nicotina cafeína

a vida é como um vício

Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível

Bonecas de papel higiênico e a noiva israelense

Longa-metragem do Oriente Médio trata dos sonhos adolescentes e do que é estar apaixonado pelo amor


Wedding Doll Moran Rosenblatt, protagonista de Wedding Doll (weddingdollthemovie.com)

A inocência não tem espaço no mundo. Em nenhum mundo. Em nenhum lugar do mundo. Tampouco o mundo se realizaria sem colocar à prova tudo o que um dia já chamamos e entendemos como pueril.

Não sobra nem a didática infância. Aquele universo sutil de liberdade e pulsão, já sabemos, em algum momento deparou-se com a ferida e rasgou a inocência. O então desconhecido hiato de dor, depois de seu primeiro “oi”, apodera-se da sensação angustiante que é existir e produz algo novo – nem melhor, nem pior.

Esta é talvez a mensagem principal que o longa-metragem israelense Wedding Doll deixa para o espectador. Preparem-se os sofredores, porque vai doer; ainda que escorra algum sulco de beleza deste processo.

Produzido em 2015 e dirigido por Nitzan Giladi, Hatuna MeNiyar (nome original) conta a história de Hagit, uma adolescente que sofre de um leve retraso mental e que, para dizer o mínimo, está apaixonada pelo amor.

Vivendo com a mãe, Sarah, numa pequena cidade no deserto de Negev, sul de Israel, a jovem passa as noites fazendo bonecas vestidas de noiva, a partir de sobras de material da fábrica de papel higiênico onde trabalha.

A latente superproteção materna de alguma maneira contribuir para que, neste trabalho manual, Hagit devaneie entre o híbrido do amor infantil e o amor adulto. A mãe, neste contexto, também se divide entre o desejo de proteger a filha e suas próprias vontades de viver e lidar com o amor que também lhe cabe.

Wedding Doll

As bonecas, aqui, funcionam como metáfora. É delas que nasce a fenda de esperança de que o amor vai surgir como presente, tanto para a mãe quanto para filha.

À Hagit, ele - o amor - floresce de maneira precoce, como tulipas na primavera, quando a protagonista inicia um romance com Omri, filho do dono da fábrica onde trabalha – e oculta o fato à Sarah.

Wedding Doll Omri (Roy Assaf), a noiva de papel higiênico e a protagonista Hagit

Com o anuncio de fechamento da fábrica, entra em perigo a conexão que Hagit acabara de começar com o amor romântico; obrigando-a, em alguma medida, a abrir mão de toda a inocência que um dia a habitou e a olhar o amor nesta perspectiva dúbia que lhe cabe. Tal enredo serve de espelho, no qual nos vemos a todo tempo.

Obra de ficção, está é também uma obra sobre todos os humanos. Uma obra sobre aqueles que vão descobrir no outro, cedo ou tarde, alguma luz de vida; somada à escuridão a que se está exposto pelos simples fatos de existir e de depender deste outro.

É também uma obra sobre desnudar o fio da inocência que um dia já esteve em nós, aquele sentimento profundo de que tudo pode ser um sorriso - ao mesmo tempo que é lágrima.


Dênis Matos

se fumar é uma maneira discreta de ir queimando as desilusões perdidas, e o café é uma poção mágica para ler e entender o mundo, escrever com nicotina & cafeína pode ser o caminho para reproduzir o irreproduzível.
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