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Felipe Azevedo

É quase jornalista evita amizade com quem fala mais do que escuta.
Escreve e mantém o blog blocodenota.com

O auto da Compadecida: após meio século, a trupe de Ariano permanece viva

Após mais de 60 anos de sua primeira montagem, ainda é desafio falar sobre O Auto da Compadecida. A peça que é a obra-prima de Ariano Suassuna permanece por décadas no imaginário e, a cada novo contato com o universo lúdico de Taperoá, confirma-se a genialidade de um dos maiores escritores brasileiros. O texto riquíssimo integra o erudito com o popular sob a regência de personagens vívidos e que de tão fieis ao cotidiano nordestino, parecem ter saltado da trama.


O Auto da Compadecida foi escrito em 1955 pelo jovem Ariano, rapaz paraibano morando no Recife, cidade que viria a ser palco, um ano depois, das três primeiras apresentações de sua peça (a terceira sessão foi cancelada por falta de público). Sob a montagem do Teatro Adolescente e direção de Clênio Wanderley, o espetáculo que não havia gerado muitos aplausos foi encenado no ano seguinte no Teatro Dulcina, no Rio de Janeiro, durante o I Festival de Amadores Nacionais. Auge do festival, o auto pouco tempo depois seria publicado (Editora Agir), transformando o jovem escritor até então conhecido apenas em Recife no responsável pela “nova cara do teatro brasileiro”, como foi chamado.

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Nos anos seguintes a previsão de que nascera um novo teatro no Brasil a partir das mãos de Ariano foi concretizada frente à força impressionante com que O Auto da Compadecida tomou o mundo. A peça foi traduzida em incontáveis idiomas e encenada nos quatro cantos do planeta. Países como Alemanha, Portugal, Holanda, Grécia, Espanha e Estados Unidos criticaram muito bem a obra do paraibano. Em 1971 os jornais franceses Le Monde e Le Figaro estamparam suas páginas com calorosos elogios ao auto após a peça ser apresentada no Teatro Odéon, em Paris. Aconteceu da mesma maneira no México, Suíça, Argentina e por onde tenha passado a trupe.

No texto original, Ariano fez questão de ressaltar que sua peça deveria ser encenada como um espetáculo circense: “os atores devem entrar em cena como um grupo de saltimbancos”, escreveu para descrever o cenário que dá início ao espetáculo. É dessa maneira e sob esse fundo lúdico de mamulengos em lona armada, que se desenvolve todo o diálogo entre os habitantes de Taperoá. A montagem original não requeria mais do que um picadeiro dividido por panos pendurados. A dupla João Grilo e Chicó, neste contexto, parece ser o cerne do enredo que se desenrola em três atos culminando, ao final, em uma divertida história cheia de diálogos rápidos e afiados, cujo protagonismo, ao final, de certa forma é transferido para a Compadecida. É ela, a mãe de Deus, que roga para a salvação dos personagens.

Apesar de ser incontestavelmente uma obra teatral de sucesso que atravessa meio século, O Auto da Compadecida tornou-se ainda mais conhecido há 17 anos quando adaptada para uma minissérie em quatro capítulos na televisão aberta que, logo em seguida, foi compactada para o cinema dirigido pelo pernambucano Guel Arraes. As duas adaptações tiveram sucesso espetacular tento pelo roteiro que foi, até certo ponto, fiel ao texto original, quanto pela atuação de um elenco primoroso em sua maioria sudestino, mas que soube representar com raro talento a fala e os trejeitos do nordeste.

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O que nem todos devem saber, é que o filme de Guel Arraes foi a terceira adaptação do auto para o cinema. A primeira vez que a história figurou nas telas teve a assinatura do próprio Ariano junto com o diretor George Jonas em 1969. A Compadecida, como foi intitulada a versão, teve o desafio de levar para o cinema pela primeira vez os princípios estéticos do Movimento Armorial, movimento criado por Suassuna no ano seguinte, em outubro de 1970, em Recife, com o objetivo de “realizar uma arte brasileira erudita a partir da cultura popular”, como ressalta Carlos Newton Júnior, em edição especial de O Auto da Compadecida (Editora Agir, 2004), em celebração ao cinquentenário da obra.

Reza a lenda que certo crítico de teatro um dia perguntou para Ariano de onde ele havia tirado as histórias do gato que descome dinheiro, do testamento deixado pelo cachorro do padeiro e também da gaita que recussita defunto. O escritor respondeu, então, que tudo havia sido retirado dos folhetos de cordel. “Mas o que o senhor escreveu, então?”, indagou o rapaz e logo obteve a resposta: “Eu escrevi foi a peça”.

O Auto da Compadecida, nasceu do folhear de cordéis, literatura quase obrigatória para quem se propõe a escrever sobre o povo do sertão esses e outros tantos causos mágicos que saíram da cabeça dos sobreviventes João Grilo e Chicó, são fruto de um escritor que soube alinhar o erudito e o popular em tudo que fazia. Todo o contexto da obra é firmado entre contrastes, enfretamentos entre o sagrado e o profano, entre o bem e o mal e, principalmente, entre a vida e a morte. A obra se destacou entre todas as outras produzidas por Ariano justamente por conter o teor inclusivo que engloba e faz com que se identifique o povo brasileiro. Esse protagonismo fez com que todo o acervo do autor figurasse numa espécie de segunda prioridade: com a possível exceção de O Santo e a Porca, muito do que fez o escritor paraibano foi inevitavelmente posto em comparação com O Auto da Compadecida.

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Se Mario de Andrade, com Macunaíma, tentou construir o retrato do povo brasileiro, Ariano se valeu da influência no teatro de mamulengos, de suas experiências e leituras para mostrar o retrato de um povo já formado, do brasileiro que ri da própria desgraça ao passo que não perde a esperança de dias melhores.

Após seis décadas, a trupe de Ariano Suassuna continua martelando suas mazelas pelo mundo. É como se a história que aconteceu em Taperoá se repetisse todos os dias, firmando ainda mais a qualidade de escritor que foi Ariano.

Ilustrações de Manuel Dantas Suassuna


Felipe Azevedo

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