no boteco

Onde começa a conversa que te tira o sono

Bruno Baader

Historiador, amante da música e da fotografia. Enxerga na cerveja a saída para a camisa de força.

A dois escrachos do paraíso

Palavrões: libertadores para quem fala, ofensivos para quem ouve. Gramaticalmente, podem ser adjetivos elogiosos ou desqualificadores, advérbio de intensidade ou substantivo, mas sua existência transborda a esfera gramatical e invade a esfera social – se é que é possível separar gramática e sociedade -, compondo um mundo tão negado quanto interessante


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Do ponto de vista biológico, os palavrões nascem na região cerebral conhecida por sistema límbico, a mesma que é responsável pelas emoções. Talvez, isso explique porque o “filho de uma puta”, proferido depois de você bater o dedinho na quina de um móvel da sua sala, pareça ter um efeito tão analgésico.

Mas é quando falamos sobre sua capacidade dinâmica e seu caráter libertador e transgressor é que os palavrões ganham uma aura quase divina. Em primeiro lugar, cabe salientar que o ato de dizer um palavrão está estreitamente ligado ao ato de transgressão: é uma forma de comunicação não aceita em grupos sociais maiores e, portanto, expressa uma insurgência do indivíduo contra um conjunto de coisas postas que o desagrada. E, neste sentido, até a escolha do palavrão segue uma lógica bastante razoável, uma vez que o palavrão é ofensivo na medida em que aquilo a que seu significado se refere se apresenta como um tabu para a sociedade e, neste caso, os exemplos de palavrões estão quase sempre ligados a relações sexuais (ou aos genitais) e aos excrementos. Ou seja, a tudo aquilo que a sociedade, quase sempre hipocritamente pudica, joga para debaixo do tapete.

Para ilustrar o que se pretende dizer, basta recorrermos à análise da relação entre dois exemplos. Cagar (ou merda) e mijar (ou mijo). Ambas as ações e seus produtos são evitados pela sociedade. No entanto, é comum, principalmente no carnaval, vermos pessoas urinando na rua e, grosso modo, o cheiro de urina presente nos cantos mais escuros da cidade são mais tolerados por você que o cheiro de fezes do seu próprio banheiro. Igualmente, as palavras que se referem às duas práticas soam como palavrões de pesos diferentes: “cagar” ou “merda” é, de forma consagrada , um palavrão, enquanto “mijo” ou mijar” é, no máximo, uma gíria não muito adequada. E essa hierarquia de palavrões continua ad infinitum, para todos os palavrões: derrubar um copo com água sobre a mesa é um ato de distração que merece uma repressão com um “merda”. Mas derrubar café quente sobre si mesmo quando se está atrasado para o trabalho é uma catástrofe cotidiana que merece um “caralho” (um “merda” neste caso não traria a catarse desejada quando se profere um palavrão), um dos mais pesados dos palavrões, isso porque os órgãos sexuais compõem, junto com o sexo, o conjunto de tabus da nossa sociedade.

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Isso nos leva a uma outra verdade: os palavrões têm vida útil. Coisas que eram indizíveis há alguns anos tendem a compor o vocabulário de forma menos chula e, portanto, mais adequada. Um bom exemplo disso é “bunda”. Definida como “o conjunto composto por nádegas e ânus”, “bunda” já foi uma palavra daquelas para não se falar perto de seus avós. No entanto, com o passar dos anos, passa a ser mais aceito, num processo que ilustra o dinamismo do idioma. A língua é viva! Processo parecido, num sentido inverso, ocorria com palavras ou expressões que faziam referência ao Diabo: várias palavras ou expressões foram criadas e, na medida em que elas passavam a compor o imaginário coletivo como uma referência ao Demônio, eram transformadas em tabu e, portanto, abandonadas, criando-se outras: “Cramunhão”, “Filho do Cão”, “Cão” e chegando-se ao absurdo, mas criativo “Aquele que não podemos dizer o nome”.

Não obstante, cabe, ainda, observar que os palavrões guardam uma peculiaridade bastante curiosa. Eles, em muitos casos, assumem sentidos opostos e que variam em função do contexto de toda a frase ou de algum outro elemento gramatical que não tem nenhuma ligação com o próprio palavrão. Vejamos as frases:

Meu irmão é um filho da puta que não para de invadir o meu quarto” e “Meu amigo é um filho da puta, joga bola pra caramba!”.

Não é necessário dispender muita atenção na análise das frases acima para descobrir que “filho da puta” tem sentidos opostos nas frases. São, portanto, antônimos de si mesmos. O mesmo ocorre com a palavra “caralho”. A frase: “O trânsito nas grandes cidades é um caralho!”, - que, aliás faz bastante sentido – carrega um palavrão com um sentido totalmente oposto ao dessa outra frase: “Essa banda de rock é do caralho!”.

Observa-se, assim, que, neste caso, o artigo (“um”) e a preposição (“do”) são as únicas responsáveis por criar a oposição dos sentidos da mesma palavra nas duas frases. Mais uma vez, a palavra de “baixo calão” (a mais notada) é a de menor importância da frase. E essa regra se repete com “foda”, “buceta” e toda a longa lista de palavrões disponíveis na língua portuguesa e que a cabeça inocente deste autor é incapaz de pensar neste momento.

Pronto, agora você já pode usar do poder libertador dos palavrões, pensar sobre um dicionário de palavrões e avaliar em que ocasião cada um pode ser usado. Tudo bem querer transgredir e demonstrar seu descontentamento pelo encontro truculento entre seu dedinho e a quina do sofá, mas pondere que só merece ser mandado para a "casa do caralho" quem te chamou de "merda".

Nota: O desejo de protagonismo não pode ser mais forte que a tentativa de fazer justiça ao reconhecer que esta reflexão é a extensão de uma conversa tida numa mesa de bar com três amigos: Sid Castro, Silvia Castro e Diogo Aquino.


Bruno Baader

Historiador, amante da música e da fotografia. Enxerga na cerveja a saída para a camisa de força..
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