Alexandre Sá

Alexandre Sá geralmente é nerd e highlander, mas anda meio cansado de exercitar os músculos e resolveu escrever um folhetim. Os textos aqui podem ser banais e sem nenhuma responsabilidade. A frequência é relativa. A qualidade também.

Lama

Mariana e Paris e todos os dias. Cada tragédia é única.


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Recentemente vi um post de uma pessoa muito querida que perguntava se sabíamos de Mariana. E na mesma frase, dizia que não, pois somos todos franceses. Embora ame e respeite a pessoa, não comentei. Fiz como sempre faço em alguns casos e como a rede social espera que façamos: vi sem ver. Tragédias não são possíveis de serem comparadas. Só quem as viveu, sabe.

E aquela frase terminou se somando a uma série de outros posts que alimentam a rede, o mundo e todas as posições inusitadas que optamos por ter virtualmente. Fiquei com a pergunta na cabeça, mas talvez tenha ficado mais assustado com a quantidade absoluta de pessoas que tenham optado por expressar suas infinitas opiniões, desejos e abismos. Inclusive, sem nenhuma profundidade.

A tragédia de Mariana, de Paris, da Síria, da África, do Rio de Janeiro e de todo o globo talvez tenham em comum a preponderância absoluta do capital e sua expansão em todas as esferas do viver e do morrer. Expansão esta que como o barro e a sujeira termina por destruir toda a vida realmente viva e as relações.

Se em Paris, a questão da religião encobre algo mais denso que é da esfera da impossibilidade política do conviver, recheada pela ignorância absoluta de opiniões; em Mariana, a ignorância absoluta de opiniões termina por desvelar a impossibilidade real e concreta do conviver, que nos solapa todos os dias e todas as noites; em nosso afã ingênuo de pluralidade, comunhão e pasteurização.

Pasteurização que corrói aos poucos e também como o tal líquido repleto de dejetos, invadiu as casas, as pessoas, dizimou os peixes, engoliu outros bichos e deixou um rastro que ameaça inclusive continuar longamente. Embora saibamos que o tempo da natureza é sempre outro, é inadmissível aceitar com alguma dignidade as imagens que estamos vendo. E caso você ache que são imagens com as quais lidamos desde sempre, talvez fosse bom lembrar da escala das tragédias que por sua vez, quando aliadas às microtragédias individuais, parecem ser infelizmente, um poço sem fundo.

Hoje, no tal programa de domingo que resolvi assistir para justificar a muleta psicológica minha que no momento abranda algum amargor inevitável (afinal cada um tem a droga que merece), ainda pude assistir uma reportagem sobre o desvio monumental de verbas do ministério da educação. Que através de um jogo mordaz nas licitações, superfaturou de maneira brutal aparelhos e equipamentos enviados para as escolas. Alguns aparelhos não funcionam. Outros não servem para nada. Outros têm manuais de instruções em chinês. Se mudarmos o foco e lembrarmos da desocupação brutalíssima feita recentemente pela polícia nas escolas de SP, o bolo ainda ganha outra cereja.

É estranho pensar que se, em outros países, o inimigo parece completamente diluído na sociedade, e é este o pavor que provoca e exige uma reavaliação completa da política internacional, no Brasil, nosso grande inimigo é localizável, estabelecendo uma velha dicotomia que atravessa nossa história política recente. O adversário é o Estado (de sítio da ética), em sua dura postura e em seu oco exercício de escuta.

De qualquer forma, resta a esperança (que palavra é essa?) de acreditar em alguns bons sujeitos que talvez conservem em si o desejo real de mudança. Mudança esta eventualmente (e lastimavelmente) virtual e virtuosa, como este texto aqui, servirá apenas para ser mais uma metáfora de alguma postura consciente. E que também parará por aqui. Afinal o autor este, precisa terminar um trabalho gigantesco para continuar se submetendo a pagar as parcelas diárias da sua doce covardia que já desacreditou do poder das ruas.


Alexandre Sá

Alexandre Sá geralmente é nerd e highlander, mas anda meio cansado de exercitar os músculos e resolveu escrever um folhetim. Os textos aqui podem ser banais e sem nenhuma responsabilidade. A frequência é relativa. A qualidade também. .
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