nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Trinta e um pássaros na boca

Uma não-carta para - e sobre - o meu amor


A natureza é disforme. Uniforme, só o que não se sabe e nem nunca se vai saber. Nenhum controle. Pergunto-me como posso tirar, de uma realidade de vida concreta, alguma filosofia de nenhum escalão? Nada de resposta, é só história que não quer ser contada, ela apenas é.

Aprendi que, como o mal é um derivado do bem, são nas diferenças que se formulam as completudes.

Conheci ela sem conhecer. Trabalhamos juntos faz uns anos, trocamos palavras vazias, alguns “bom dia” de corredor. Nunca nos olhamos no olho.

Sabia que nela havia qualquer coisa de muito, lhe sobrava palavra e gesto. Cabelo emaranhado, voz em tom corpulento, cor sua pra todo canto. Eu só não sabia o que, nessa época, poderia capitar naquele vão de muito.

Em mim, guardavam-se perguntas e ironias – além da acidez que começava a ganhar forma e, hoje, com alguma sorte difícil, ficou cítrica. A recordação desse período está intimamente ligada a uma nuvem de dia nublado. A vida foi e veio.

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Hoje tento palavras para entender o que não se explica. Hoje, forjamos vida juntos. Hoje, ainda não entendo. O que pouco sei é que há tantos três aqui refeitos, revisitados.

Tento palavras menos ininteligíveis para esclarecer. Tento palavras para nosso (re)encontro após três anos, nos mesmos corredores empresariais de outros seres.

Tento palavras por hoje celebrar o terceiro aniversário de sua existência em que a acompanho de mãos-dadas e pouco – ou nada – compreendo.

Tento palavras por este ser o terceiro ano que inventamos estória juntos e seguimos inventando.

Tento palavras porque nem em mais três vidas conseguiríamos nascer de poemas tão diversos e ter nos encontrado, na mesma estrofe, na mesma classe, pra lembrar o Leminski.

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Crescemos diversamente. Eu, envolvido em meus poucos detalhes que significavam o mundo todo. Ela, ágil, exuberantemente ativa, dedicando-se a suprimir os detalhes para poder tocar todos os mundos que aparecessem pela frente.

A ela, os passeios em todo o universo que chocassem com sua existência infinita eram bem-vindos. Eu, encerrado em mim mesmo, dedicava-me de corpo e alma à mais intensa e penosa profundidade de olhar muito para pouco.

Ela, divagando com velocidade descuidada através da vida, sem pensar nas sombras do caminho nem na corrida silenciosa do tempo, simplesmente sendo. Eu de freio-de-mão puxado para o que eu não pudesse tocar radicalmente.

Ela usando o fogo como ferramenta, a todo tempo. Eu, preferindo a um rastelo para arar a terra e ver o que há, onde nada se pode enxergar.

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Foi da desconexão que nos ligamos, dos opostos que não se traem mas se atraem. Ela foi aprendendo a ficar debaixo da coberta aos domingos, a abraçar o ócio como um presente divino e profundo, no qual o pouco é mais do que uma maneira de ser grande.

Quanto a mim, fui abrindo formas de ser para além do que eu sabia, para além do que eu teimava concordar, para além do que eu achava precisar. E isso crescia – e cresce – quando se utiliza coração e espírito para cuidar do incomum.

Ela me presenteou de alguma grandeza que sempre foi minha mas eu desconhecia. Pedi a ela que fizesse uso, sempre que possível, do simples, da generosidade e da delicadeza - que eram suas mas seguiam em desuso em meio ao mundo líquido. Assim funcionava: ia do simples ao complexo, da inquietação à plenitude, da insustentável leveza à reconfortante segurança.

Hoje, por muitas vezes, através das nuvens do crepúsculo ou ao meio-dia, vendo-a passar sobre mim, pela minha floresta existencial, contemplo-a, não como a mulher viva e palpável, mas como a de um sonho; não como um ser terrestre, carnal, mas uma abstração da realidade, indefinida e irregular.

Abstração que deram o nome de amor, esse sentimento que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique, nem ninguém que não entenda, assim como a liberdade de Cecília Meireles.

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A todos trinta e um pássaros da sua boca eu deveria dedicar algo, mas eles não cabem numa não-carta de amor.

Dedico-te, então, o assalto de seus pensamentos durante o trabalho. Dedico-te sonhos que você nunca sonhou e que eu não posso cumprir por ser imperfeito, incompleto, fragmentado, demasiado humano. Dedico-te minhas cicatrizes para que você as cure e refaça novas em seu nome (não posso viver sem elas!). Dedico-te um amor entrão, intruso, inconveniente. Dedico-te as feridas que você vai precisar relatar a um psicanalista freudiano clássico que não dá abraços para seguir me aturando. Dedico-te as unhas roídas, a perna trêmula na cama, e a mão quente que vai sob a sua nos dias de baixa temperatura. Dedico-te as perguntas sobre mim que você evita fazer. Dedico-te um beijo com gosto da minha escrita, para que você não se esqueça das palavras que eu trago na ponta da língua.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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