no meu tempo de quadra

Diga não, uma mente bitolada não!

João Vitor Rocco

18 anos, estudante de Jornalismo, contrário a direita e também a esquerda da política Brasileira, admirador dos anos 90 (Rap dos EUA) e das décadas de ouro do Samba no Brasil.

O indivíduo dentro do transporte público


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Você já se perguntou qual o nome da pessoa que está sentada do seu lado no metrô?  

Qual história o passageiro de ônibus que você pega diariamente tem pra contar? 

Ou qual seria o destino final de todas as pessoas que você vê nos terminais da vida? 

 Nós fizemos isso, e descobrimos que as histórias se parecem, mas não são todas iguais... Aos 19 anos de idade, a rotina é acordar cedo, tomar conta de uma criança, enfrentar cerca de vinte estações diariamente, e o sobe e desce da vida urbana paulista. Entre inúmeros jovens com sonhos e objetivos diferentes, lá está ela. Mas afinal, o que difere este relato de tantos outros? É isso o que descobriremos juntos. 

 

   Carapicuíba, 27 de Abril de 2015. “Meu nome é Mayara Ferreira, e tive que decidir entre permanecer no meu trabalho ou ir atrás de um antigo sonho meu...”. Se isso fosse uma biografia, este seria o começo da história de uma jovem mulher, que vive na Zona Metropolitana de São Paulo, mas precisamente na cidade de Carapicuíba, 1,64m de altura, cabelos cacheados e lábios grossos. Mayara nos conta detalhes de uma vida urbana na maior cidade da América Latina. Sempre olhando para o relógio, seja ele de pulso ou no celular, é que ela sabe que alguns minutos de atraso, e podemos perder o primeiro ônibus do dia. 

   Durante os cinco dias da semana ela caminha cerca de nove minutos até o primeiro ponto de ônibus. A primeira parada? A estação Antônio João, localizada em Barueri. Enfrentamos cerca de vinte estações de trem, até chegar a Santo Amaro, nosso destino final. Logo, descobrimos que o rolê de duas horas até a Zona Sul de São Paulo local onde Mayara cursa Moda, é apenas um, dentre tantos problemas enfrentados. A jovem revela que já foi vítima de assédio sexual dentro deste espaço. Perguntada sobre o sentimento que tal ato causa de maneira desconfortável ela só diz “Impotência”. Nesse exato momento, nos colocamos no lugar dela, em meio a um vagão lotado de pessoa, era a revolta daquele jovem que representa a revolta de inúmeras mulheres que passam por esse incômodo diariamente. Um exército armado com fone de ouvido seria a definição que encontramos para tantas pessoas sentadas, em pé, apertadas e ouvindo música, onde a guerra é vencida quando se chega ao destino e você consegue pisar na plataforma.

    A frota de transporte público é pouca, e o espaço, apertado. É inevitável perguntarmos sobre os protestos que rolaram em Junho de 2013, contra o aumento da passagem. “Eu fui a favor, inclusive estive no protesto". Quando questionamos a estudante sobre o passe livre, uma rápida conta foi feita, com o cartão PEC e o bilhete único ela economiza 50% (tinta e cinco reais por semana). Na verdade não é ela que economiza e sim a senhora Cláudia, que banca os custos das “aventuras” da filha. Já que tocamos no assunto família, ficou bem claro pra gente como uma família estruturada influiu para as escolhas daquela jovem, a criança que Mayara cuida é seu irmão, Pedro, de nove anos, e quando estávamos na casa deles deixou claro que o sonho dele não é fazer moda e sim robótica. Mayara aponta a grande burocracia e lentidão no processo para a validação do cartão: “Tem que pedir a declaração escolar, o documento que comprova que estou estudando. Até ai beleza, já que para o qualquer cartão para estudante tem a mesma burocracia, mas toda vez que tento o contato com os responsáveis acabo ficando em uma lista de espera gigante e sempre começa outra fila, uma hora é pra chegar onde eu moro, a outra é pra confirmar meu endereço, também tem a carga diária de estudo, são várias e várias listas e os dias vão passando. Quando autorizarem meu passe livre eu já vou ter terminado o curso em Agosto”.

