nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Quando encontrei Zé do Caixão

Por que uns dos diretores mais geniais do cinema brasileiro ainda figura no esquecimento e no obscurantismo?


encarnacao do demonio Encarnação do demônio, de 2008, marca o retorno de Zé do Caixão às telas depois de mais de 40 anos

Numa quarta-feira de sol, em meio ao trânsito paulistano, José Mojica Marins estava sentado no bar ao lado de sua residência, no bairro de Santa Cecília, região central de São Paulo. Conversava com uma senhora, articulava, praguejava e tomava algo preto – que suspeitamos não ser café.

Era 2010 e, à época, eu e duas amigas – Daiana Sousa e Marcela Alves – seguíamos a missão civilizatória comum aos universitários: produzir um trabalho de conclusão de curso, o famigerado TCC, para a faculdade de jornalismo.

Adiantados para o horário da entrevista, assistimos à espreita o tão estereotipado alter-ego de Zé do Caixão, sendo ele mesmo, Mojica, um senhor que hoje beira os seus 80 anos. Alguns minutos depois, ele deu uma volta pelo quarteirão, a passos lentos, o que aferimos ser aquela caminhada para digestão pós-almoço.

Quando retornou, enfim, apresentamo-nos. Era coisa de duas da tarde e achávamos que a entrevista não renderia. Só às seis ele se despediu, após pragas, histórias sobre mulheres, política, filmes de vampiro — que ele garantiu odiar — e um pouco sobre o tal medo e sua enorme carreira enquanto cineasta; temas que respondiam, de fato, ao recorte de nosso projeto.

Ator e diretor de cinema, Mojica fez parte das mais diversas esferas da esquisitice. Foi candidato a deputado federal — fazendo campanha com o nome Zé do Caixão —, apresentou alguns talk shows de horror na TV, hipnotizou o “rei” Roberto Carlos, emprestou seu personagem para nomear um carro e uma cachaça, e mais um sem número de outras sandices que protagonizou.

Thumbnail image for POSTER-Esta-noite-encarnarei-no-teu-cadaver.jpg Pôster do segundo longa-metragem da trilogia

À época, eu carregava uma visão completamente equivocada e senso-comum, de que o papel de cineasta desenvolvido pelo artista era algo pouco válido, uma vez que a popularidade de Mojica estava posta a partir de outros estereótipos que nada tinham a ver com a sétima arte.

Isso, talvez, foi o que mais aprendi e que me parece ser o real intuito da produção acadêmica: refazer a ideia de estereotipada que muitas vezes produz verdades pouco calcadas em realidade. Infelizmente, depois me dei conta, isso é algo incontrolável já que os signos transmitidos nos meandros da comunicação figuram como algo pouco assertivo e preciso.

Tudo isso me fazia perguntar: apesar da popularidade do diretor, quem de fato assistiu algum filme de José Mojica Marins? A resposta pode ser quase generalizada de forma negativa e, por isso, percebe-se que os significantes do personagem extravagante que ele carrega são mais populares do que o próprio diretor.

Quanto ao cinema, há claramente uma espécie de negativismo, que chega a ser atribuído, segundo a doutora em cinema de horror Laura Cánepa, à própria postura cômica que o diretor adotou em suas aparições. Para ela, este comportamento transformou Zé do Caixão numa espécie de ‘folclore’.

O que há de se perguntar, a fundo, são coisas básicas, como quantos cineastas no Brasil realizaram mais de 30 filmes? Quantos conseguiram produzir longas-metragens sem dinheiro algum e sem verba do Estado ou de grandes corporações, vendendo direitos autorais de longas antigos para seguir na profissão e produzir mais filmes? Quantos cineastas, de verdade, precisavam sustentar suas famílias com um trabalho como esse, que é talvez uma das artes mais caras de se realizar? Quem, na história do cinema brasileiro, construiu personagens que dessem conta da brejeirice de algumas regiões e ao mesmo tempo carregasse a contradição de ter uma visão nietzschiana de mundo?

Pois é, só mesmo o Mojica. Mesmo assim, tais interrogações permeiam toda a carreira e toda a história desse artista filho de imigrantes espanhóis que cresceu num cinema de bairro na vila Anastácio, no subdistrito da Lapa, zona Oeste paulistana.

Somam-se aí outras enxurradas de preconceitos: um cinema brasileiro, um cinema de baixo orçamento, um cinema que questiona os moldes religiosos num país cristão nos anos de 1960 (algo que segue dogmático até hoje), um cinema de horror, um cinema praticamente experimental feito sem nenhum suporte da grande imprensa.

Documentário Uma descida ao inferno de Zé do Caixão, resultado deste projeto. Conta com entrevistas de André Barcinski, Kiko Goifman, Carlos Primati, Laura Cánepa, Maria Lucia Homem e José Mojica Marins e é parte do box de DVD Coleção Zé do Caixão, da Focus Filmes

Todavia, é inegável que a marca do cinema de horror no Brasil leva o nome de José Mojica Marins e, paradoxalmente, esta mesma insígnia contribuiu para uma negação de longas-metragens com este viés. Sendo intitulado de sádico, louco, débil mental e outros impropérios, o cineasta conseguiu, à sua maneira, criar uma pseudo-tradição de atitudes malévolas nas telas com o mefistofélico Zé do Caixão. O país não possuía e ainda hoje, mais de 40 anos depois, não possui nenhuma tradição no gênero.

Mojica representa este lunático, que flerta com o horror e com o fantástico ao inventar infernos gélidos, cadáveres falantes, purgatórios canibalescos e outros disparates que, muitas vezes, não passam de alucinações dele mesmo, numa mensagem constante de que você é o seu próprio demônio - ou deus - e vê o que lhe convém.

O fato de que a linguagem de Marins levar nome de única merece, sim, ser reafirmado. É o que dizem seus biógrafos, muitos cineastas e até o diretor estadunidense Steven Spielberg, que certa vez afirmou: “se esse homem tivesse nascido do outro lado do continente americano, sua história seria bem diferente”.

josefelzanatas.jpg O personagem Josefel Zanatas, o Zé do Caixão, no primeiro filme da trilogia: À meia-noite levarei sua alma

O diretor e seu personagem principal são por si sós figuras da contramão, imperfeitos por natureza, destruidores da narrativa formal que, de maneira contraditória, se encontram ora ao lado do suposto mal, ora ao lado do pretenso bem. O que Mojica transferiu para seu personagem foi a petulância de um demônio tropicalista jamais visto em qualquer cinema, seja este subversivo ou de grande público.

Zé do Caixão usa as garras, desmoraliza, pragueja, mata e ri numa mostra psicodélica do terror. Já Mojica agride com a câmera, transgride fazendo uma arte tão cara de forma simples e atípica. Numa vingança positiva, toda sua fama de iletrado é combatida com as filosofias de homem livre e de perpetuação por meio do sangue que Zé do Caixão tanto profere, numa radiografia do ser perfeito que dá o troco na baixa-burguesia com formas célebres e inesperadas.

A tortura, o espancamento e a mutilação promovidos na tela se consolidam na obsessão mais íntima do criador: levar o Estranho mundo de Zé do Caixão para o mundo. Apesar de insano, o convite é quase irrecusável.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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