Patricia Abilio

Sou culta, fajuta, sou rasa.

A Arte Surreal e Visceral de Ray Caesar: O corpo feminino híbrido

Ray Caesar foi influenciado por anos de trabalho no departamento da ala infantil de um hospital em Toronto. Tal influência denominou seu estilo característico, Surrealismo Pop. E nos surpreende com temáticas ousadas e sombrias da infância à puberdade feminina. Suas personagens, sempre melancólicas, nos remetem a outras épocas, até mesmo ao mundo imaginário dos sonhos, mas está longe de ser um conto de fadas com um final feliz.


O artista nasceu em 26 de Outubro de 1958 em Londres, Inglaterra. Sua autobiografia é no mínimo intrigante. O mais novo de 4 irmãos, nasceu um cachorro seu alterego, numa família de lobos. Fazendo uma alegoria ao seu temperamento indisciplinado e rebelde. Desde de muito cedo demonstrou interesse pelas artes, desenhando tudo que via em sua frente. Devido a problemas familiares, o jovem artista se muda para Toronto, onde continua desenhando, porém seu gosto peculiar, choca e impressiona, por ser atípico e sombrio, não é bem aceito publicamente. Formou em arquitetura porém foi trabalhar em um hospital infantil no departamento de Arte e Fotografia onde ele testemunhou de perto o sofrimento e os ferimentos em crianças, o que afetou diretamente a sua arte, uma forma de terapia. Durante muito tempo, documentava através de relatos, casos de abuso infantil, reconstrução cirúrgica entre outras coisas. Isso influenciou de maneira preponderante em suas obras. O artista retrata figuras femininas híbridas com aspecto infantilizado. Criando suas próprias categorias corpóreas distintas e surreais.

Ao entrar em contato com o fantástico mundo imaginário de Ray Caesar, somos levados ao mundo ideal e pitoresco, parece um conto de H. P. Lovecraft. Seus desenhos são feitos a lápis em papel, e são dimensionados em programas 3D, tendo o resultado final uma ilustração sublime e sombria. Passando para as telas um clima surreal e sombrio, o artista produz obras de realidade distorcida, como se as mulheres que retrata tivessem a inocência roubada, resgatando assim, a melancolia feminina por vezes infantil em sua obra. A arte digital de Ray Caesar tem influência no Surrealismo, assíduo fã de Salvador Dali. Suas figuras femininas enigmáticas que surgem rompendo estereótipos e que muitas vezes parecem terem saído de um conto de fadas medonho. A inocência da infância se rompe em um cenário de fetiches e fantasias sombrias. ARABESQUE (2009).jpg ARABESQUE (2009)

Podemos analisar na obra acima que as figuras femininas exibem no olhar um distanciamento do observador. Um olhar melancólico, triste estará presente em outras figuras. Em Arabesque, 2009- Vemos a inocência roubada. Ray Caesar  TEA WITH ME AND HE.jpg TEA WITH ME AND HE, 2012

Evidentemente faz uma alusão ao conto de Charles Perrault, posteriormente adaptado pelos irmãos Grimm, numa versão mais aceitável e censurada. “Chapeuzinho Vermelho”, que na versão original é macabra, envolvendo antropofagia, canibalismo e conotação sexual inclusive. Tomar uma chá com o lobo mau, é um tanto quanto ousado para uma garota. Demonstrando o perigo eminente num gesto tão inocente. Detalhe no olhar malicioso do lobo mau. SANTA MARIA (2007).jpg SANTA MARIA, 2007

Um situação cotidiana, dentro de ambiente familiar, o quarto, uma mulher bonita fuma e olha diretamente para o observador com sensualidade, ao contrário de outras obras. EBB TIDE (2007).jpg EBB TIDE (2007) Nessa obra vemos uma mulher, tomando um banho de sol numa praia, enquanto aprecia a brisa do mar. Detalhe: uma mulher hibrido de polvo. Outras figuras também tem esse aspecto antropomórfico. Fazendo alusão aos contos do escritor H.P. Lovecraft. MOURNING GLORY (2008).jpg MOURNING GLORY (2008)

Em Mourning Glory, 2006 – vemos a figura muito familiar a da “ninfeta” uma adolescente, que ainda não se tornou mulher, com rosto de criança e corpo voluptuoso, posa de forma provocativa sendo sexualizada, por seu corpo, sua jovialidade e sensualidade pueril. O fenômeno da “garotinha sexy”, aos olhos de uma sociedade patriarcal. THE ATLAS OF ANATOMY (2008).jpg THE ATLAS OF ANATOMY (2008)

Novamente a figura da ninfeta, pousando de forma provocativa e desinibida. Uma crítica as definições de infâncias e critérios para padrões sociais. SELF EXAMINATION (2011).jpg SELF EXAMINATION (2011)

A masturbação feminina sem tabu. A mulher deve sim, conhecer o próprio corpo, mas durante muito na História esse ato que até então “aceito” aos homens, as mulheres que praticavam tal ato, eram consideradas impuras e até condenadas de bruxaria por copularem o diabo. ASTERION 2011.jpg ASTERION 2011

A demonização das mulheres na Idade Média era muito comum, por parte da igreja que condenava veemente o sexo. O manual Malleus Maleficarum, foi usado pela Inquisição para caçar “bruxas”. As raízes da construção de um discurso misógino, através de um processo contínuo de reafirmação. BLESSED.jpg BLESSED

Vemos novamente outro tabu na sociedade ocidental: mulheres tatuadas. Fazendo um paralelo com a sociedade das aparências, por baixo dos panos, ninguém sabe o que se esconde. A partir do século XIX, a tatuagem tornou-se tendência entre as mulheres da burguesia vitoriana. Detalhe: a mulher é vitoriana, usa roupas da moda, maquiagem, corte de cabelo e “esconde”, sua arte no corpo. Comumente os desenhos eram tatuados nos braços ou da barriga para baixo, posteriormente essa prática foi abolida entre as damas vitorianas e associado as mulheres de classe baixa, que trabalhavam em circos, dançarinas. 4df15011bc54d8d1ec2e8ee054751113.jpg

THE BURDEN OF HER MEMORIES (2004)

Uma alusão a obra de Dali “ A Persistência da Memória, 1931”- Uma tela complexa, passível de interpretações. Vemos acima que a mulher carrega o peso de suas lembranças. Sendo que ela sozinha não consegue mais sustentar. A perspectiva do tempo, um fenômeno cultural que caracteriza a urgência de nossas memórias, uma máquina do tempo na nossa mente, literalmente. Ao lidarmos com nossas memórias, necessariamente, somos obrigados a suportar nossas frustações. Acontecimentos da memória passada em contraste com a memória presente, buscamos constantemente as lembranças é algo inerente ao ser humano. Sem elas, seriamos meros robôs.

Ao fim e ao cabo, é evidente como o artista foi influenciado por anos de trabalho no departamento da ala infantil de um hospital em Toronto. Tal influência denominou seu estilo característico, Surrealismo Pop. E nos surpreende com temáticas ousadas e sombrias da infância à puberdade feminina. Suas personagens, sempre melancólicas, nos remetem a outras épocas, até mesmo ao mundo imaginário dos sonhos, mas está longe de ser um conto de fadas com um final feliz. A crítica ácida, sobre abuso infantil, sexualidade exacerbada entre outros tabus numa sociedade machista, fornece dispositivos para construção pictórica de Ray Caesar.


Patricia Abilio

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