nÓs

e os laços

Taoana Aymone Padilha

Psicanalista e Atriz. Sensível e Pensativa. Tudo e nada. Decifra-me ou te devoro.

Sobre a transitoriedade

No texto ‘Sobre a transitoriedade’ Sigmund Freud conta que passeava pelos campos com um amigo e um poeta, enquanto contemplavam a beleza do ambiente. O poeta era perturbado pelo pensamento de que tamanho encanto findaria com o inverno; as flores murchariam e morreriam. O poeta constatava o que se passa, irremediavelmente, com todos nós.


Uma tempestade se aproximava lentamente. Primeiro a luz dos raios, depois o barulho dos ventos. Todo o resto era pequeno e silencioso. De repente, ela me encontrou. Violenta, sua natureza espancou os vidros do apartamento, molhando-os com suas volumosas gotas de água, sem dó. Sem nenhuma dó. Fiquei com medo, pensando que os vidros fossem quebrar e me alcançar, tamanha a força que os atingia. Depois de alguns poucos minutos, ela passou. Veloz e intensa, bela e poderosa.

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Lembrei da aula do Antonio Quinet no Midrash, quando ele falou sobre o texto de Sigmund Freud ‘Sobre a transitoriedade’, e fiquei reflexiva. Duas ideias que ele abordou ao longo da sua fala me tocaram muito: ‘a beleza do efêmero’ e ‘a beleza mordida pela morte’.

No texto ‘Sobre a transitoriedade’ Freud conta que passeava pelos campos com um amigo e um poeta, enquanto contemplavam a beleza do ambiente. O poeta era perturbado pelo pensamento de que tamanho encanto findaria com o inverno; as flores murchariam e morreriam. O poeta constatava o que se passa, irremediavelmente, com todos nós. O que é jovem e viçoso, um dia envelhecerá. O que é vivo e pulsante, um dia morrerá e endurecerá. O alegre, um dia será triste. E o triste, um dia irá sorrir.

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Para Freud, é justamente a transitoriedade que atribui valor às coisas. Pelo limite do tempo, abrem-se as potencialidades de cada instante. A vida caminha para a morte; e uma não existe sem a outra. Escreve Freud: “O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição.”

Quando perguntei para o Quinet o que ele quis dizer com uma ‘beleza mordida pela morte’, ele deu o exemplo das artes performáticas: o teatro,a dança, a música ao vivo, a performance. Nelas, a experiência de gozo é real e presente. Se dá e transborda naqueles instantes enquanto a arte se manifesta, em um tempo e um espaço limitados. Quando chega ao fim, nada resta. A beleza foi mordida pela morte.

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A flor é, para os poetas, o grande símbolo da beleza. Efêmera, o seu perfume e a sua cor não demoram para acabar. Outras flores virão, mas nunca da mesma forma. O sujeito, observador da flor, também varia, alterna-se, divaga de diferentes modos dentro daquilo que o constitui: sua teia de significantes. Observa a dor de viver para morrer ,enfim, como uma flor que um dia foi semente. A travessia, no entanto, não é só feita de dores; existem tantos outros odores, e cores, e tantas outras belezas mordidas pela morte no mundo. Basta vivê-las!

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O texto sobre a Transitoriedade é, na minha opinião, um dos mais poéticos produzido pelo pai da psicanálise. Vale a leitura.


Taoana Aymone Padilha

Psicanalista e Atriz. Sensível e Pensativa. Tudo e nada. Decifra-me ou te devoro. .
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