mesclando tecnologias inovadoras para construção, criatividade e dedicação dos operários em três turnos, o projeto foi concluído em tempo recorde de 275 e consagrou-se como marco arquitetônico mundial.

Havia um reflexo lúcido da visão de Allende neste trabalho, e os 34 artistas envolvidos receberam dividendos exatamente iguais aos dos operários, reforçando o discurso igualitário proposto.

Após a reunião diplomática da UNCTAD, o edifício se converteu em um grande centro cultural para exposições e concertos. Havia um enorme restaurante, com preços acessíveis e um viés de integração para toda a população da capital. Então diretora do centro cultural, Irma Cáceres entendia que era pela culinária que se iniciava o processo cultural e, por isso, o comedouro representava esse primeiro acesso.

Desdobramento

Logo após o Golpe de Estado, em setembro de 1973, o Palacio de La Moneda, sede do poder executivo, foi bombardeado. A junta militar decidiu então utilizar a melhor e mais moderna infraestrutura pública como nova sede do governo.

Assim, o Centro Cultural Metropolitano foi rebatizado de edifício Diego Portales, e a insígnia de espaço coletivo e de liberdade foi perdida para se converter num universo de reclusão e proteção. Neste contexto, poucas obras sobreviveram ao saque e à destruição causados pelos militares. É desta entrelinha que surge a discussão de Escapes de Gas e o interesse de Bruno Salas em realizar uma pesquisa que desse conta dessa história.

escapes_imagenes_2.jpg

Numa exibição do filme na capital chilena em janeiro de 2016, o diretor explicou que não tinha interesse de tocar no tema dos direitos humanos, mas que ao longo do trabalho isso ficou latente a partir da perspectiva de que a eliminação do patrimônio artístico é uma das ferramentas mais perniciosas utilizada pelas ditaduras.

Tese do curso de audiovisual de Salas, o documentário nasceu de uma grande pesquisa que abordava esta história sentimental da arquitetura e da arte chilena.

Segundo ele, grande parte das imagens utilizadas tiveram de ser compradas de canais de televisão chilenos, antes públicos e hoje privados, que cobraram um valor substancial pelos arquivos. “Montamos esse filme com a calculadora, por isso o Pinochet aparece somente dez segundos, não queríamos gastar mais de 500 lucas [nota de mil pesos chilenos] com ele”, revelou.

Centro Cultural Gabriela Mistral.jpg O antigo edifício é atualmente sede do GAM (Centro Cultural Gabriela Mistral), um dos mais importantes espaços de arte da capital chilena

Os muitos depoimentos de arquitetos, operários e artistas reunidos no trabalho dão conta dessa sensibilidade imaterial que a destruição de um patrimônio cultural e artístico pode causar.

Escapes de Gas é uma terapia coletiva, em que se discute infinitamente e de forma persistente quais são as possibilidades de se reestabelecer a liberdade de expressão. Visitando chagas subjetivas e pouco exploradas pela mídia, pelo cinema e por toda a produção cultural, o filme propõe-se a olhar para o espelho e rever o fantasma dos regimes militares de maneira sutil – mas não por isso menos profícua e relevante.

***

Texto disponível em espanhol em: Nicotina & Cafeína


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Dênis Matos