Patricia Abilio

Sou culta, fajuta, sou rasa.

Wild – Livre: a jornada de uma mulher em busca de um recomeço

Livre é uma história mágica e inspiradora sobre perder tudo – família, dinheiro, a mãe, o marido – e sozinha encontrar seu verdadeiro espírito em meio à natureza. Recomendo que todos leiam este livro maravilhoso sobre a jornada de uma mulher em busca de si mesma.


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"As árvores eram altas, mas eu estava mais alta, de pé acima delas na encosta íngreme de uma montanha no norte da Califórnia. Momentos antes tinha tirado as botas de caminhada, e a da esquerda caiu nas árvores, primeiro sendo arremessada pelos ares quando minha enorme mochila tombou sobre ela, depois deslizando pela trilha de cascalhos e voando sobre o penhasco. A bota quicou em um afloramento rochoso vários metros abaixo antes de desaparecer no dossel da floresta, impossível de ser resgatada. Respirei fundo, perplexa, embora estivesse em meio à natureza havia 38 dias e àquela altura já soubesse que qualquer coisa podia acontecer e que tudo aconteceria. Mas isso não significa que não fiquei abalada quando aconteceu. Minha bota estava perdida. Realmente perdida.

Segurei a outra junto ao peito, como um bebê, embora fosse obviamente inútil. De que adianta um pé sem o outro? Nada. Era insignificante, um órfão para todo o sempre, e eu não podia ter piedade. A bota Raichle de couro marrom com cadarço vermelho e presilhas de metal prateado era muito pesada, um verdadeiro fardo. Eu a ergui bem alto e a atirei com toda a força, observando-a cair em meio às árvores frondosas, longe da minha vida. Estava sozinha. Estava descalça. Tinha 26 anos de idade e também era uma órfã. Uma verdadeira desgarrada, como um estranho havia comentado algumas semanas antes, quando lhe disse meu nome e expliquei o quanto estava solta no mundo. Meu pai saiu da minha vida quando eu tinha 6 anos. Minha mãe morreu quando eu tinha 22. Depois de sua morte, meu padrasto se metamorfoseou de uma pessoa que eu considerava um pai em um homem que eu mal reconhecia. Apesar de meus esforços para que ficássemos juntos, meus dois irmãos se afastaram, cada um com sua dor, até que desisti e me afastei também.

Anos antes de arremessar a bota no penhasco daquela montanha, eu mesma estive à beira do abismo. Havia caminhado, perambulado e viajado de trem, de Minnesota a Nova York, ao Oregon e por todo o Oeste, até, enfim, acabar descalça, no verão de 1995, tão solta no mundo quanto presa a ele. Tratava-se de um mundo em que eu nunca tinha estado e que não conhecia, mas, ainda assim, durante todo o tempo, sabia que estava lá, um mundo no qual eu oscilava entre sofrimento, confusão, medo e esperança. Um mundo que eu achava que podia me transformar tanto na mulher que sabia que poderia vir a ser como na menina que já fui um dia. Um mundo que tinha 60 centímetros de largura e 4.286 quilômetros de comprimento. Um mundo chamado Pacific Crest Trail."

- Cheryl Strayed

O filme é baseado no livro homônimo, narra a história de Cheryl Strayed, interpretada pela atriz ( Reese Witherspoon)- que após perder a mãe que foi diagnosticada com de câncer no pulmão aos 45 anos, passa por um período turbulento. Com apenas 22 anos, trabalhava e estudava e já era casada com Paul, porém após a morte da mãe seguiu um caminho autodestrutivo. Anos depois, acaba viciada em heroína e se relacionando sexualmente com estranhos, fato que culminou no divórcio do casal. Depois que se divorciou, muda o sobrenome para “strayed” – cujo significado é: "desviar-se do caminho certo, perder-se, ficar louco". Era a chance de um recomeço, a ideia surgiu ao ler o livro: The Pacific Crest Trail, Volume I: California. A PCT é uma trilha contínua na natureza selvagem que vai da fronteira do México, Califórnia e Canadá. Essa distância em linha reta totalizava segundo o livro, 1.600 quilômetros, mas a trilha tinha evidentemente bem mais que o dobro disso. De início a autora diz que era uma ideia vaga e longínqua, pois estava deprimida e solitária desde então,foi quando resolveu arriscar e se aventurar rumo ao desconhecido, economizou dinheiro, largou seu emprego de garçonete, consumou o divórcio e vendeu quase tudo que tinha.

A história é visceral pois uma mulher sozinha sai de Minnesota, caminhando 1.770 quilômetros, sem experiência, sem condicionamento físico, parece uma decisão um tanto insensata e perigosa, mas também uma possibilidade de renovação. A preparação para a caminhada solitária que levou 3 meses começou a partir do momento que ela se decidiu por fazer a trilha apesar dos imprevistos: dos ursos, das cascavéis, das bolhas e feridas, dos arranhões e machucados, da exaustão e da privação, da monotonia, dor, sede, fome, do orgulho e principalmente dos fantasmas que a assombravam enquanto caminhava sozinha por 4.000 quilômetros do deserto de Mojave ao Estado de Washington.

Cheryl foi até Portland com suprimentos e comida que foram endereçados a lugares que ela poderia resgatar as caixas conforme precisasse, sua amiga Lisa colocou as caixas no correio ao longo do verão. Em meio a confissões pessoais, o drama familiar, o abuso de drogas, sexo e aborto, o livro e consequentemente o filme nos remetem a vida da personagem que decidiu se arriscar tornando-se a “rainha da PCT", nome que os trilheiros batizaram Cheryl, que na longa jornada solitária conheceu várias pessoas e fez amizades. Muitos porém já estavam familiarizados com seu nome, pois ela deixava os relatos da viagem no registro de trilhas, o que tornava o encontro mais emocionante.

A mochila de Cheryl é algo inacreditável e até cômico pois ela carregou mais do que precisava, levando coisas que não utilizou o que fez a mochila a “monstra” (apelido da mochila) ficar absurdamente pesada, dificultando todo o seu trajeto pois no inicio ela nem conseguia carregar a mochila. As botas foram outro grande incômodo machucaram seus pés causando um grande problema, suas unhas caíram com o atrito do bota e as longas caminhadas. O corpo de Cheryl se metamorfoseou: perdeu peso, ganhou músculos e uma pele bronzeada.

Evidentemente o leitor ao entrar em contato com a auto-biografia de Cheryl, fica extasiado com ela lidou com a diversidade de problemas que enfrentou sozinha, no meio do deserto, nas montanhas, exposta ao frio ou calor contínuo, em meio aos animais e a estranhos, já que uma mulher sozinha é ameaçada por diversos fatores. Apesar do guia que a ajudou, nenhum livro dá conta dos problemas psicológicos que uma pessoa na condição de trilheira e mochileira precisa se preparar de fato. O desespero, ansiedade, medo, solidão, dor e privações de qualquer regalia. Tamanha determinação e superação que parecem clichês em filmes baseados em fatos reais ou do gênero drama: “Into the Wild”, ‘Eat Pray Love”, são exemplos que nos remetem ao problema essencialmente humano: o fracasso. Somos constantemente assolados por um vazio existencial pra onde corremos afinal quando tudo na vida parece dar errado? A resposta para tal questão Cheryl encontrou caminhando pela PCT.


Patricia Abilio

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