   O bate papo é ouvido por muitas outras pessoas que estão ao redor, que expressam na maioria das vezes um balançar de cabeça que confirma que muitos passam ou conhecem pessoas que enfrentam o mesmo problema. Com um sorriso, ela volta a falar do sonho explica: “Como ganhei a bolsa que só tem nesse Centro Universitário queria ter certeza se era isso que queria pra minha vida, sempre gostei de moda e apareceu a oportunidade perfeita para aprender mais”. Quando estamos no último trecho dentro da estação, ela mostra no celular uma série de fotos, com produção, edição, maquiagem, fotografia tratadas e vários detalhes artísticos. No fim brinca “Não é sempre que da pra fazer chapinha igual nesse dia”, toda vez que ela cita algum trabalho feito por ela percebemos o quanto ela gosta do que faz, o quanto vale a pena ter ido o mais longe pra fazer o que está mais perto, já que a moda está mais que somente nas roupas dela, está na identidade, na cabeça, no coração. Mesmo sendo cotista social, revela que sofre com a desinformação de alunos sobre o sistema de cotas, instituído no Brasil em 2012, visando maior acesso as Universidades para todos: “No começo os alunos de outros cursos insinuavam que a gente recebia ajuda de custo, na alimentação e no transporte também.”

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    Nossa reportagem não visa entrar em detalhes estatísticos e sim o lado o humano de se por no lugar do outro, seja esse lugar o banco de trás do ônibus, o passageiro do lado do trem, ou o colega da outra sala do final do corredor que você só sabe o nome, o sobrenome ou o Facebook. Enquanto caminhamos até o Campus, localizado em Santo Amaro, Zona Sul de São Paulo, Mayara nos alerta para o perigo do local. Desde o início do seu curso estuda no período da manhã, ela e outros alunos caminham desconfiados por uma rua deserta onde se localizam empresas de caminhões. O lugar está mais para estacionamento aberto, não passa policiamento, e isso causa revolta nos alunos que deixam claro a sensação de insegurança. Existem dois horários de pico, o da chegada dos estudantes e o da saída dos mesmos, a decisão de ter uma viatura no local nesses horários seria óbvia pra qualquer adolescente estudante de moda, ou não, mas para governantes experientes e altamente remunerados parece complexa e desnecessária. 

   No primeiro contato que tivemos com a Mayara, não sabíamos nada sobre o lugar que ela estudava, coincidentemente ou tragicamente, na segunda vez que pesquisamos sobre o SENAC – Largo Treze, nos deparamos com o seguinte título no site do Jornal Metrô: “Estudante é morto com um tiro na cabeça na frente da faculdade em São Paulo”. Claro que após lermos isso procuramos a jovem que abriu mão de seu antigo emprego, como assistente de logística, para estudar moda no mesmo colégio que o jovem baleado no rosto. Exatamente três dias após a morte do estudante, entramos novamente em contato com a jovem. Ao ser perguntada sobre o caso que, a mídia mostrou como um acidente, foi na verdade uma tragédia anunciada, ouvimos a seguinte resposta: “Hoje mesmo estava indo pelo mesmo caminho pra lá e dois rapazes em uma moto passaram por mim e estavam armados, fiquei em pânico, com muito medo mesmo! Já foi feito um abaixo assinado que quase todos aderiram, mas até agora não tem mudança, uma pessoa já morreu vão esperar quantas mais morrerem?”, indagou. A palavra morte, aliás, é pouco pensada entre jovens. Afinal, todos planejam o futuro com muitos caminhos a serem seguidos e nenhum aceita a intromissão dos pais, amigos e muito menos esperam que o caminho escolhido chegue ao fim der repente. Durante esse último contato que tivemos com ela, percebemos que a sonhadora, que nos mostrou seu portfólio já demonstrando o interesse em arrumar um trampo, deu lugar a uma mulher com medo de ter o sonho interrompido.

  Foi nesse momento que nós, que também somos jovens e que temos o sonho de ser jornalista também tínhamos medo por ela, e mais do que isso, percebemos que a primeira pergunta que foi feita no início dessa matéria “O que difere esse relato de tantos outros?” tem como resposta quatro letras igual a palavra medo, NADA. Se você chegou até aqui, é pelo motivo de você ter se identificado com os dramas de uma jovem, que você provavelmente pode ter cruzado, visto ou até dividido o mesmo ambiente que ela, e que certamente ignorou-a, como inúmeros de outras pessoas com várias idades, cores e tamanhos, que tem exatamente o mesmo problema, que você e que ela. Sim, os mesmos problemas, que nós temos... a grande diferença é que ela aceitou que a gente pudesse abrir nosso olho com os problemas que ela enfrenta, e que quando você ouvir na televisão que cerca de 2.092 bilhões de pessoas utilizam o transporte público em São Paulo saberá que a Mayara está nesse montante, que quatro jovens estudantes de jornalismo estão no mesmo aperto que você. Então, vai caber só a você se importar ou não, com a dificuldade, problemas e diferenças entre pessoas idênticas no trajeto, na idade, no meio de locomoção e com sonhos completamente diferentes. 


João Vitor Rocco

18 anos, estudante de Jornalismo, contrário a direita e também a esquerda da política Brasileira, admirador dos anos 90 (Rap dos EUA) e das décadas de ouro do Samba no Brasil..
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