nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Nossos museus particulares

A fenda de objetos abre-se copiosamente para formar minha produção de subjetividade e minha capacidade de entender - ou não! - a vida. Mesmo cansada, morta, ocultada, ela levanta sem nunca desistir da cotidiana labuta de se fazer algo vivo


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Gosto de pensar que a relação que estabelecemos com as coisas está muito além da coisa em si. Não falo aqui de questões materiais ou de consumo, e sim das possibilidades simbólicas que redesenhamos copiosamente em determinados atos. São ações comumente acompanhadas de pequenos objetos, fragmentos minúsculos do que somos, de como produzimos e repetimos nossa respiração no mundo.

Gosto de regar as plantas, todas as manhãs reproduzo esse ritual. Gosto do barulho que a água faz quando escorre em cima das flores; das cores que aparecem quando esse movimento está acontecendo e misturando água, sol, terra, vida e ar; da sensação de existência que distribuo a essa parte domesticada da natureza que figura em minha casa; dos meus gatos lambendo as pequenas poças de água coagulada que nascem junto a esse movimento.

Gosto de colocar a cafeteira no fogo enquanto escolho um disco para ouvir e assim distribuo o humor de meus dias a partir daí. Quando o café borbulha e o aroma se faz presente, há sempre um vestígio do sabor desse café, da incerteza se a quantidade de pó é adequada, se a temperatura faz jus à minha vontade – ainda que pouco saiba o que é a vontade –, se o conforto que o café me proporciona normalmente aparece ou não em mais uma manhã.

Gosto de rabiscar os livros e grifar tudo enquanto leio. Gosto de reler os trechos rabiscados, em situações completamente desconexas às histórias e ao momento introspectivo da leitura.

Gosto das garrafas de cerveja vazias em cima do armário da cozinha e do que compartilhei ao bebe-las com pessoas que me fazem feliz.

Gosto do cheiro do primeiro cigarro do dia antes de ser aceso. Gosto de sentar no chão. Gosto de me perder no sofá enquanto seguro a mão da minha mulher e fazemos companhia um ao outro. Gosto de agulha de vitrola, porque é dela a responsabilidade de produzir a mágica do som de uma maneira orgânica.

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No fim, o que mais gosto é da fenda que esses muitos objetos abrem em simbiose para formar minha produção de subjetividade, minha capacidade de entender - ou não! - tudo o que acontece em minha vida. De como consigo atribuir juízos positivos ou negativos para isso e, o principal, quem sabe desfrutar desses momentos e tempos da melhor maneira possível, sofrendo o necessário e tendo borboletas no estômago quando os tons mudam para algo mais alegre.

Talvez a visita ao Museu Pablo Fierro, em Puerto Varas, sul do Chile, tenha me transportado a todos esses fragmentos de essência que estão nos objetos. Num casarão antigo da pequena cidade, estão os muitos restos de histórias esquecidas para serem relembradas – amalgamadas nas mais diversas representações materiais existentes.

Esse espectro constitutivo do passado, de lembrar para esquecer e de relembrar para refazer, marca a versatilidade das muitas peças ali omitidas mas não descartadas, que separadamente se agrupam, compõem e dão tonalidade à razão de ser de Pablo Fierro.

Pintor realista e naturalista, é ele quem recebe os visitantes no museu, que tem entrada gratuita e figura há mais de dez anos na história da Região dos Lagos chilena. O passado urbano desse município de 40 mil habitantes, colonizado por alemães, está registrado nos quadros que completam o casarão e se misturam a um universo de signos.

Máquinas de escrever, aparelhos de fax carcomidos, paredes recheadas de suspiros escritos nos mais diversos idiomas, cadeiras, rodas, carros, relógios, semáforos, mesas, rabiscos, enceradeiras, pedaços de janelas. Cada obra-objeto remete a vidas acontecidas (e acontecendo), a viagens que tiveram fim mas que não acabaram, a poesias escritas em nome de algum sentimento extravasado.

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É como se o verso das coisas se amarrasse e trouxesse ao fim prático desses objetos alguma esperança para a indigesta refeição da existência humana. São restos que não se pensavam como obra, apenas escorriam para fora a realidade à qual eles estavam inseridos e, por isso, metamorfoseavam-se como arte.

Venho me perguntando quantas pessoas olharam para aqueles relógios do museu e, no passado, sorriram ao pensar na hora de retornar às suas casas e vidas. Ou quantos textos eufóricos foram desenhados com aquelas teclas perdidas, que sobram nas antigas máquinas de escrever. Os pedaços abandonados de madeira, troncos, dobradiças de janelas que um dia foram brinquedo. A enceradeira que serviu à casa e minimizou a angústia de uma mãe perdida no vazio da tarde doméstica.

No fim, são esses seres-objetos ausentes que vão representar o que somos para o outro e, a partir desse olhar do outro, representar para nós mesmos o que fizemos de nossa realidade. Eles reverberam em palavra não escrita o nosso silêncio, o nosso afeto, o nosso abismo.

Assim como o regador é usual para aguar as plantas todas as manhãs e me fazer vivo, essa poesia imaterial das coisas materiais é nossa existência e nosso vir-a-ser. Mesmo cansada, morta, ocultada, ela levanta a cada segundo sem nunca desistir da cotidiana labuta de se fazer vivo.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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