nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Porque dormir é para os fracos

Como as novas peripécias da ciência e da tecnologia podem por fim àquela sonequinha sagrada e despretensiosa


sleeping

A expressão que provavelmente você já reproduziu ou ouviu e nomeia este texto constitui um bom prelúdio para o que nosso tempo e a tecnologia vêm articulando.



Anúncios recentes de grandes corporações que estudam este tema levam a humanidade a um possível futuro no qual o sono pode ser reduzido em termos de tempo, e melhorado em termos de qualidade. Esse, por agora, é o discurso colocado em prática.



Acontece que tal desenvolvimento é talvez um dos mais aguardados passos tecnológicos a favor do sistema econômico, que copiosamente vêm elucubrando possibilidades de como manter o ser humano produtivo nesse período que representa 1/3 de sua existência. Assim, pra alegria das cifras e do mercado de trabalho, o indivíduo poderia dormir menos e, neste tempo intitulado "livre", consumir e produzir mais.

A pauta da vez está nas mãos de fabricantes de uma espécie de cápsula de sono, produto já existentes de maneira mais sutil em empresas que defendem um approach mais pós-moderno e lúdico para o universo laboral – a exemplo de gigantes como o Google, em que os trabalhadores podem tirar uma sonequinha durante o trabalho numa espécie de cama ultra high tech.

A nova ferramenta do cibermundo, contudo, leva o nome de Tranquility Pod. Pela bagatela de 30 mil dólares é possível adquirir o aparelho, que controla o calor e os ruídos e mantém corpo, mente e "espírito" num estágio de relaxamento induzido. Neste fluxo, notadamente, o melhor dos mundos se dá na possibilidade de o usuário viver de forma mais serena esse momento tão orgânico do ato de dormir.

Desde a criação de cápsulas em formato de bolha a pijamas com tecidos especiais que regulam temperatura, luz e som, este é um projeto que vem sendo esgarçado por muitas corporações com um viés de prover um melhor estágio de descanso para o ser humano. Embora, é obvio, isto suscite algumas pelejas.

tranquility-pods


Num tempo em que as nossas necessidades básicas começam a ser supridas por modelos tecnológicos, a pergunta a ser feita refere-se aos impactos psíquicos, culturais, científicos e educacionais que este processo pode provocar.

É fato que o homem vem ao longo dos séculos buscando experiências mais adequadas e seguras quanto ao momento social no qual ele está inserido. Contudo, rearticular atividades tão humanas e orgânicas quanto o ato de dormir parece trazer efeitos ainda pouco explicáveis.

De um lado, celebrar essas tecnologias que se aceleraram nos últimos tempos e entende-las como benéficas e capazes de realizar proezas que nenhuma outra era da humanidade conseguiu, pode representar uma visão infantil do processo – sem considerar seus desdobramentos. De outro, brigar pela morte da natureza e reforçar os perigos da automação e de um processo de desumanização tampouco parece o melhor caminho.

Fato é que as novas relações envolvendo tecnologia e necessidades orgânicas dos seres humanos se tornaram extremamente complexas, funcionando como ingrediente principal do século 21. E aqui talvez se desenhe o caminho mais ponderado a ser seguido, sem endemonizar os entusiastas e, tampouco, rechaçar as visões mais ortodoxas de que nada deve ser metamorfoseado. O que é preciso, vale frisar, é esgarçar este debate.

Do lado da ciência, pesquisadores do Instituto de Ética e Tecnologias Emergentes dos Estados Unidos avaliam que em 2055 a maior parte dos seres humanos dormirá apenas cinco horas por noite – diferente da média de sete horas mensurada atualmente. Do ponto de vista psíquico, no entanto, existem interrogações à granel.

Soldado sem sono

Apesar dos ares prematuros, este fenômeno não figura em nenhum espectro algo novo. No livro 24/7 – Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, o professor da Universidade de Columbia (EUA) Jonathan Crary avalia as inúmeras peripécias que o sistema econômico e o pentágono estadunidense vêm desenvolvendo nos últimos cinco anos para criar hiper seres humanos, disponíveis 24 horas por dia, em sete dias da semana.

De acordo com o autor, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos gastou uma fortuna considerável ao estudar o pardal-de-coroa-branca, pássaro que devido às intempéries do clima tem capacidade de permanecer acordado por sete dias durante as migrações.

A pesquisa, notadamente, tem objetivos de ser repassada a cobaias humanas, com olhares claros de entender possibilidades que favoreçam a criação de uma espécie de “soldado sem sono”. A curto prazo, a busca se dá por métodos que induzam esses militares a uma jornada de sete dias consecutivos, sem nenhum cochilo, mantendo níveis positivos de desempenhos mental e físico.

A grande interrogação de todo esse flerte entre tecnologia e necessidades básicas humanas segue na lógica de que estamos inseridos numa perversa economia política do capital globalizado. Figuramos num sistema que segue investindo veemente mais e mais dinheiro para construir um cenário que pode significar salvação ou causa primeira do esgotamento das nossas capacidades biológicas mais arraigadas.

O fato de passarmos um extenso período da vida, distantes de um vão gigantesco de carências e de necessidades culturais simuladas, como escreve Crary, configura uma das grandes afrontas à fome irrefreável do hipercapitalismo de nosso tempo.

Neste sentido, o sono continua preso a um espaço que a economia ainda não pode tomar conta, mesmo que em nosso tempo dizer que se tem sono seja visto como um dos grandes pecados capitais e do capital - porque dormir é para os fracos.

Seja por meio de cápsulas de melhoria da experiência do sono, ou por experimentos com um olhar pouco humanístico ao rearticular toda nossa estrutura animal e necessária, o intervalo de tempo do sono convoca as mais diferentes tentativas de colonizar o capital humano que ainda resta em nossa cultura.

O impacto dessas mudanças no corpo humano ainda é pouco visível, e até mesmo a reflexão aqui proposta segue em caminhos cinzentos. Fato tangível é que essas discussões só se fazem presentes a partir de um mecanismo que de positivo não carrega nada: o da lucratividade que, ainda, não conseguiu extrair muita coisa do sono.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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