nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Um rolezinho com os flaites

Fenômeno cultural brasileiro segue de mãos-dadas a processo social existente no Chile. Não é coincidência, acaso, nada disso, e sim reflexo de um espírito do tempo globalizado no qual o consumo é a única via de ascensão social, tanto ricos quanto para pobres


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Há qualquer coisa de irmandade no rolezinho dos garotos de periferias brasileiras e no passeio de cores distintas feito por parte da juventude chilena apelidada de “flaite”.

Flaite é uma expressão tida como vulgar por aqui, e utilizada para se referir a pessoas “bregas”, uma espécie de subproletariado afeito a costumes ditos “inadequados” ao establishment.

Contexto santiaguino

A grosso modo, o flaite utiliza roupas de grife falsificadas, cortes de cabelo no melhor estilo Neymar, escuta reggaeton (reggae jamaicano mesclado com o hip hop e a cultura ganguista), vira e mexe carrega um gorro na cabeça e de maneira genérica e pejorativa é interpretado como um ladrão de baixo escalão, usuário de drogas e descolado do politicamente correto.

A ideia de o grupo ser compostos por “delinquentes”, como frequentemente anuncia a imprensa chilena, confirma a clássica visão de que alguns poucos casos individuais foram convertidos ao olhar genérico.

A lenda urbana é de que a palavra nasceu do tênis Nike Air Flight. Focados na composição de uma imagem de ascensão social, jovens chilenos com baixo poder aquisitivo começaram a utilizar cópias do calçado, compradas em camelôs e lojas de rua, criando a partir daí uma espécie de indumentária flaite.

O lugar-comum supõe que o movimento está mais para uma filosofia de vida ou moda, um jeito de se posicionar enquanto sujeito. Salvas as devidas proporções, o olhar de ascensão pela veia do consumo é o que liga o fenômeno social chileno ao rolezinho brasileiro, embora o convite aqui é ir um pouco além e resistir à tentação de apenas classifica-los.

flaite_elmostrador.jpg Camisas de times de futebol, em especial europeus, são referências para os flaites (imagem: elmostrador.cl)

Contexto paulistano

“Zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos” formulam desde 2013 o escopo atitudinal do rolezinho em São Paulo. O espaço escolhido para tal aparição pública, sabe-se bem, é o shopping center.

Acontece que esses centros comerciais, todo mundo sabe mas finge não saber, foram desenhados para que a juventude pobre e negra permaneça do lado de fora – e isso vale para a realidade chilena também. Adentrar o recinto, por si só, configura delito às classes médias (com M maiúsculo) paulistana e/ou santiaguina, que compreendem isto como afronta, como "assalto" ao capital simbólico que os diferenciavam da “ralé”.

Para esses meninos da periferia, a exaltação do luxo e do consumo é referência de ascensão social, de crescimento individual, de acesso a coisas até pouco tempo muito restritas às ditas elites econômicas. Que mal há em demonstrar esse processo num espaço coletivo?

Por isso, protegidos com suas vestimentas, cantando letras de funk ostentação a quem quiser ouvir numa visita ao shopping center, esses jovens se inserem, conectando-se a um universo de excessos que há muito lhes vêm sendo renegado.

Neste ponto, a música tem um papel fundamental, em São Paulo, e em especial seus videoclipes mais recentes, nos quais jovens reproduzem imagens de rapazes da periferia utilizando produtos que pretensamente pertenciam às classes mais abastadas, mas que em certa medida começam a ser consumidos com inúmeros esforços por pessoas com menor acesso financeiro.

Afinal, as relações sociais pós-modernas estão completamente arraigadas à busca de reconhecimento pelo consumo, pela posse de bens - e não à toa esses garotos entendem ser esta a maneira de chamarem a atenção.

Agora, o que soa mais bizarro não é o desejo de consumo dessa massa de excluídos, mas sim o tom abismado da classe média ao se deparar com a presença deles nos centros urbanos e rechaça-los - sendo que estes, claramente, pautaram tal comportamento como modelo a seguir.

“É como se a sociedade dissesse: ‘Vocês, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, só para zoar e cantar funk, aí já é vandalismo'”, analisa Alexandre Barbosa Pereira, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) especialista em manifestações culturais das periferias paulistanas.

À margem

Para engrossar o caldo da discussão, convém listar alguns fenômenos sociais que possibilitaram o embrião para movimentos como esses, além de registrar que é no mínimo curioso – ou até sintomático – a existência de processos tão semelhantes em terras aparentemente distintas.

