nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Se não me falha a memória

Por que o ato compulsivo de registrar a existência pode excluir nossas capacidades de inventar e de devanear - reduzindo a memória a um bloco extremamente controlado pela metáfora tecnológica


Com voz de sapiência, Mia Couto subiu ao palco meio desconsertado, defendendo que lugar de escritor é no enigma da reclusão, e não em meio ao público. Era setembro e o calor de São Paulo começava a doer. Doer no corpo e não no coração, como fazia a fala do moçambicano, cujo tema memória dava caldo para aquela noite de 2014.

“De que vale ter memória, se o que eu mais vivi foi o que nunca se passou", profetizou.

O aforismo utilizado pelo africano resume bem esse vão oco da memória, algo que pouco captamos do ponto de vista concreto; mas que muitas vezes reconstituímos como invenção, o conto fantasiado de nossas próprias vidas.

hiper.jpg Reunindo poemas de diversos artistas, livro aborda como a tecnologia refaz a noção de subjetividade e de memória humanas

Se em Bauman – e em sua definição de Modernidade Líquida – as relações humanas e as memórias geradas neste experimento são esvaziadas como um rio sem margem e pouco podem ser tocadas, em Mia Couto elas são as “margens de um mesmo rio, que é o nosso interior”.

Pode-se dizer que a poesia do escritor corre para o fio da esperança. O recorte pós-moderno do pensador polaco, no entanto, segue a via contrária, em que a memória se perde na cultura do efêmero, esta fundamentada na obrigatoriedade do esquecimento.

Seja através de produtos, de relações humanas ou de relações imagéticas, a estrutura de consumo atual reforça este fluxo irrefreável que nos coloca no esquecimento não pela falta, mas pelo excesso.

É a metáfora perfeita desenhada por José Saramago: vive-se de uma cegueira branca, na qual não vagamos pela escuridão de algo que se perdeu e não pode mais ser visto – e sim por uma brancura que transparece o muito que se viu.

Esquecimento e memória

Tradicionalmente, o esquecimento constituiu a contraparte perversa da memória, a perda que ocorre por força do tempo e das distorções imprevisíveis da mente humana.

Este, talvez, é o aspecto mais particular da contemporaneidade, cujo modelo descartável e de embalagem plástica reforça a ideia de data prévia para término de tudo. O que lembramos não foge a esse fantasma.

Como escrevem Lipovetsky & Serroy, a finalidade última desse universo utópico, de um consumo sem fim até mesmo para a arte, é “ser um vetor de transformação das condições de vida e das mentalidades”.

humanos.jpg

Ou seja, há uma alusão aí à quebra de determinadas práticas, que desembocam no fim da memória e na necessidade de esquecer a todo tempo, corroborando o fluxo constante de se tocar coisas novas. Afinal, é somente nesse processo infindável de comprar e descartar que se constituem as torrentes de consumo para produtos e pessoas; mantendo a roda do capital girando.

Diante de tais lógicas de mercado, parece, a memória vai entorpecendo. E, lamentavalmente, abrindo mão de seu caráter poético. Além de formular nossa história, é dela a responsabilidade de construir nossa subjetividade, nossos devaneios, nossa capacidade pouco concreta e de suma importância de imaginar e (re)inventar.

Sonho e memória

Tal movimento não cessa na esfera da memória registrada - e vai se alinhavando com outras matizes do inconsciente. O sonho, uma das poucas representações subjetivas de nossos significantes mais obscuros, é par destas lembranças.

Relatar algo “sonhado” é estar próximo de uma criação ficcional, reelaborada a partir do momento em que se externa um relato.

No limite, há de se lembrar que o sonho exige uma linguagem não possível pelo verbal, restrita ao devaneio subjetivo do espaço inconsciente. A poesia, neste aspecto, é talvez uma das poucas possibilidades para contar essa memória.

“O sonho é um parente muito próximo da memória. Os sonhos só existem na impossível lembrança que nós temos deles. Ninguém se lembra exatamente o que sonhou, porque em grande parte todos nós sonhamos o que lembramos", avaliou Mia Couto.

A experiência de sonhar, ampliando os paralelos, é algo muito semelhante a ir ao cinema, e o filme é uma espécie de sonho que sonharam para nós. Nele também vamos capturar e reproduzir muitas imagens pouco tangíveis, mais fundamentais para perpetuação de nossa memória.

Por isso, a experiência de sair da sala de exibição e falar sobre o que se viu, em alguma medida, é um ato de memória. Ao fazê-lo, recobramos algum sulco da camada fílmica e como esta atingiu o inconsciente a ponto de reproduzir imagens em nossas memórias. Essas representações, assim, são externalizadas por meio de outras linguagens e constituem este exercício incognoscível.

A plasticidade peculiar de alguns filmes, assim como a dos sonhos, dificilmente pode ser esquecida – todavia, dificilmente pode ser evocada na esfera consciente e na vida concreta.

poshumano.jpg

Tecnologia e memória

Acontece que, hoje, a maior parte do conhecimento cabe no espaço virtual, hiperdimensional, das redes de computadores, e escapa inteiramente das possibilidades da memória. Se por um lado, essas tecnologias digitais permitem o desenvolvimento de uma memória maquinal perfeita, na esfera da experiência humana o esquecimento e a (re)seleção tornaram-se, mais que nunca, vitais.

