nota de rodapé

Um comentário aqui outro acolá nesse mundão de letra miúda

Felipe Azevedo

É quase jornalista evita amizade com quem fala mais do que escuta.
Escreve e mantém o blog blocodenota.com

Você vai envelhecer

um breve ensaio sobre como o tempo passa, e de como a gente passa no tempo


Você já parou seu mundo por um instante e pensou sobre quem será daqui a 60 anos? É uma pergunta clara, mas difícil. Não assentir à velha ruga parece ser o obstáculo invisível e arrogante que nos impede de enxergar muito além do dia seguinte. Pensar na velhice, na morte e no cansaço dos quartos, é como remeter uma carta para si mesmo no futuro. Naquele cantinho da sala, no repouso da cadeira que balança, uma breve espiada para trás dirá se o que somos agora é também o que um dia escolhemos ser. Caberá, portanto, aceitar ou não o temperamento irreversível do tempo.

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Falar do “eu” mais velho é tratar da previsão de uma história inevitável, em um futuro de bengala e coluna curvada onde as memórias de uma juventude saltitante e fervorosa serão não mais ou não menos que desornadas lembranças. Recitar versos de presságio e saudade nos permite observar, de olhos fechados, as margens de nossa existência singular. Bem se adiantou Fernando Pessoa, se valendo da recordação como um prêmio de retardatário, quando gritou a plenos pulmões portugueses que “a vida é breve, a alma é vasta: ter é tardar!”.

E do que mais é feita a existência nesse mundão-sem-sentido, senão daquilo que passa por ela? Contemple a beleza do bonde, mas não se esqueça de subir a bordo.

A noção que nós temos do tempo é a de que ele é paciente e está ali, na esquina do relógio atrasado, lesado e imóvel, de boa vontade nos esperando. Permanece ali, portanto, o rapaz que dá a morte, para ser moldado e regido como uma orquestra de sopro. Puro engano: seu fôlego é tão infinito e ofegante que ele, sempre viril, corre tanto quanto acelera nosso desejo ingênuo de viver para sempre. Que dó! Pensar no futuro como um lugar distante pode ser um erro trágico e invisível, aquele que culmina no adiamento da ação, do sorriso bom.

No rodapé de “ficar sozinho”, a solidão a dois é protagonista em um romance antigo e singelo. Amar na velhice evidencia a estrada que se percorre no dito curso natural da construção da família, cuja formação se prende nos filhos e netos. Mas são exatamente esses que no final se esgueiram aos próprios caminhos e tudo volta a ser duplo, como antes. É quando aquele o casal adolescente troca a valsa da mocidade pelo sofá quieto na sala e, agora de cabelos brancos e pele cansada, se apoiam na confiança inabalável de quem envelheceu junto. No mais, da beira e na peleja dos últimos anos, sob a madeira descascada daquele móvel perfeitamente gasto, baixar a cabeça e aceitar os anos não parece mais tão difícil como antes.

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Porém, não há o medo de envelhecer sem antes sentir o gosto ácido e explosivo de ser jovem: a vaidade se confunde com orgulho e, na efervescência dos poucos anos vividos, o que se fala ainda é tão somente o que condiz. Nós vivemos para enrugar. O estrago feito agora será o passo cansado dos próximos dias. É preciso medir o tempo, sentir o medo lambendo o sangue novo nas veias. O risco do incerto é aquela pontada boa no coração - não teria a menor graça, é certo, prever tudo o que for dar errado. Abrir os braços para a dúvida enaltece o valor do improviso e fortalece a amizade com o acaso.

Distante do estereótipo das muletas, da boina desbotada e do humor ranzinza, mas sabendo que estaremos vulneráveis e frágeis, o fato da velhice ainda estremece. A incerteza de outras vidas e a inexistência de outras chances faz acender o alerta de que sim, estamos vivendo agora, estamos na carne. Tudo e todo mundo ao redor faz parte da de nossa existência única e especialíssima. Mas a vida é sempre avante, pasme. Deve ter gargalhado um velho fumante chamado Bukowski, quando enfim percebeu que graça é viver e assumiu que “todos nós vamos morrer, que circo!”.

Você já parou seu mundo por um instante e pensou sobre quem quer ser daqui a 60 minutos? O momento do agora é o mais próximo que podemos chegar do futuro, e ele está bem ao nosso alcance, implorando para ser escrito com atenção e cuidado, mas sem muitas chances para ser refeito. Portanto, tente não se arrepender quando daqui a pouco se olhar no espelho e não ter uma ideia mínima do que vê refletido nele.


Felipe Azevedo

É quase jornalista evita amizade com quem fala mais do que escuta. Escreve e mantém o blog blocodenota.com.
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