Patricia Abilio

Sou culta, fajuta, sou rasa.

Sejamos todos Feministas: Chimamanda Ngozi Adichie

““Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”.
Sua bisavó também era feminista quando decidiu fugir de casa e dos abusos e se casar com o homem que escolheu.
Joana Darc, Cleopatra, Elizabeth, Frida Kahlo, Dandara dos Palmares, Maria Bonita entre outras eram todas feminista, mesmo não existindo uma definição para o termo, mulheres de seu tempo, lutaram e reivindicaram seus direitos.
Para Chimamanda Ngozi Adichie, o melhor exemplo de feminismo que conhece é seu irmão, Kene.


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Tenho a impressão de que a palavra “feminista”, como a própria ideia de feminismo, também é limitada por estereótipos. O melhor amigo da Chimamanda Ngozi Adichie, Okoloma morreu em 2005, num acidente. Certo dia, numa conversa informal ele a chamou de “feminista”. Porém não era elogio, o tom foi o mesmo se tivesse dito que ela era uma “terrorista”. Em 2003, escreveu um romance: “Hibisco roxo”, a história sobre um homem que entre outras coisas, batia na mulher. Foi taxada por um jornalista nigeriano de “feminista”, num tom pejorativo. Seu conselho foi que ela, nunca se intitulasse como tal, pois “feministas são mulheres infelizes que não se casam.” Ao longo dos anos, foi criticada por sua própria professora, que defendia a idéia que o feminismo não era africano, ou seja antiafricano e caracteristicamente ocidental, portanto não era da cultura africana. E que se considerasse feminista era porque odiava os homens, segundo uma amiga. "Decidi me tornar uma “feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens”.

Ironicamente percebemos de maneira simples e cotidiana como o feminismo é socialmente visto de uma forma negativa, feito por mulheres que necessariamente não se depilam, que odeiam homens e sutiãs, não usam desodorante! Ou seja toda feminista é misândrica. Evidentemente, os homens desde da antiguidade ocupavam cargos e posições importantes, sendo privilegiados. Em nossa sociedade, os homens ganham mais que as mulheres e isso é aceito como algo normal, as mulheres ganham menos mesmo, ainda que desempenhem cargos equivalentes. Então porque as mulheres estão reclamando se no passado era assim, então era bem pior, atualmente está tudo diferente, certo? É comum, que num encontro homens se ofereçam para pagar a conta, sendo que algumas mulheres se ofereçam para dividir tem homem que se ofende. Se pensarmos que ao invés do homem pagar a conta, quem ganhasse mais independente do gênero pagasse? Ou um acordo entre iguais da divisão? Tem mulher que reproduz o discurso machista, afirmando que o homem tem que pagar a conta sim.

Homens e mulheres são diferentes, biologicamente falando. Existem porém no mundo, mais mulheres do que homens, mas os cargos de poder são ocupados por quem? A equiparação salarial existe, mas de forma literal, se for homem é melhor. A milhares de anos atrás o hominídeo usava sua força física como atributo essencial para sua sobrevivência, desempenhava atividade de caça enquanto as mulheres ajudavam na agricultura. Lideravam o clãs, lutavam na guerra e dominavam algumas técnicas importantes. Atualmente a pessoa mais qualificada para “liderar” não é a mais apta: inteligente, criativa e inovadora. Sendo homem ou mulher, a questão do gênero importa e define posição de destaque. Ao entrar num hotel na Nigéria desacompanhada, o segurança fez uma séries de perguntas relativas a sua conduta, supondo que Chimamanda Ngozi Adichie fosse uma prostituta. Partindo do pressuposto que homens desacompanhados não são perturbados e condicionados a responder certas questões.

Paralelamente o que acontece em Lagos, é um reflexo do que acontece nas grandes metrópoles, as mulheres que saem a noite sozinha, se sentem inseguras, e são expostas a todo tipo de perigo, o medo é fruto do produto em nossa sociedade patriarcal. Onde uma mulher que anda sozinha por ai, “não se dá ao respeito”, “estava querendo”. Cultura do estupro, culpabilizar a mulher que sofre o assédio é normal e aceitável. Quando escreveu um artigo, Chimamanda Ngozi Adichie foi criticada por seu texto conter muita “raiva”, mas além de raiva o texto tinha esperança e vontade de mudança. Discursos de ódio são espalhados pelas redes sociais, contra mulheres (feministas ou não) e minorias no geral. Já que a questão de gênero é injusta, porque não combater esse discurso machista e patriarcal em nossa sociedade? Diversas formas de misoginia estão presentes no cotidiano das mulheres, é uma realidade cruel.