Tanto o flaite quanto os garotos do rolezinho se constituíram discursivamente no chamado limite social, à margem do quase impossível, aquela brecha que o sistema não conseguiu tamponar com regras pré-estabelecidas para os diferentes estratos culturais e econômicos. Eles simplesmente existem.

No Brasil, a priori, o movimento também desenrolou-se na mesma seara e flerta com a visão de mundo do comprar como método de inserção, como já dissemos. Há um esforço colossal para adquirir o Mizuno mais caro, a camiseta Hollister, os óculos espelhados da Oakley. O tradicional encontro nos shopping-center da cidade é o desdobramento dessa “pseudo-ostentação”, onde ocorre o “dar as caras”.

pawel-kuczynski.jpg Obra do polonês Pawel Kuczynski discute o tema da desigualdade social em várias esferas (imagem: pawelkuczynski.com)

O flaite, na mão contrária mas vizinha, se insere de maneira “falsificada”, utilizando cópias feitas por mãos asiáticas, tanto de roupas quanto do pisante, com materiais e processos de produção arraigados à má qualidade – não que o original também não seja composto a partir de um sistema de exploração em linhas pré-industriais praticamente clandestinas.

No frigir dos ovos, a história é análoga: ambos querem se aproximar do lugar das “elites culturais e econômicas” de seus países, ganhando relevância no contexto social ao obter e ocupar produtos e espaços simbolicamente reservados às classes mais abastadas.

Estas, por sinal, incomodam-se copiosamente com ambos os fenômenos, alegando temer a dita “violência” comum ao recorte noticioso reservado aos dois grupos.

Antigas oligarquias

É a mesma elite que se sofre de aversão com os aeroportos lotados de “passageiros de primeira viagem”; com as filas dos museus repletas de “pessoas que não conhecem nada de arte” e “só querem fazer selfie juntos às obras”; ou com os shoppings de “luxo” ocupados pela “ralé” brasileira, como define em tom irônico o sociólogo Jessé de Souza.

A disputa nestes espaços em nenhuma medida é objetiva ou prática: trata-se da massa de “pobres” tomando espaços antes ocupados somente pelo patriciado, pelos nascidos com alma de aretê – estes agora se veem invadidos e aliciados por terem que dividir seus capitais simbólicos de inserção cultural com pessoas entendidas como “menores” ou “não dignas” de tal privilégio.

É algo que escapa a compreensão do ponto de vista da segmentação social, do fenômeno constitutivo de tais processos, já que toda a análise da natureza humana é sempre subjetiva e intangível. Ela simplesmente é, ainda que siga incognoscível em alguns aspectos.

Como apontou Lacan quanto à existência do Real, que não se pode captar, o que chamamos de sociedade é uma tentativa precária quanto a qualquer estruturação precisa e irrefutável. Por definição, o social sempre excede a sociedade.

Por isso, e vale sublinhar, esmiuçar esses fatos sociais é algo sempre no espectro de compreensão possível – e aberto a outros debates – da luta de classe gerada pela aparição do rolezinho ou dos flaites. São culturas variadas, compostas em países geograficamente e economicamente particulares, mas que respondem à relação pós-moderna e quase global de inserção coletiva pelas veias dos capitais cultural e econômico.

E aqui reside a impossibilidade ontológica de colocar etiquetas tão fixas nesses dois movimentos sincréticos e nascidos do processo histórico, da rua, do que acontece fora dos limites controláveis da imprensa, das grandes corporações, do status quo como um todo.

rolezinho - gedeles.org.br.jpg Rapaz é notificado em shopping paulistano por ser reconhecido como pertencente ao rolezinho (imagem: geledes.org.br)

Um sistema para qualquer um, mas não para todos

Como examina o sociólogo chileno Gustavo Andrés Sánchez, a sociedade vai estruturar-se por meio deste jogo permanente e subjetivo de inclusão e de exclusão, compondo o desenho de alguma estabilidade aplicável. Ou seja, o capitalismo é um sistema em que qualquer um pode qualquer coisa, mas não todos: para que eu consiga, é necessário que você seja passado para trás.

E esse é o jogo que interessa à análise. A partir do aforismo do qualquer um mas não todos, nascem formas variadas de lidar com a exclusão: jovens que estão à margem tentam fazer verão em seus cotidianos ao consumir determinados produtos e comportamentos.

É uma espécie de superfície discursiva com o limite que separa o “nós” do “eles”, valendo-se de um choque constante para angariar hegemonia mediante ao jogo democrático.

