nota de rodapé

Um comentário aqui outro acolá nesse mundão de letra miúda

Felipe Azevedo

É quase jornalista evita amizade com quem fala mais do que escuta.
Escreve e mantém o blog blocodenota.com

Preparem-se, jornalistas, mais um show do Los Hermanos

Já consigo imaginar a confusão nas redações de jornais e revistas para decidir quem não vai cobrir o show dessa “banda que vai e volta”. Mais ainda, posso prever fãs enlouquecidos pela possibilidade de rever os quatro barbudos juntos no palco outra vez


Quando um jornalista, hoje decerto arrependido pela pauta, insiste e pergunta para um integrante do Los Hermanos se por acaso incomoda o fato da banda ser sempre lembrada por “Anna Júlia”, a resposta calma e quase didática recitada por Rodrigo Amarante talvez ultrapasse a expectativa de quem esteve acostumado com a relação afetuosa de paparico entre alguns músicos nacionais e a grande mídia. “O que me incomoda é um jornalismo preguiçoso”, devolve. A indiferença quase rebelde do quarteto carioca – composto ainda por Bruno Medina e Rodrigo Barba e Marcelo Camelo -, somado às letras de paixão complexa que sempre marcharam na contra mão do fadigado amor não correspondido, pode ter sido, em potencial, a fórmula que fez nascer e perdurar no coração pujante dos anos 2000 uma das mais importantes e originais bandas brasileiras.

Los Hermanos é quase uma religião. Fãs barbudos, tênis adidas e camiseta listrada formam filas absurdamente pacientes toda vez que o grupo dá uma pausa no hiato anunciado em 2007 e volta a se reunir no palco para celebrar ao antigo repertório. A justificativa mais comum entre os que arriscam explicar a devoção é a identificação atemporal com as letras, “parece que foi escrita pra mim”. De fato, atrevo-me dizer que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante cortaram a fita do laço artístico e inauguraram uma maneira de escrever tanto popular quanto intimista. Eles surpreenderam, portanto, os que de alguma maneira ainda estavam acostumados com a seda rasgada entre jornalistas meio-informados e artistas que sabem muito bem transformar a câmera ligada em um bom negócio.

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“Mas sempre a galera pede, né?”, tenta ainda o repórter. É verdade, tem-se duramente que admitir, “Anna Júlia” (com dois enes, por favor) tocou tanto, mas tanto que até os ouvidos mais passivos e tolerantes pediram clemência ao menor sinal do “quem te ver passar assim por mim”, angústia compartilhada também por quem assina a obra, assumidamente. A música de Marcelo Camelo é bem servida de refrão, tem um solo empolgante e grudento e um desfecho típico do bom amante que, mesmo naquelas, ainda encontra força e berra valendo-se do último fôlego contido: “mas vou reconquistar o seu amor todo pra mim”. Mas não, caro colega, obviamente a galera não pede. Pela simples repetição ou por algum fator científico (eu duvido), e no qual certamente caberia uma análise dos caciques do ramo, o hit quase nunca é lembrado pelo mar de gente (ou de lágrima) que se esgoela todo desde abertura dos portões até o cessar das guitarras e trompetes.

E como é bonito de se ver, há um vídeo, provavelmente de 2006 onde, partindo de uma genialidade sem tamanho e de uma generosidade a perder de vista, a mente editora do material preferiu focar os frames de rostos, mãos e gestos mal compassados que explodiam da plateia durante “O Vencedor”, mais uma icônica-radiante do pacato Camelo, segunda faixa do “Ventura” (uma delícia de disco, diga-se e cante-se de passagem). Como vibram esses jovens! Se o leitor reparar, sem muito esforço percebe a ausência explicita de luzinhas, telinhas acesas erguidas. Os olhos da época ainda tinham ligação direta com o mundo real, sem passar pelo filtro do HD inerte feito para-brisa que bloqueia o vento da liberdade na cara. Alta definição pra que? Viva a fase analógica das mãos livres! Guarda na memória do coração, rapaz!

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Há três anos Los Hermanos não se juntam no mesmo palco, foi em 2012 a última vez que Amarante, Camelo, Bruno e Barba deram uma pausa nos projetos pessoais para espanar a poeira dos amplificadores. O momento do reencontro dos velhos amigos parece ser a hora do recreio, é quando a gente tenta aproveitar o tempo da melhor maneira antes que o sinal da corneta soe o fim da brincadeira.

Uma nova turnê foi anunciada, em outubro a banda que serviu e ainda serve como plano de fundo para amores e desconsolos adolescentes (ou não), volta à ativa para mais uma série de shows pelo Brasil. Obviamente, mais uma vez eles terão que passar pelo purgatório da imprensa, o que se espera é que após 15 anos de uma relação não muito amigável, os colegas de profissão já estejam vacinados e, desta vez, priorizem retórica ao invés da polêmica.


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