nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

O vão cultural nosso de cada dia

Ranços indígenas, influências culturais européias e estadunidenses, lacunas linguísticas. Por que o brasileiro ainda não se significa enquanto povo latino


Mapa América Latina

Em minha recente experiência como brasileiro vivendo em Santiago, sempre que posso saio para saracotear um pouco pela capital chilena e tento entender alguma coisa dessa parte próxima porém distinta da América do Sul.

De fato, e de maneira que não sei esclarecer com tanta objetividade, a coisa desse lado da cordilheira tem cara de outro continente, que obviamente faz jus à insígnia de ser hispânico, e não lusitano.

À luz do lugar comum diríamos sempre que a língua é a primeira grande lacuna, já que é praticamente a mesma em todos os países vizinhos – à exceção de nosso continente Brasil, das Guianas e de umas ilhotas da vida e do Suriname. Mas as cores são diferentes aqui por somados motivos. A começar por traços básicos dos diferentes latinos que por essas bandas construíram suas vidas. Basta sair à rua e ver os rostos com ranços indígenas e sincréticos.

Falo de peruanos, bolivianos, argentinos, equatorianos, venezuelanos e afins que compõem de forma natural a vida de Santiago.

Não que as grandes cidades brasileiras não carreguem seus diversos imigrantes. São Paulo, como metrópole, responde muito bem a isso e é consistentemente uma cidade do mundo – com gente de todo canto da galáxia. Acontece que por aqui isso é quase regra, não exceção, quando pensamos nos povos da colônia hispânica.

Apesar das influencias norte-americanas e europeias e do achatamento cultural promovido pela globalização nos últimos anos, há um espírito indígena nesse país banhado pelo Pacífico, que vez ou outra ainda perdura por alguns lados.

Nas decorações de lojas de bairro e restaurantes pelo centro da cidade; na gastronomia que faz referência a muitos pratos que mesclam contextos nativos e espanhóis; nos ranços mapuches e atacamenhos existentes na música e nas artes; enfim, é mais fácil se deparar com alguma lembrança de que esta é outra América, não a dos brasileiros.

Encontros do Cinema Latino Americano Encontros do Cinema Latino Americano: uma das iniciativas que promove a troca de informações sobre aspectos sociais, políticos, históricos e culturais do continente na tentativa de reforçar o processo de integração

“Em comum”

O Brasil neste sentido traz detalhes em comum, óbvio, mas bote-se aspas nesse “em comum”. A começar pela culinária, o que se come em terras tupiniquins é resultante de sabores europeus, africanos, orientais e, ainda que pouco valorizados e comumente ofuscados pela cultura alimentar trazida pelos imigrantes, sabores indígenas em estágio de ocidentalização.

Parece simples, mas é concreto que nossa gastronomia eclética contribuiu muito para que se efetivasse este distanciamento cultural em relação aos vizinhos de continente. Afinal, é pela comida que se inicia a cultura. E essa é só a ponta do icebergue.

Faz coisa de dois anos, tive a sorte de participar de um grande estudo sobre o turista brasileiro e sua relação com os países do continente. O que mais chamou a atenção, e talvez elucide parte de nosso vão cultural com nossos hermanos, é o fato de o Brasil ter vivenciado um processo de escravidão com negros africanos. Explico.

Somos europeus

Neste processo histórico, encarou-se uma realidade na qual o negro era o trabalhador; o índio, o serviçal; e o branco, o senhor. Daí a constituição simbólica de que a racionalidade do mundo estava presa à Europa e os resquícios culturais aborígines e africanos significam a barbárie, tudo aquilo que queríamos nos distanciar para se constituir como nação moderna. Conceitualmente, o jargão eurocentrismo.

A assimilação cultural desse processo centenário constituiu talvez uma das grandes particularidades brasileiras em relação aos demais países do continente. Em nosso imaginário, somos europeus, somos brancos, somos o maior país sul-americano, o país do futuro, uma das dez maiores economias globalizadas, parte de uma elite mundial. Há uma escolha lexical que corrobora a visão de um país distante de seu continente.

No processo sígnico e subjetivo, circular pela América do Sul é sinônimo de estar no quintal de casa, estar entre os meus. Acontece que, quando olho no espelho e vejo povos com uma pulsão cultural banhada a um quinhão nativo, com feições indígenas que em tese são as minhas, eu não me identifico, não me encontro, não quero fazer parte. Existe aí uma espécie de paradoxo da diferença: o que afasta os países hispânicos do Brasil é justamente o sangue latino, e é copiosamente longe desse escopo que o brasileiro médio quer figurar.

É claro que toda regra tem exceção, e em nenhum momento dá para dizer que isso é uma visão generalizada, porém foi confirmada neste trabalho com métodos aprofundados em etapas qualitativas, quantitativas, conversas com especialistas e profissionais do setor.

Bordões como “Para ver pobre eu fico aqui no Brasil”, “Não dá nenhum status dizer que você viajou pela América Latina” e outros impropérios foram coletados a exaustão nesse projeto. Como diria o cantor, sad but true.

Ricardo Darín Ator Ricardo Darín no programa Sangue Latino, do Canal Brasil, numa entrevista que fala da utopia de um continente como nação - (http://globosatplay.globo.com/canal-brasil)

O martelo cultural

Soma-se a isso a perpetuação de uma indústria cultural e de uma educação que nada privilegia nossos pares.

Quem podemos citar do cinema latino-americano à exceção de Ricardo Darín, Gael García Bernal e Rodrigo de la Serna? Os demais artistas do continente que figuram na lista dos “queridinhos” no geral construíram suas carreiras no cinema hollywoodiano.

Quem são os heróis de esquerda ou de direita como San Martin, O'Higgins, Simón Bolívar ou Sucre? São nomes que provavelmente jamais foram citados na maiorias das escolas brasileiras.

Quem conhece alguma coisa além de Shakira, dos hits perdidos de Ricky Martin e de Thalía, ou algum clássico de Mercedes Sosa?

O que a mídia brasileira traz de notícias do continente e como isto contribui para a constituição do senso comum acerca dessa realidade? Enquanto assistimos sem culpa o way of life norte-americano em séries como House of Cards, Friends, Dr. House ou Mad Men, temos nosso contraponto violento protagonizado por Wagner Moura em Narcos martelando em nossas cabeças.

Há ainda o distanciamento recente de ditaduras cívis/militares, com uma intervenção política, econômica e cultural dos Estados Unidos e um afastamento dentro do bloco do Mercosul.

Como escreveu o sociólogo e professor do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP Wagner Iglecias, provavelmente para o brasileiro médio a vizinhança é tão familiar quanto Netuno ou Plutão.

Dentro desse caos cultural, vale pegar uma mochila e por nas costas para entender um pouco além desses paradigmas o que é nosso continente. Garanto, o convite é irrecusável.

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Em tempo: Como qualquer capital com poderio econômico, a chilena também tem aos montes seus não-lugares, recheados de shoppings megalomaníacos, lounges de redes hoteleiras internacionais e hamburguerias estadunidenses. Falo no texto dos traços mais tradicionais que ainda não sucumbiram às pressões de home centers e Wal Marts da vida. Em nenhuma medida, isso é uma verdade irrefutável ou exclusiva.

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Texto disponível em espanhol em: Nicotina & Cafeína


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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