nota de rodapé

Um comentário aqui outro acolá nesse mundão de letra miúda

Felipe Azevedo

É quase jornalista evita amizade com quem fala mais do que escuta.
Escreve e mantém o blog blocodenota.com

mãe, escrevi pra senhora

tentei fazer artesanato e até pensei em comprar um perfume, mas escrever sobre uma antiga ferida no pé foi o que me restou pra dizer o quanto amo minha mãe


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Numa manobra de menino atentado que fica em pé na privada durante o banho, surfei da borda molhada da bacia quando escutei um creck embaixo de mim que me fez perder o equilíbrio. Já no chão, a louça branca quebrada rasgou e expôs carne embaixo do pé direito, fazendo nascer uma riacho de sangue vivo no box do banheiro. Na meninice dos meus oito anos, de vermelho eu só conhecia as acerolas que vez ou outra se penduravam na arvorezinha lá de casa. Já quase nadando naquele líquido de rubro encarnado, não pensei em nada e em ninguém, e antes que eu gritasse por socorro ela arrombou a porta e me acudiu num pulo só. Eu estava assustado e indefeso igualzinho ao dia em que nasci, e quase fez sarar o machucado de tanto amor que senti enquanto sangrava chorando nos braços de minha mãe...

"Eu te avisei, meu filho"

Eu aposto e reposto com quem achar conveniente perder suas moedas que mãe, qualquer uma, nasce já com uma mandinga, uma luneta comprida só delas, que permite enxergar um passo no futuro. Lá, ela vê e tem certeza que “isso não vai dar certo” e depois que a teima de filho passa por cima do anúncio já profetizado, ela enche a boca de orgulho e manda um sonoro e irritante “o que foi que eu disse?”. Coração de mãe é fogo, é um amor ardente que queima e não erra uma sequer. Ele pulsa no peito de genitora e faz estrago tal qual o sol quente faz no asfalto brilhante no calor de meio dia.

Mãe, eu sei que você se queixa do meu jeito meio bruto-amante de falar, que você não suporta quando fico de mau humor e quase não olho no seu rosto quando chego em casa cansado. E você está certa, enquanto me preocupo com tudo que na vida me dizem que preciso me preocupar, tu não para um minuto que seja de pensar em mim. Sei disso quando, do nada, me liga perguntando se já almocei, se está tudo bem ou se eu me lembrei de fazer aquele favorzinho que me pediu. Acho que, se daqui a alguns anos eu medir na balança quanto vale (em dinheiro mesmo) cada ligação dessas que me faz, o valor daria para construir no mínimo 10 berçários como aquele que você sempre sonhou em abrir. Acho que os bebês que você nunca pôde cuidar iriam encontrar em você mais amor e boa vontade do que em qualquer outro ser humano que já viveu nesse mundo.

O que se esqueceu de me dizer, portanto, foi que você é única e não vai estar aqui pra sempre. Que coisa injusta. Imagina só caminhar por uma ponte segura, daquelas chumbadas de ferro e cimento que nem o sopro violento do vento consegue derrubar e, sem nenhum aviso ou sirene, o chão se abrir embaixo dos pés? Perder mainha é perder o sentido do caminho por onde se percorre a vida incerta. A senhora, dona Dolores, deveria ser pra sempre, do mesmo jeitinho que é o amor que sente por mim, já pensou?

No mais, do alto da minha baixa criatividade, vi dessa forma a melhor e mais sincera maneira de te falar alguma coisa que fizesse sentido. Eu sou péssimo com lembrancinhas de artesanato, pior ainda em comprar presente, principalmente quando o orçamento mal cabe a passagem pra faculdade. Mas tudo é passageiro, mãe, que nem eu sou quando todo dia pego aquele ônibus lotado pra ir estudar, tendo a certeza de que o bom futuro ainda espera por nós e que todo perrengue tem prazo de validade. Da palmada ao afago, a muralha grossa que a senhora construiu em mim me fez um homem forte, um lenhador de tronco maciço em floresta fechada.

Por isso não se preocupe, não. Deixe que o resto a vida me ensina. Vá curtir os seus netos, o seu sítio e sua plantaçãozinha de coentro. Quando menos esperar vai perceber que estou solto e sem perder o equilíbrio, já lidando com o mundo de peito aberto. Agora você não precisa mais me colocar nos braços pra me socorrer, já conheço o vermelho do sangue e a ferida do meu pé já sarou. Deixe-me então inverter a cena e me fazer no papel daquele que vai te socorrer num só salto quando sua louça rachar. Um beijo de seu filho!


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