notas marginais

Escrevendo a contrapelo

Leonardo de Lucas da Silva Domingues

Continuar pensando. Para além das amarras da lógica e do próprio pensamento.

Mutterland: Brasil como terra mátria de Thomas Mann

Por meio de uma troca de cartas,Thomas Mann expressa o desejo de conhecer a terra da mãe, chamada por ele de terra mátria. Para explicar esse contexto, o artigo resgata a história de Julia da Silva Bruhns e de sua importância para a formação intelectual do filho escritor.


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Em 8 de abril de 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, uma carta vinda dos Estados Unidos, endereçada ao bairro de Higienópolis em São Paulo, tem como destinatário o diretor de teatro e jornalista de Viena Karl Lustig-Prean. Exilado no Brasil desde 1937, Lustig-Prean era o líder da filial tupiniquim do grupo anti-nazista Movimento dos Alemães Livres. A correspondência em língua germânica tinha um trecho curioso: “Apenas uma certa corpulência desajeitada e conservadora de minha vida explica que eu ainda não tenha visitado o Brasil. A perda de minha terra pátria deveria constituir uma razão a mais para que eu conhecesse minha terra mátria. Ainda chegará essa hora, espero”.

O autor da carta era o já famoso escritor alemão Thomas Mann. No início dos anos 1940, Thomas, assim como seu irmão Heinrich, era um dos intelectuais alemães mais conhecidos no combate ao nazifascismo. Lustig-Prean via no autor de Os Buddenbrook a inspiração intelectual e espiritual para todos os movimentos livres alemães. Os dois estavam mantendo uma regular correspondência, que em sua maioria se tratava do fortalecimento dessas organizações em solo sul-americano. Apesar de menções esparsas ao Brasil, o país nunca havia sido um tema propriamente dito ou algo que centrasse a redação de seus escritos.

Com a carta de 8 de abril a história muda de figura. Lustig-Prean viu nela a expressão de um desejo de Mann, mesmo que latente, de conhecer o Brasil. O texto fala em perda da “terra pátria” por conta da tirania do nazismo e de busca por sua “terra mátria” – Mutterland em alemão. Até essa época, poucas pessoas no país tropical tinham conhecimento sobre a inusitada origem de sua mãe. Seu nome, Julia, até podia passar despercebido, mas o sobrenome materno era o mais brasileiro de todos: da Silva.

Nascida em 1851, em Paraty, Julia da Silva Bruhns era a quarta criança do casal teuto-brasileiro Johann Bruhns e Maria Senhorinha. O pai provinha de Lübeck. Era um jovem e rico comerciante de café e de açúcar, proprietário de terras no Sudeste. A mãe era filha de um bem-sucedido e respeitado fazendeiro de Angra dos Reis. Na época, o Brasil ainda contava com a mão de obra escrava e as plantações de cana-de-açúcar e de café eram as predominantes no estado fluminense.

Com cinco anos Julia perde a mãe, falecida num trabalho de parto. Dois anos depois, com a diminuição da produção agrícola e com a expansão de um surto de febre amarela, sem ter esperança de um futuro melhor, Johann parte com os filhos de volta à cidade natal alemã. Em pouco tempo, Dodô, como era seu apelido, perde também o contato com a língua materna. Dela guardou algumas palavras, expressões e a canção de ninar Molequinho de meu pai, que aprendera com os escravos de sua fazenda. No entanto, Julia não se esqueceu das histórias de seu tempo de criança (as copilou no livro Lembranças da infância de Dodô, escrito em 1903).

Anos mais tarde, Johann volta ao Brasil, mas dessa vez apenas com os filhos homens. Julia é criada pela avó paterna e depois passa a morar num pensionato. Antes de completar 18 anos, Dodô se casa com o senador de Lübeck e comerciante Thomas Heinrich Mann, dez anos mais velho do que ela. Em 1871, nasce o primeiro filho do casal: Luiz Heinrich. O “Luiz”, nome brasileiro, veio como homenagem ao irmão, e também não deixa de ser uma forma de relembrar o país que deixou ainda menina. Heinrich, assim como Thomas, não se cansaria de ouvir as histórias sobre esse passado tropical da família.

