Patricia Abilio

Sou culta, fajuta, sou rasa.

O Mundo Se Despedaça: Chinua Achebe

Um dos romances fundadores da moderna literatura nigeriana, "O mundo se despedaça" foi publicado originalmente em 1958, dois anos antes da independência da Nigéria. Seu autor, Chinua Achebe, é um dos maiores escritores africanos da atualidade.
A história se passa em Umuófia, a aldeia mais temida da Ibolândia, terra do povo ibo, e o personagem principal é o bravo lutador Okonkwo, um dos respeitáveis patriarcas da comunidade. Mas seu mundo de repente, começa a ruir.


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"O mundo se despedaça", narra o começo da desintegração da cultura ibo, ameaçada com a chegada dos europeus, onde até então um mundo fechado ao estrangeiro, protegido, com valores, crenças e costumes típicos e característicos do seu povo. Os ibos tribo se estabeleceram no sudeste da Nigéria, eles conheceram a monarquia por influência dos reinos da região, porém predominou um sistema social baseado nos laços familiares, os "clãs", nesse sentido, a linhagem determinava o quão próximos os parentes deveriam morar e trabalhar nas tarefas na comunidade. Determinava também, o poder político dentro do clã, os chefes e patriarcas, baseados na força do oráculo, ritual em que os anciãos se mascaram (para personificar os espíritos dos ancestrais).

“Os missionários dormiram suas primeiras quatro ou cinco noites na praça do mercado. Pela manhã, iam até a aldeia pregar o evangelho. Perguntaram quem era o rei do vilarejo, e os aldeões responderam que lá não havia rei. – Nós aqui temos os homens de grande título, os sacerdotes-chefes e os anciãos- explicaram eles.” (Chenua Achebe, p.169)

Contudo, nesse sistema, estava extremamente vinculado a produção da terra, já que a riqueza para os ibos, está relacionada coma semente, ou seja, a fartura nas plantações de inhames, para que eles pudessem fazer o escambo com outros tribos e adquirir assim, outros produtos como: o sal, peixo, tabaco, facões,pólvora, caldeirões, entre outros. Somente aqueles que eram bem aventurados poderiam favorecer os familiares e amigos, atingindo mais títulos e conquistas dentro da aldeia. Um homem humilde, obtinha com facilidade um grau mais baixo de títulos e consequentemente para subir de posição tinha que se submeter a algumas condições. Somente os ricos obtinham os títulos mais aspirados e importantes, trazendo consigo certos direitos e adornos que os diferenciavam dos demais dentro da aldeia. Tamanho era a importância dos títulos que durante o tráfico negreiro, raro era o 'ozo'((título mais elevado na tribo) tomado como escravo, mas quando tomada a vítima geralmente cometia suicídio.

“Toda a gente conhecia Okonkwo nas nove aldeias e mesmo mais além. Sua fama assentava-se em sólidos feitos pessoais. Aos dezoito anos, trouxera honra à sua aldeia ao vencer Amalinze, o Gato, um grande lutador, campeão invicto durante sete anos e toda a região de Umuófia a Mbaino.Amalinze recebera o apelido de o Gato porque suas costas nunca tocaram o solo. E foi ele quem Okonkwo derrotou, numa luta que, na opinião dos mais velhos, fora das mais renhidas desde a travada, durante sete dias e sete noites, entre o fundador da cidade e um espírito da floresta.” (Chinua Achebe, p23)

O herói da história é Okonkwo, conhecido para além das nove aldeias da orla do rio Níger, exímio agricultor, possuía uma grande plantação de inhame, guerreiro mais temido em Umuófia, destinado a grandes feitos.Cuidava laboriosamente de sua terra, cuidando do celeiro, plantando sementes, construindo sua casa masculina (obi), colocando a imagem dos deuses em seu lar. Ergueu habitações para suas mulheres, construindo o galinheiro e cercando a área de terra com um muro, para proteger a comunidade.

“A prosperidade de Okonkwo era visível em seu lar. Possúia um amplo Copound, com várias habitações rodeadas por um grosso muro de terra vermelha. Sua própria casa, ou obi, erguia-se imediatamente atrás da única porta existente no muro vermelho. Cada uma das três esposas tinha uma morada própria e o seu conjunto formava uma espécie de meia-lua por trás do obi.” (Chinua Achebe, p.33-34)

Desposou três mulheres e teve filhos com cada uma, fazendo uma barraca para cada esposa. Recebeu 2 títulos dentro da hierarquia do clã, durante as cerimônias sobre questões conjugais e de terra, Okonkwo se mascarava e assumia o lugar dos antepassados. Devido a sua personalidade forte, frequentemente se envolvia em brigas e passa a enfrentar dificuldades por ser impetuoso.

“Okonkwo governava a família com mão pesada. Suas esposas, principalmente as mais jovens temiam constantemente seu temperamento violento, assim como os filhos menores.” (Chinua Achebe, p.32-33)

Durante o festival do inhame, de grande tradição, algo terrível acontece, sua afronta aos deuses faz com que e ele agrida uma de suas mulheres na semana de paz, fato que culminou em sua desgraça e exílio, período que o guerreiro é obrigado a voltar para a aldeia da mãe e conhecer o seu pior medo, o homem branco.

A agricultura ou seja, a fecundidade da terra e também dos animais, estava intimamente vinculada a crença nas divindades, que alteravam o curso da natureza de acordo com os gestos e a fé humana. Por isso a importância de zelar pelas regras e costumes para manter viva a tradição. De modo que, tudo que era considerado ruim, era lançado fora "floresta maldita", o que era ruim, mau agouro: crianças gêmeas ou crianças perversas ( ogbanjes), consideradas abominações e deixadas na floresta. Houve porém a resistência por parte das mulheres, as mães que não aceitavam por fim a vida de seis filhos gêmeos.

O europeu se instala na tribo com suas crenças, valores, e armas, se apropriou da ordem social ibo para impor sua religião, catequizando: o oprimido, o sonhador, o desprezado, o rebelde, todo aquele que discordava em algum aspecto da sociedade de modo geral. Evidentemente, quando Okonkwo regressa para a aldeia, tudo está diferente, um de seus filhos Nowoye é catequizado, e se vê esvaecer suas esperanças de viver num mundo fragmentado, dentro da perspectiva do herói, a santa fé do homem branco significava que a sua própria religião e a descendência de seus filhos estava ameaçada.

O conflito eminente começa a partir do momento que a história da aldeia ibo desmorona, se transforma cultural e socialmente, por meio da dura experiência da dominação estrangeira. Sua terra sucumbira, seu povo se convertera seus irmãos recebendo a chibata, seus lideres silenciados e amedrontados pelo homem branco. Ao fim a ao cabo quando os ibos percebem que uma nova forma de governo se instalara ali é tarde demais, um único Deus, uma religião, escolas e instituições reguladoras uniram-se ao clã. A sociedade pós- colonial nasce, cheia de conflitos aterrorizantes, pouco harmoniosos e opressivos.


Patricia Abilio

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