nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Por que eu não tenho facebook

Sem ele, me resta a tristeza de conhecer pessoas somente pessoalmente


iHeart.jpg Obra Nobody Likes Me do coletivo canadense iHeart (iheartthestreetart.com/)

Ontem - ou será hoje ou amanhã? - eu não fiquei sabendo que um antigo conhecido meu do trabalho quebrou a perna. Muito provavelmente porque eu não deveria saber, porque não tenho mais contato com esse cara ou porque no fim do dia nós nem nos falávamos muito naquele emprego.

Tampouco me avisaram que o áudio que a imprensa conseguiu na investigação X reverberou por toda a rede e acabou gerando o que eles chamam de comoção nacional entre os internautas, ou algo assim. Teve gente que soltou até uns impropérios e prometeu reunir meia dúzia em alguma grande avenida para mostrar indignação e tirar mais fotos para postar no facebook e gerar indignação com a foto de gente indignada.

Nem fui avisado que a apresentadora gostosona do programa Y da rede Z ficou grávida do fulano, enquanto namorava o ciclano, e rolou um bafafá danado numa festa cheia de holofote da ex-celebridade candidata à miss qualquer coisa. Parece que todo mundo comentou sobre, geral ficou pasmado, principalmente porque ela, até o final do ano passado, teve um caso com um cara casado também da TV (acredita?).

O show da banda de sei-lá-onde que rolou naquela nova casa famosa que está bombando em São Paulo também não chegou até mim. Ouvi dizer que tinha cambista na porta, e a polícia teve que apartar uma briga de um moleque que vendeu um ingresso cortesia falsificado e por aí vai. Uns caras saíram de ambulância também, tinha uma marca de cerveja dando bebida de graça, aí já viu, puta confusão.

Todo esse mal da alienação, ao que parece, me acomete porque não tenho um perfil no facebook. Mas não é por causa disso que não tenho facebook, ou um perfil, como usualmente se diz.

Não tenho facebook (ou um perfil, como se diz, e essa é a última vez que digo assim porque agora vou começar a escrever errado) por um sem número de motivos - alguns tolos, outros sérios.

Luis Quiles.jpg Artista espanhol Luis Quiles questiona a relação humana com a tecnologia a partir de ilustrações sarcásticas e impactantes (luisquilesbd.blogspot.cl)

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Não tenho facebook porque sem ele tenho o prazer de conhecer pessoas somente pessoalmente.

Não faço ideia das imagens que meus amigos, minha mãe, minha esposa ou até um colega do trabalho de dez anos atrás vendem neste espaço. Não faço ideia se além dos seres humanos que conheço e amo eles também são vistos de forma idealizada ou qualquer coisa assim, somando-se à imagem de embalagem plástica que eles escolheram - ou não - para deixar na vitrine do ciberespaço, um pouquinho de inconsciente que escapou sem querer.

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Não tenho facebook porque quero continuar me sentindo um E.T. que não se relaciona com este espaço e que não fica sabendo dessas revolucionárias posturas de pseudo-engajamento seja lá com o quê - num perfil que está afogado num mar de informação sem águas.

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Não tenho facebook porque qualquer frase, de qualquer sujeito, de qualquer tamanho, em qualquer nível ou não de profundidade, sem nenhum contexto, seja lá sobre o que, é julgada e recriminada e discutida e gera protesto e tem like e não tem dislike e todo mundo tem opinião e eu acho isso e deveria ser assim e eu não gosto mais de você e pronto falei e a gente nem se fala mais hoje.

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Não tenho facebook porque eu não quero ler as notícias de jornais de forma rápida e ser informado de tudo que acontece no mundo (todo mundo me diz que o facebook é o máximo pra isso, todo mundo tá inteligentão com essa nova-velha ferramenta e ninguém tá no facebook pra cuidar da vida de ninguém, é só conhecimento mesmo).

Por isso, perco diariamente a grandiosa oportunidade de ter na minha timeline que não existe só comentários intelectualizados, todo mundo arrebenta de ler notícias por ali. Tudo bem, confesso que às vezes adoraria curtir uns memes legaizinhos também, afinal dá pra compartilhar com a família e com os amigos no grupo massa do whatsapp que a gente fez pra zoar mesmo.

De resto, a coisa ali é só seriedade.

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Não tenho facebook porque nunca tive nem nunca vou ter e saber o que é a angústia de fazer uma publicação e ficar naquele hiato semiótico de primeiridade desesperado para ser aplaudido e gerar a maior polêmica e conseguir quantificar o quanto eu tenho amigos e o quanto devo ser legal e popular e ninguém tinha visto ainda o post incrível daquele filme que só eu assisti e fiquei foda na rede por isso.

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Não tenho facebook porque quase não saio pra comer fora e por isso não tenho muito o que postar daquele restaurante badalação que tem uns pratos bonitões que dão umas fotos da pesada e todo mundo curte e eu estava numa viagem e achei ao acaso um restô IN-CRÍ-VEL que nem o TripAdvisor tinha catalogado e deu pra publicar de lá porque tinha wi-fi free e rolou uma geolocalização e só assim publicar o que se come é legal porque todo mundo gosta, todo mundo curte.

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Não tenho facebook pra manter a sensação do que é não ter um facebook quando uma galera tem e tentar assim perceber alguma fagulha de um espaço humano e normal que ainda não está no facebook.

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Tudo neste texto é verdade, tudo neste texto é mentira.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
Saiba como escrever na obvious.
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