Tanto o rolezinho quanto o personagem flaite concretizam o significante para este limite social. É deles a lembrança transparente de que essa brecha é quase intransponível, não se rompe com facilidade. Nem moda, nem filosofia, nem maneira de pertencer: essas são maneiras minúsculas de enxergar. O que está na entrelinha é um conflito de classes mais sisudo.

Excludente e precário

Num sistema que pouco trata o fantasma da desigualdade social e da inclusão cultural, é natural que movimentos como esses germinem como rabanetes. Isto tem cerne claramente num estatuto precário, no qual o modus operandi do capitalismo não desfruta da melhor das imagens.

Como lucidamente observa Jessé de Souza, hoje também presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), há um modelo de “corrupção organizada” que copiosamente vai trazer resultados.

Para o cientista social, o representante caricato do engravatado que frauda balanços de empresas, arruina seu acionista minoritário, pratica manobras que colocam países inteiros em profundas crises – sem nenhum drama de ir para a cadeia, salvo algumas poucas excessões – contribui e constrói um componente sígnico de injustiça generalizada.

Na contramão, há os “criminosos” de verdade: o batedor de carteira pobre que vai enfrentar o esquecimento e a omissão, que depende da máquina pública para dar conta de sua vida e julgar seus atos. Enquanto isso, o primeiro vai figurar na capa da Time como o empresário do ano.

Este processo somente é possível com o modelo complexo do sistema, no qual os mais ricos controlam todas as delimitações discursivas, com a atuação constante de seu exército de condescendentes “nos tribunais, nas salas de aula, nos jornais e em todas as dimensões do cotidiano onde a defesa dos privilégios dessa pequena minoria e de seu sócio menor está em jogo”. Ou seja, quem dita as regras da realidade também dita as regras de até onde se pode ir.

Artista polonês Pawel Kuczynski.jpg (imagem: pawelkuczynski.com)

Conceito de justo

O que o rolezinho ou os flaites têm a ver com isso? No mínimo, e vale limitar-se somente à leitura brasileira, muito. O tecido social proveniente de um sistema que transforma em justo os interesses dos mais poderosos vai deixar latente a fronteira entre os “desclassificados sociais” e os "donos do poder".

Assim, manifestações culturais como essas expõem a luta simbólica das classes menos abastadas na tentativa de pertencer a um contexto em que comprar é a veia primária de existir.

“Esses fatos são mais um reflexo do apartheid brasileiro que separa, como se fossem dois planetas distintos, o espaço de sociabilidade dos brasileiros 'europeizados', da classe média verdadeira, e os brasileiros percebidos como 'bárbaros', das classes populares. Desde que a barbárie fique restrita ao mundo das classes populares, ela não é um problema real”, definiu Souza para O Estado de São Paulo.

É aí que ocorre a chamada ameaça à fronteira de classes, tanto brasileiras quanto chilenas, uma vez que os jovens periféricos rompem com o espaço que lhe foi simbolicamente delimitado e supostamente não deveria ser ultrapassado. É a confirmação de que o processo discursivo de controle da massa falhou, e que os títeres do empresariado e do Estado terão que olhar para a verdade concreta da exclusão econômica e, pior, cultural.

De saída e com tom de eufemismo, é pura sovinice enxergar o mundo desse prisma de que há limites para o ir e vir. Do outro lado, a simples relutância de processos como o rolezinho, por si só, demonstra – ainda que com freio-de-mão puxado – o ganho democrático necessário para a constituição de países plurais e com menor grau de tolice, intolerância e mesquinharia.

Um pouco de visão humanista e generosidade podem constituir-se como cura desse apartheid cultural e da possibilidade de (re)construção de uma sociedade menos preconceituosa e excludente. Essa ponte entre os vários Brasis e os vários Chiles, notadamente, só pode ser feita com a permanência de rolezinhos e flaites da vida. Que eles sigam vivos.

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Referências

BRUM, Eliane. Os novos “vândalos” do Brasil. El País, São Paulo, 23 dez. 2013. Coluna.

MARSIGLIA, Ivan. O rolê da ralé. O Estado de São Paulo, São Paulo, 18 jan. 2014. Caderno Geral.

Pau de selfie é vetado em museus no país e no mundo; veja onde é proibido. Portal G1, São Paulo, 13 mar. 2015.

SÁNCHEZ, Gustavo Andrés. El flaite y el discurso de la sociedad chilena. El Mostrador, Santiago, 18 feb. 2016. Caderno Opinión.

SOUZA, Jessé De. O caminho da inclusão. O Estado de São Paulo, São Paulo, 25 out. 2014. Caderno Aliás.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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