É um fenômeno social que vem se acirrando nos últimos anos e começa a trazer seus primeiros fetos. Como produto cultural, a série britânica Black Mirror faz um recorte peculiar destes dilemas. Calcado numa sociedade distópica, recheada com nuances de nosso tempo, o projeto - dirigido por Charlie Brooker - discute no terceiro capítulo o que seria o mundo se esta memória individual fosse registrada a todo instante.

Intitulado The Entire History of You, o episódio traz um futuro em que todos têm um implante que grava tudo o que os seres humanos fazem, veem e ouvem. No enredo, o pano de fundo é uma crise conjugal iniciada a partir de fragmentos de memória do protagonista. Afinal, quando tudo se inscreve como certeza, há pouco espaço para interpretações dúbias, o que acaba gerando um esgotamento psíquico nos personagens.

A pergunta aqui é o quanto este registro técnico eliminaria a possibilidade de esquecimento e, ao mesmo tempo, mataria a composição de subjetividade possível a partir do ato de esquecer e do mínimo controle que se tem da memória.

Não esquecer e ter tudo registrado exclui minha capacidade de inventar, de devanear, já que a memória é um bloco extremamente controlado nessa metáfora tecnológica. Como contraponto, minimiza o maior dilaceramento humano - a mortalidade -, no momento em que eu formalizo minha existência e ponho fim às desilusões da finitude.

Não à toa, as redes sociais carregam arquivos que vão desde o simples feito de se alimentar até a confirmação do acoplamento sexual, tangível em selfies pós-sexo. É como se a experiência real não desse conta do prazer esperado pelo sujeito, e por isso é necessário a aceitação do outro, reafirmando que o momento vivido por você se confirma enquanto realidade aceitável.

A vida que passa, e, ao passar, mata o instante, pode ser eternizada com esse signo imagético que é compartilhado e se transforma em verdade e memória. A tecnologia, assim, ganhou cores de uma promessa de eternidade.

Por isso é latente o contraponto dessa memória que escorre e se perde na pós-modernidade versus uma memória tecnológica que está mais ligada ao pós-humano, este período em que a tecnologia é parte do corpo e controla todo o processo de existência orgânica dos indivíduos.

Mais do que formalizar uma ficção de sua própria realidade, é preciso repetir isso à exaustão para que se continue pertencendo ao universo sígnico do ciberespaço, em especial, rearticulando assim toda a noção de memória como algo perene.

Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549.jpg Sisifo, de Tiziano Vecellio, 1548-1549 - Museo Del Padro, Espanha

Repetição e memória

Fazendo uso do conceito de Eterno Retorno proposto por Nietzsche, paira no ar o quanto o homem está programado para reproduzir copiosamente as mesmas visões e os mesmos comportamentos por uma vida inteira. Em certa medida, a repetição dessas imagens no espaço tecnológico coletivo confirma o imperativo de que se deve esquecer para lembrar.

Para o filósofo, o conceito define a memória como um vácuo perdido, que não tocamos nunca e que, por isso, coloca-nos na condição de condenados a beber da mesma fonte sempre.

Neste recorte nietzschiano, novamente, o que transborda é o esvaziamento da memória e também uma alusão ao Mito de Sísifo, no qual o homem desafia os deuses e é condenado a empurrar infinitamente uma enorme pedra penhasco acima. Na esperança de que isso um dia se finde, o personagem repete o feito como se olvidasse da própria vida diariamente. Porém, a pedra rola outra vez penhasco abaixo e o obriga ao mal-estar da repetição e da neurose.

"Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio”, proclamou Nietzsche.

Com ou sem memória, resta a dúvida do que serão os próximos dez minutos do mundo caso esse direito orgânico seja eliminado pela tecnologia.

O humano, demasiado humano, tende a escolher isso por milhões de vezes, reproduzindo e reproduzindo com antolhos esse status de morte em que estamos sempre no vazio a buscar algo que minimize a existência.

Em nosso modelo imediatista, centrado na busca por sensações para ontem, nos prazeres dos sentidos e das novidades, no divertimento, na qualidade de vida e na realização urgente de si, a (não)preservação da memória aparece como sulco fundamental.

Com sorte, quem sabe, a pós-modernidade também acabe esquecendo suas estratégias de controlar esta memória.

***

Referências

DIMARCH, Bruno Fischer. Mia Couto. A peneira e a água. São Paulo: Fronteiras do Pensamento, 2014.

ZYGMUNT, Bauman. Vida para consumo. A transformação das pessoas em mercadorias. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo. Viver na era do capitalismo artista. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

FELINTO, Erick. Obliscência: por uma teoria pós-moderna da memória e do esquecimento. Revista Contracampo, número 5. Niterói: IACS/UFF, 2002.

SANTAELLA, Lucia. Da cultura das mídias à cibercutura: o advento do pós-humano. Porto Alegre: Revista FAMECOS, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich. A gaia da ciência. Tradução Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

***

Texto disponível em espanhol em: Nicotina & Cafeína


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Dênis Matos