no rastro de clio

História e Reflexões

Claudio Murgia

Sabedoria e reflexão, o resto é silêncio.

O homem e o tempo

Há dez mil anos éramos sapiens regidos exclusivamente pelas regras da natureza. Nos organizamos em grupos maiores e compreendemos os fenômenos meteorológicos, embasados por uma crença em deuses controladores do tempo. A era cristã cristalizou a influência religiosa em torno de uma simbologia equivalente. A reviravolta viria com os avanços da Idade Moderna e o domínio do mercado, que levaram o homem à condução do relógio da vida. Todavia, logo perderíamos o controle do mesmo e nos tornaríamos escravos dos nossos avanços. O que fazer para mudar?


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O homem pré-histórico compreendia a passagem do tempo por meio dos astros e de fenômenos naturais. Isso fazia com que nossos ancestrais mais primitivos tomassem como referência única a natureza, para cultivar o solo, cuidar da colheita e dos animais. Passado o Neolítico, os egípcios sabiam que o verão estava começando quando o rio Nilo atingia seu volume máximo, o que era perceptível pelos ciclos solares, assim calculavam o período entre as cheias e marcavam quantos dias possuía o ano. Para os gregos a Lua era o parâmetro cronológico. Seguindo os povos da Babilônia, os helenos serviram-se do calendário lunar e, a partir dos eventos meteorológicos ocorridos em cada estação, nutriam a crença de que diversas divindades interviam nos ventos e trovões, nas chuvas e tempestades.

Chegada a Idade Média, a influência da religião cristã torna-se fundamental à questão temporal, já que as escrituras – desde o Antigo Testamento até o nascimento de Jesus – dão aos clérigos a “posse” do relógio do homem medieval. Os ofícios religiosos ditam o ritmo das atividades de artesãos, pequenos mercadores e das demais classes comunais, mediante o toque dos sinos. No interior dos castelos, a nobreza também dependia do calendário litúrgico para o estabelecimento de celebrações e projetos de ordem política, cuja importância ia da distribuição de títulos até a deliberação sobre invasões e guerras. Do surgimento do homem até a Baixa Idade Média – entre o século XI e o Renascimento –, podemos dizer que o tempo foi fundamentado pelo crivo do sobrenatural. Em pouco mais de onze mil anos, mitos, deuses e, sobretudo o cristianismo, consolidaram toda a simbologia temporal da humanidade.

A virada ocorreria na transição do Medievo para a Idade Moderna (séc. XV), período em que as expedições marítimas ampliaram consideravelmente a noção do homem para com o mercado. Muito além do comércio até então baseado na tração animal ou em embarcações arcaicas, a tecnologia das grandes navegações – apoiada na caravela e por instrumentos como o astrolábio e a bússola – mudará para sempre o entendimento cronológico do ser humano. O espaço, mensurado por distâncias cada vez mais dilatadas, agora será precificado, calculado não mais pelo calendário divino, mas por uma doutrina secular, mercantilista. Com o colapso das colônias e aumento significativo das metrópoles europeias, a iminência de se criar um sistema tecnológico capaz de multiplicar a produção e gerar riqueza culminou na Revolução industrial. A paisagem urbana se modifica em países precursores do movimento (Inglaterra, França e Alemanha) e o relógio da fábrica dita a cadência do operário, cuja vida é agora sistematizada pela produção massificada. Expressões como: “Tempo é dinheiro” e “É preciso ganhar tempo” são cunhadas na sociedade industrial. O pequeno agricultor, antes habituado com a paisagem bucólica do campo, onde realizava seu trabalho de maneira pacata, sobrando-lhe momentos de convívio com a família, é atraído pelo ritmo vertiginoso da cidade. Neste cenário, ele será mais uma entre tantas engrenagens no arcabouço da urbanização.

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As guerras na Europa, entre os sécs. XIX e XX, despejaram um vasto contingente de imigrantes na América. Impulsionados por esta mão de obra de alta capacidade técnica, os Estados Unidos pouco a pouco se apoderam da hegemonia temporal. Ferrovias cruzam o território ianque em velocidade exponencial, e logo as grandes corporações internacionais convencionam horários comerciais que os atendam de maneira uniforme. A instituição dos fusos horários é mais um impulso global do homem moderno, empenhado em reger a sinfonia de uma época progressivamente alicerçada na corrida pelos preciosos minutos da produtividade. O que se convencionou chamar de “Corrida contra o tempo” desencadeou o frenesi científico que levou a uma aceleração jamais vista na história: passamos de raça controlada pela natureza a entes gerenciadores do tempo e do espaço. Chegamos à Lua e dominamos máquinas aptas a atravessar o mundo em 24 horas, ainda que para se conectar não fosse mais necessário correr céu e mar. As comunicações via satélite o fariam, subitamente, em formato de voz e vídeo. E-mail, Internet, redes que abreviam o espaço de milhares de quilômetros, de forma a converter dias em segundos, logo nos levariam a navegadores do século XXI.

O alto volume de informações processadas em pequenos intervalos torna, à primeira vista, as sociedades mais prolíficas e lucrativas do ponto de vista financeiro. Por outro lado, traz à tona o imediatismo nocivo, à medida que as transforma em escravas do prazo. Queremos tudo e com rapidez: estudar, trabalhar, agendar o médico, buscar os filhos na escola, fazer refeições, nos exercitar, cuidar do lar e da família... Organizar o tempo para dar conta desta agenda sufocante engendrou o desenvolvimento de dispositivos – laptop, smartphone, tablet – capazes de congregar uma gama de ferramentas, agora, indispensáveis ao homem contemporâneo. Tão úteis e poderosos, dão a sensação de abraçar o mundo, uma vez que nos conectam a redes sociais, possibilitando, até mesmo, a conquista de milhares de amigos, ainda que não falemos com eles ou sequer os conheçamos.

O tempo atual é o de atividades e sensações com a fluidez da água escorrendo pelas mãos. Ele é formado por um exército de ansiosos e deprimidos buscando algo que não se sabe exatamente o quê, como se não houvesse rumo a seguir, dentre tantos caminhos e possibilidades. Assim, de modo que retrocedêssemos dez mil anos, em consonância com a vida pacata de nossos antepassados, queremos “dar um tempo”. A desaceleração vem por meio de terapias, meditação, relaxamento, enfim, algo que nos remeta a uma essência natural e menos angustiante. A vida mais longa, possível graças aos avanços da medicina, não é agradável se ela não for também equilibrada. A era do mercado como um fim em si mesmo vem se mostrando caótica, injustificável do ponto de vista da sobrevivência da civilização. Talvez o homem esteja começando a mensurar o valor do tempo, não como negócio, mas por seu caráter mais relevante e imanente: a transitoriedade.

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Claudio Murgia

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