O empoderamento das mulheres é necessário, quando escutam que “mulher não deve fazer isso, ou isso é coisa de mulherzinha”. E mesmo atribuir tarefas domésticas para as mulheres, que trabalham como os homens e quando estão num relacionamento estável devem chegar em casa lavar a louça e fazer comida. Porém se as mulheres tem o dom da culinária, porque os mais renomados e conhecidos “chefs” são coincidentemente homens? (Pasmem!) A criação das crianças é diferente de acordo com o gênero, a menina é ensinada a ser submissa, aprende a obedecer e entender que ser benquista é primordial. As meninas passam então a se preocupar com que os meninas pensam delas, sendo que o oposto não acontece. Não podem ser agressivas, falarem o que pensam ou mesmo discordar. Existem diversos livros ensinando como as mulheres devem se portar, o mesmo não acontece para os homens. Se as mulheres tem que agradar os homens, porque não o contrário? É preciso criar as crianças de uma forma diferente, meninos e meninas. Os meninos são criados para não demonstrarem fraqueza, ter medo ou ser vulnerável é errado, deve então ao longo dos anos provar sua masculinidade ou do contrário é hostilizado. E se meninos e meninas fossem criados de forma a não valorizar sua masculinidade e bens materiais? Se por um lado a personalidade do homem é forjadamente dura, ríspida, seu ego é frágil. Enquanto egos masculinos se inflarem, as mulheres tendem a diminuir, a recuar, uma postura coercitiva. O sucesso da mulheres em qualquer esfera, ameaça os homens? Então necessariamente os homens que se sentem intimidados com isso, não devem ser o tipo de homem que as mulheres almejam.

As meninas são ensinadas que devem se casar para alcançar a felicidade suprema. O casamento pode ser bom ou ruim, como todo relacionamento, efêmero. Porém, as meninas aspiram o “casamento”, sendo que os meninos não. Se um homem são se casou até os 30 anos, ele está escolhendo melhor, no caso das mulheres expressões como: “ficou para titia”, “é lésbica” ou “tem gênio ruim” são comuns para evidenciar o fato de que algumas mulheres não desejam se casar ou ter filhos. E quando o fazem, ainda são criticadas, por não fazer as tarefas domésticas direitinho. Nesse sentido, as mulheres são ensinadas a ceder no relacionamento, alguém tem que ceder? Sim! Mas o respeito tem que ser mútuo senão nenhum relacionamento resiste. Sendo assim as mulheres são criadas para serem rivais umas das outras, mas isso não parece fazer o menor sentido, quando se trata de ser rival pela atenção masculina! As meninas não devem ser seres sexuais, mas a mídia a todo momento vende a imagem de uma mulher sedutora, a erotização dos corpos femininos desde crianças as meninas são condicionadas a um estereótipo. A Barbie, uma boneca extremamente sexista e que não representa a grande maioria das meninas que brincam com ela, o padrão loira, alta, magra. Isso evidentemente mudou ao longo dos tempos, porém durante muitos anos essa foi a imagem, de que apenas menina poderiam brincar de boneca ou de “casinha”. As mulheres são ensinadas a se comportarem “bem” na nossa sociedade, constantemente se sentem envergonhadas, pelo tamanho da saia, short ou do decote, cada vez que são ensinadas a fechar as pernas, como se abrir fosse uma vergonha da condição feminina. Se calam, não dizem o que realmente pensam. O problema é dizer como devemos ser em vez de sermos nós mesmos. A socialização exagera essas diferenças entre homens e mulheres. E se as crianças fossem criadas a valorizarem seus talentos independentes do gênero. Afinal o que importa é nossa postura, nosso conhecimento, bagagem, a nossa mentalidade.

As mulheres tem que parar de se desculpar, por serem femininas, condição que deve sim ser respeitada e não motivada a ser reprimida, porque a aparência diz se vai ser levada a sério? Precisamos do olhar machista que nos dita como devemos nos vestir? Vista-se como achar conveniente, desde que se sinta confortável e bem. Portanto não vamos fingir que as mulheres não foram excluídas durante séculos, que o corpo feminino é sexualizado, que as mulheres não são vítimas de abusos psicológicos e físicos, que negar é fingir! E fingir é não ignorar o fato que o problema existe. Não pensar é mais cômodo, assim como não discutir a especificidade do problema. Aceitar e dizer que está que tudo bem é uma postura conservadora que silencia os fatos. “Algumas pessoas dirão: “Bem, os homens, coitados, também sofreram . E sofrem até hoje. Mas não é disso que estamos falando. Gênero e classe são coisas distintas.” A nossa cultura está em constante transformação e pra que ela serve? Para preservar a história de um povo e dar continuidade as tradições. Somos nós que fazemos a cultura e não ao contrário, as mulheres fazem parte dela. Contudo, quando Chimamanda Ngozi Adichie foi chamada de feminista por seu melhor amigo, ela foi pesquisar no dicionário e encontrou essa definição: ““Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica entre os sexos”. Sua bisavó também era feminista quando decidiu fugir de casa e dos abusos e se casar com o homem que escolheu. Joana Darc, Cleopatra, Elizabeth, Frida Kahlo, Dandara dos Palmares, Maria Bonita entre outras eram todas feminista, mesmo não existindo uma definição para o termo, mulheres de seu tempo, lutaram e reivindicaram seus direitos. Para Chimamanda Ngozi Adichie, o melhor exemplo de feminismo que conhece é seu irmão, Kene.


Patricia Abilio

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