no rastro de clio

História e Reflexões

Claudio Murgia

Sabedoria e reflexão, o resto é silêncio.

Saia um pouco de si

Que a grande maioria das pessoas não gosta de ser contrariada nós sempre soubemos. No entanto, poucas vezes paramos para pensar por que há tanta gente irritada ao não ter suas expectativas atendidas rapidamente. Será necessário viver tentando se autoafirmar?


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Esperamos das pessoas o que elas não podem nos dar. Isso ocorre porque enxergamos nelas - sobretudo em quem julgamos ter mais afinidades - um outro Eu.

Daniela é amiga de Fabiana porque vê nela características que ela, Daniela, tem (ou pensa ter) ou, ainda, características que admira, mas não é capaz de reproduzir. Segue-se o pensamento: "Fabiana inspira minha confiança, pois atende todas minhas expectativas. Ou ao menos a maior parte delas".

Dessa maneira, quando Fabiana deixa de ser menos Daniela e demonstra um lado conflitante à personalidade desta, o sentimento é de ruptura. Agora Fabiana não é mais tão amiga como Daniela pensava.

A interpretação sintética deste exemplo, à luz da psicanálise, é saber lidar com o Eu narcísico. Sem querer aprofundar em um campo demasiado analítico, cabe ao ser humano deixar de se procurar na vida alheia.

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Num mundo repleto de situações que enfatizam o egocentrismo, estamos constantemente sendo empurrados para dentro de nós mesmos. Traduzindo: buscamos a todo tempo em nosso ciclo social respostas rápidas para nossos questionamentos, ainda que os personagens deste entorno não estejam aptos a dá-las. O resultado deste desencontro pode ser angústia, raiva, melancolia.

Uma alternativa de âmbito comportamental à vida centrada no Eu é desenvolver o pensamento neutro. Ao contrário do que muitas vezes imaginamos, não seremos mais infelizes ao interferirmos menos nas ações externas. Optar pela imparcialidade em situações cuja complexidade independe de interferência imediata não nos faz desumanos. Pelo contrário, nos ensina a absorver o entendimento à temática central do texto: diminuir as expectativas sobre parceiros, familiares, amigos, colegas de trabalho.

Trocando em miúdos, somos menos capazes de alterar a ordem das coisas do que imaginamos. Em geral, há uma comunhão de fatores que, alinhados ao tempo, são necessários ao amadurecimento de respostas. E estes fatores podem ser tão subjetivos quanto o potencial de maturação de cada um.

O choque entre tantos egos inflados criou um mal-estar coletivo comum ao século XXI. As relações interpessoais são o reflexo da sociedade consumidora de status. Somos predadores de nós mesmos. Estimulados à caça da felicidade a qualquer custo. Mesmo que para isso tenhamos que renunciar ao convívio de pessoas queridas.

Embora estejamos operando no automático - sem perceber muitas vezes o efeito areia movediça -, é possível sair deste labirinto de frivolidades. Como não há receita universal para identidades diversas, costumo pensar no conhecimento como alternativa razoável.

Não existe sabedoria órfã. Porque nasce dos melhores mestres: bons livros, filmes de conteúdo reflexivo, peças teatrais e manifestações artísticas cujo mote é retirar do homem a ideia de protagonismo. O papel principal não nos pertence, mas à natureza, para a qual devemos olhar todos os dias. Quando a observamos com atenção, apendemos quantos fenômenos precisam atuar juntos para que a vida aconteça. Portanto, observe, respire, reflita. Somos melhores quando nos conhecemos mais e mais. Assim nos tornamos sensatos, seguros. Menos dependentes de autoafirmação, desenhamos no rascunho que é viver um caminho de generosidade e contentamento.

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Claudio Murgia

Sabedoria e reflexão, o resto é silêncio. .
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