Thomas não terá um nome característico como o irmão, mas herdará os olhos da mãe. Olhos negros e brasileiros na opinião do filósofo alemão Theodor Adorno, que em 1962 escreveu uma homenagem póstuma ao escritor. Além da genética, também vem do contato materno o gosto pela música, pelas artes e pela própria literatura. Em seus livros, vários de seus personagens serão inspirados, de alguma forma, em Julia: Gerda Arnoldsen, a mãe de Hanno em Os Buddenbrook; Consuelo, a mãe de Tonio Kröeger; a senadora Rodde, em Doutor Fausto.

Além disso, também estão presentes na escrita de Mann características que remontam diretamente à origem da mãe como a questão da mestiçagem, o lado exótico do sul e a curiosidade pelo estrangeiro. A América do Sul ainda chega a ser destino de, pelo menos, dois personagens: Christian Buddenbrook e Felix Krull (livro inacabado). Pelo conhecimento da trajetória de Julia, Thomas ressignifica a sua condição de exilado, sua multiplicidade étnica e cultural e sua posição política sobre o enfrentamento do nazifascismo.

Voltando à história da carta. Lustig-Prean ficou muito entusiasmado com aquelas palavras de 8 de abril, mas, naquele momento, não encontrou meios para fazer com que o desejo expresso por Mann se tornasse realidade. O diretor de teatro ainda, como forma de manter viva essa relação entre o escritor e sua terra mátria, enviou reportagens e textos sobre a recepção de suas obras no Brasil. Apesar de mais algumas cartas trocadas de ambos os lados, após um tempo a correspondência diminuiu e se interrompeu por um longo período. Somente quatro anos mais tarde é que Lustig-Prean viu a possibilidade de mobilizar alguns intelectuais para trazer Thomas à terra de sua mãe.

Em carta de 31 de outubro de 1947, Lustig-Prean envia novidades a Mann. No Diário de Notícias, jornal de grande circulação do Rio de Janeiro, havia saído uma matéria intitulada Thomas Mann, filho de brasileira. O autor era o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. No texto, Freyre conclama a Academia Brasileira de Letras (ABL) a convidar Thomas Mann a vir ao Brasil. Mann se anima com a possibilidade, mas o convite formal não chega. Numa outra carta, em maio de 1948, Lustig-Prean relata que na Folha da Manhã tinha saído um artigo com o mesmo tema, exigindo uma atitude da Academia para honrar esse grande e internacional filho de uma brasileira.

No livro sobre a relação de Stefan Zweig com o Brasil, Morte no paraíso, Alberto Dines relata um fato anterior, colhido por uma entrevista com o próprio sociólogo pernambucano. Nela, Freyre conta que procurou Lourival Fontes, ministro da propaganda de Getúlio Vargas, para conseguir trazer o escritor alemão ao país. Fontes considerou, na época, não adequado o convite a um feroz combatente e opositor do nazismo. É só então, como segunda tentativa, que o sociólogo se dirige à ABL.

No entanto, a Academia desconfia que Thomas seja comunista, já que seu irmão, Heinrich, era um ativista declarado. Passa o tempo e o aguardado pronunciamento sobre a visita de Mann não é anunciado. Freyre recorre, então, a Assis Chateaubriand, jornalista influente e proprietário dos Diários Associados. Chatô se empolga com a expectativa, mas logo percebe que não há no governo clima político e institucional que respalde a empreitada.

Ao final, o desejo de Thomas Mann não se realizou. O escritor alemão não pisou na terra que deixou tantas lembranças boas para sua mãe. Apesar disso, Mann ainda estabeleceu algum contato com intelectuais brasileiros como Herbert Caro, Erico Verissimo e Sérgio Buarque de Holanda. Além disso, a história de Julia da Silva Bruhns atravessou gerações na família Mann. Atualmente, o neto de Thomas, Frido Mann, tem resgatado a memória dessas origens tupiniquins em romances e em ações, como na criação da Associação Casa Mann, que visa transformar a propriedade em que Julia nasceu num centro cultural.

REFERÊNCIAS

DINES, A. Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. KUSCHEL, K; MANN, F; SOETHE, P. A. Terra mátria: a família de Thomas Mann e o Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013


Leonardo de Lucas da Silva Domingues

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